Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

DESATIVADO

O BLOG ESTA DESATIVADO COMO INSTRUMENTO DE PUBLICAÇÃO

fica como registro dos posts realizados e como marca de exercícios de utilização desta ferramenta para escrever e publicar

continuo escrevendo e publicando semanalmente a coluna “Livros e Lugares” no Jornal de Piracicaba aos domingos

também sou colonista da Revista ARRASO, publicação temática mensal vinculada ao Jornal de Piracicaba

http://revistaarraso.com.br/category/colunistas/marcio-mariguela/

quem desejar acompanhar meu trabalho como escritor é só acessar o meu site pois lá são reproduzidos os artigos (ilustrado pelo cartunista Erasmo Spadotto) impressos no jornal e na revista

Janeiro / 2014

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CONVITE – Diálogo Público: psicanálise, psiquiatria e o DSM-5

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No próximo 25 de Maio, sábado, em Piracicaba-SP, vamos conversar sobre o lançamento mundial da nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), produzido pela American Psychiatric Association (http://www.dsm5.org)

Informações e inscrições pelo site:

PROGRAMA DO ENCONTRO:

  •  Política, Mídia e o DSM-5

Apresentação: Ricardo Pacheco e Paula Benetton de Souza Cecchi

Mediação: Luiz Américo Valadão Queiróz

  •  Elisão do sujeito no DSM-5

 Apresentação: Marcio Mariguela e Marta Togni Ferreira 

Mediação: Vitor Meira Monteiro

O evento conta com o Apoio:

  • Escola de Psicanálise de Campinas
  •  http://www.escolapsicanalisecampinas.com.br
  • Residência Médica de Psiquiatria do Serviço de Saúde Dr. Candido Ferreira
  •  http://www.candido.org.br
  •  Opportunità! | marketing interativo
  •  http://www.agenciaopportunita.com.br

RSI

o Imaginário é o que resta do Simbólico

o Simbólico é o que resta do Real

o Real, bem…, deste, não  resta NadaImagem

FAISÃO ARISTOCRATA

tela do período de Luis XIV, acervo do Museu do Louvre

François Desportes Champigneulles
“Autoportrait en chasseur” – 1699

“Durante o dia inteiro, nesses passeios, eu pudera pensar no prazer que teria se fosse amigo da duquesa de Guermantes, de pescar trutas, [caçar faisão], passear de barco no Vivonne e, ávido de felicidade, não pedir à vida, nesses momentos, senão que ela se compusesse de uma série de tardes felizes (…) Oh, que belos faisões na janela da cozinha, nem é preciso indagar de onde vêm, com certeza o duque andou caçando”

(Marcel Proust – Em Busca do Tempo Perdido)

Apaixonados por culinária como obra de arte, resolvemos preparar e saborear na ceia natalina uma ave que ainda não conhecíamos pelo paladar. De pronto, a escolha foi o faisão. Ícone da aristocracia e dignamente representado nas pinturas do século XVII e XVIII. O retrato acima é um dos marcos genealógicos da presença do faisão na iconografia pictórica ocidental. Do norte ao sul da Europa, o faisão esteve presente na história da arte: em telas, azulejos e tapeçarias. Na literatura, sua presença é de igual modo marcante. Há descrições de tal beleza poética capaz de atiçar as papilas degustativas.

na mitologica figura da caçadora Diana, Boucher inclui uma rama de faisões - Coleção do Louvre

François Boucher
“Diane sortant du bain” – 1742

Como ave de caça, os nobres faziam campeonato para ver quem conseguia abater o maior número de faisão. Como não somos habilidosos com armas de caça e menos ainda temos um Bois de Boulogne disponível, apelamos ao Santo Google para descobrir onde é comercializado aves de caça. O mais próximo era o açougue Porco Feliz no Mercado Municipal de São Paulo (http://www.porcofeliz.com.br/). Com a generosidade de um amigo, os faisões chegaram até nós.

Como preparar? Há receitas disponíveis na internet e livros de culinária especializados. Nossa referência foi  À mesa com Proust (Editora Salamandra, 1991). Decidimos criar a nossa própria com os devidos acompanhamentos. Optamos por assá-los para garantir o sabor próprio da carne.

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FAISÃO ARISTOCRATA

1º passo:

três (3)  faisões lavados com água e vinagre; imerso por 10 horas num vinha-d’alho com temperos diversos, 2 colheres (sobremesa rasa) de sal, 1 garrafa de bom espumante. De tempo em tempo vá virando os faisões no molho.

flambando

flambando

2º passo:

 retire os faisões, um a um e seque com papel toalha. Flambe os faisões com conhaque. Acomode o vinha-d’alho numa panela e deixe ferver até apurar. Passe por uma peneira e reserve para posteriormente regar os faisões.

3º passo:

acomode os faisões numa assadeira, regue com o molho, cubra com papel alumínio e leve ao forno quente por 1 hora; retire o papel para dourar, enquanto isso, vá regando com o molho.

Colelão do Louvre

Jean-Baptiste Oudry
“Nature morte au faisan” – 1753

Acompanhamentos:

1-) Molho de uvas

Adicione um (1 ) litro de água quente numa panela. Acomode dois (2 ) cachos de uva itália e um (1) cacho  de uva rubi previamente lavadas e deixe por 1 minuto (isso facilita retirar a pele das uvas). Extraia as sementes.

Numa frigideira, derreta 100 gramas de manteiga e acolha as uvas mexendo levemente até dourar. Passe numa peneira para escoar a sobra da manteiga e reserve as uvas douradas. Na mesma frigideira, coloque 200 ml de mel e 200 ml de vinagre balsámico – deixe ferver até ganhar espessura. Acrescente 50 gramas de manteiga e por fim as uvas.

2-) Purê de ervilhas frescas

Cozinhe 500 gramas de ervilhas frescas por 5 minutos. Leve ao liquidificador até formar uma pasta. Em uma panela, derreta 50 gramas de manteiga, acrescente as ervilhas trituradas e vá mexendo lentamente, incluindo 50 ml de creme de leite fresco e 1 colheres (chá) de sal.

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3-) Maçã Verde Caramelizadas

Descaroçar as maçãs e cortar em meia lua em 8 partes e reserve. Numa frigideira, adicione 2 colheres (sopa) de azeite e 2  colheres (sopa) de manteiga. Inclua as maçãs e deixe fritar até amorenar. Adicione 50 gramas de açúcar mascavo e deixe fervilhar até caramelizar.

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4-) Cebolas Caramelizadas

Descascar 20 cebolas pequenas e fure o centro de cada uma com um palito de churrasco. Cozinhe em vapor por 20 a 30 minutos. Enxugue em papel toalha. Derreta 2 colheres (sopa) de manteiga, junte 1/2 colher (chá) de sal e 2 colheres (sopa) de açúcar mascavo. Misture e cozinhe por 2 minutos. Acrescente as cebolas, mexendo lentamente em fogo baixo por 10 minutos.

Acabamento – estética visual

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Numa louça apropriada, acomode os faisões com as maçãs e cebolas.

O molho de uvas pode ir em outro recipiente para regar  ao gosto.

um cássico representante da iconografia famenga. Coleção do Louvre

Jan Fyt
“Gibier et attirail de chasse découverts par un chat” – 1640

Sobremesa: 

PAVÊ DE DAMASCO COM CHOCOLATE 

Numa panela acomode 2 xícaras (chá) de damasco com 250 ml de água e deixe ferver por 15 minutos. Deposite o damasco hidratado num liquidificador e triture rapidamente. Acrescente 1 lata de creme de leite (sem soro) e 1 envelope de gelatina sem sabor devidamente preparada. Liquidifique por 3 minutos.

Numa travessa adicione 1 pacote de biscoito champagne: faça camadas e entre elas o mousse de damasco. Espere esfriar e deposite na geladeira.

Derreta 200 gramas de chocolate meio amargo com uma lata de creme de leite (sem soro), vá mexendo lentamente com o fogo apagado. Cubra com esse creme a torta pavê e leve novamente a geladeira até o momento de servir.

Bom apetite, em festa!

 

IGREJAS DE PARIS – Basílica de Saint Denis

As dezenas de igrejas espalhadas pela cidade de Paris demonstram a história da monarquia católica. Como um dos reinos cristão mais importante da Europa, Paris concentra verdadeiros tesouros arquitetônicos desde o gótico medievo, passando pelo renascentismo e barroco clássico até o romantismo do 2º império. Visitar as igrejas é adentrar num território em que o sagrado é o fundamento da política. A história de Paris pode ser narrada por suas igrejas que abrigam sepulturas de reis, rainhas, príncipes e princesas. Abrigam também os restos mortais de escritores, pensadores, artistas que muito colaboraram para ornamentar o ambiente devocional.

Basílica de Saint Denis

O estilo gótico lançou seus marcos fundadores no período medieval e sob a espada de Clóvis derrotou os romanos no final do século V,  instaurando o cristianismo como religião oficial do reino franco. Nas cercanias de um cemitério galo-romano ao norte de Paris foi edificado a primeira igreja sobre o túmulo de St. Denis, o primeiro bispo dos franceses, decapitado pelos romanos no ano 250. A tradição atribui a Santa Genoveva a construção do primeiro santuário em torno de 450.

exemplar gótico de grande esplendor

A atual Basílica de Saint Denis foi edificada a partir deste santuário que rapidamente tornou-se um centro de peregrinação. Ao seu redor foi edificado um monastério beneditino e desde o século VII passou por varias transformações com o impulso inicial do rei Dagoberto que tornou-se o benfeitor e elegeu St. Denis como patrono e protetor dos monarcas. A história da Basílica se funde com a historia da monarquia cristã, abrigando túmulos de praticamente todos os regentes até Luis XVI e Maria Antonieta.

interior da Basílica com rosácea ao fundo

Sob a regência do abade Suger (1122-1151), conselheiro real, a Basílica adquiriu novas técnicas arquitetônicas, rosáceas e abóboda sobre cruzeiro de ogivas. Um esplendor de luz inundou o espaço que consagrou reis e rainhas. Ao mesmo tempo, neste espetáculo luminoso, os restos mortais da monarquia descansam em paz. A abside do abade Suger foi projetada para ostentar as relíquias dos mártires. A ausência de muro concreto entre as capelas centrais e a abside (capela em formato semicircular atras do altar-mor ou nave central) criam um muro de luz contínuo. Dos vitrais do abside somente cinco foram poupados da destruição pelos revolucionários franceses do final do século XVIII. Nesta capela luminosa estão as efígies da monarquia merovíngia – o rei Clóvis e seus filhos  são a gênese do cristianismo na França.

abside do abade Suger

A Basílica abriga atualmente mais de 70 efígies e túmulos, sendo considerada  uma coleção única na Europa. No passeio pela Basílica podemos apreciar os avatares da arte funerária, das efígies do século XII esculpidas  com os  olhos abertos; também  as grandes composições do Renascimento que associavam a morte à esperança da ressurreição. Foi exatamente neste significante que a sensação do expectador repousou: pareceu-me que toda aquela monarquia ali sepultada sob o manto infinito da luz, estão a espera da ressurreição.

túmulo de Henrique II e Catarina de Médicis

Dentre os monumentos funerários, destaque para o túmulo do rei Dagobert I, grande representante da dinastia Merovíngia; e para o templo funerário de Henrique II e Catarina de Médici, representantes da dinastia dos Valois. O tumulo do rei foi edificado em meados do século XIII a pedido dos monges beneditinos que o consideravam seu fundador. Esta situada no lugar onde o soberano foi inumado em 639. Seu corpo foi esculpido com a cabeça virada à direita, como se estivesse a olhar eternamente para as relíquias de St. Denis. As esculturas que adornam o túmulo, ilustram a lenda do eremita João que sonhou com a alma de Dagobert sendo arrancada dos demônios, graças a intervenção dos santos Denis, Maurice e Martin.

símbolo da realeza sepulta

O túmulo templo de Henrique II surgiu da vontade expressa de Catarina de Medici para a memória de seu esposo e em honra os Valois. Foi desenhado por Primticio e esculpido por Germain Pilon entre 1560-1573,  utilizando uma combinação equilibrada entre o mármore e o bronze, este monumento é um exemplar da presença da arte italiana em solo francês. Os anjos, representantes de cada uma das virtudes, adornam este mausoléu de mármores multicoloridos que se intensificam com a luz da rosácea lateral do transepto norte.

rosácea central

Antígona do Lacan

“Se é que aquilo que ensino tem o valor de um ensinamento, não deixarei depois de mim nenhuma oportunidade para que se possa acrescentar o sufixo ismo. Dizendo de outra maneira, termos que terei sucessivamente esmerado diante de vocês, e o embaraço de vocês felizmente mostra que nenhum deles ainda não lhes pode parecer suficientemente essencial, quer se trate do simbólico, do significante ou do desejo, nenhum desses termos, no fim das contas, jamais poderá servir, pelo meu procedimento, de amuleto intelectual para quem quer que seja” (Jacques Lacan, “O brilho de Antígona” in: Seminário 7).

Antigona derramando terra no corpo de seu irmão Polinice
William Henry Rinehart, 1870.

No Grupo de Estudos em Lacan estamos trabalhando ha tempos com o Seminário 7 – A Ética da Psicanálise. No momento, vamos nos deter na interpretação da clássica tragédia “Antígona” de Sófocles. Desde o início, uma questão tem nos guiado na leitura do Seminário:  o que levou Lacan escolher a heroina filha de Édipo como prototipo da ética exigida ao psicanalista? Lacan escolheu Antígona para demarcar o prototipo do que exigido do psicanalista na condução de um tratamento; situando assim a dimensão trágica da experiência psicanalítica: “Antígona~, disse ele,  é uma tragédia, e a tragédia esta presente no primeiro plano de nossa experiencia, a dos analistas, como é manifesto nas referencias a Freud – impelido pela necessidade dos bens oferecidos por seu conteúdo mítico – encontrou em Édipo, mas também em outras tragédias. E se ele não destacou mais expressamente a de Antígona, não quer dizer que ela não possa ser evidenciada aqui, nesta encruzilhada para onde eu trouxe voces”. Qual a encruzilhada? A função do bem e a função do belo no paradoxo do gozo. O problema da sublimação foi ressignificado por Lacan ao analisar a demanda de felicidade e a promessa analítica: “permitir ao sujeito situar-se numa posição tal que as coisas, misteriosa e quase miraculosamente, aconteçam para ele de uma boa maneira, que ele as aborde pelo lado certo (…) Ousando formular uma satisfação que não é paga com um recalque, o tema colocado no centro, promovido em sua primazia é – o que é o desejo? A propósito disso posso apenas lembrar-lhes o que nessa época articulei – realizar seu desejo coloca-se sempre numa perspectiva de condição absoluta”. É essa condição absoluta que Lacan leu em Antígona.

Duas perspectivas distintas sobre a tragédia: a de Aristóteles, expressa n’A Poética; e a de Nietzsche, formulada n’O Nascimento da Tragédia. Admitir que Antígona é uma tragédia, convém perguntar: o que define e caracteriza uma tragédia? em que ela se distingue da comédia, da epopeia, por exemplo? Neste post vou me deter na interpretação de Aristóteles e na leitura que Lacan realizou da Poética para demarcar sua Antígona.

busto de Aristóteles

Nos capítulos VI, Aristóteles definiu a Tragédia como imitação de uma ação de caráter elevado. No acontecer dramático do herói (ou heroína)  é suscitado o terror e a piedade e como efeito, purifica estas emoções. Se a Tragédia é a imitação de uma ação, quais as causas naturais (“phýsis”) que determinam as ações: pensamento e caráter. A ação dramática vivida por atores que interpretam personagem serve de cenário para contemplar o pensamento e o caráter encenados nas ações representadas. Caráter “é o que nos fazer dizer das personagens que elas têm tal ou tal qualidade; e por pensamento, tudo quanto digam as personagens para demonstrar o quer que seja ou para manifestar sua decisão”. Diante destes argumentos, podemos interrogar sobre o caráter e pensamentos de Antígona.

Definindo o Mito como a alma da tragédia, Aristóteles destacou o elemento mais importante: a trama dos fatos, “pois a Tragédia não e imitação de homens, mas de ações e de vida, de felicidade ou infelicidade, reside na ação, e a própria finalidade da vida é uma ação (ato?), não uma qualidade”. Sem ação não poderia haver Tragédia, pois que nesta “não agem os personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efetuar certas ações”. Se as ações são determinadas pelo caráter e pensamento, o filósofo distingue com precisão as duas causas. Pensamento “é poder dizer sobre tal assunto o que lhe é inerente e a esse convém (…) é aquilo em que a pessoa demonstra que algo é ou não é ou enuncia uma sentença geral”; Caráter “é o que revela certa decisão ou, em caso de dúvida, o fim preterido ou evitado”. Pode-se depreender dessas definições toda uma linha interpretativa da Antígona.

No capítulo IX, Aristóteles retornou a questão da finalidade (o “telos”) destacando os estados afetivos de piedade e terror. A Tragédia não é só imitação de uma ação completa, tal imitação tem como “télos” suscitar o terror e a piedade. Ao suscitar tais emoções, o expectador vivencia uma catarse (“kátharsis”), uma purificação. A palavra catarse, deriva da linguagem da medicina com o significado de purgação. Usado também em experiencias religiosas, “kátharsin” refere-se às cerimônias de purificação a que se submetiam os iniciados. No sentido ético, significa o alívio do ânimo através da expressão das paixões como meio de libertar-se delas. Ao suscitar o terror e a piedade, a Tragédia tinha uma finalidade terapêutica. É curioso lembrar que o método psicanalítico foi inventado pela aplicação do método catártico por Freud em 1895.

O sentido ético da tragedia esta determinado por seu “telos”, sua finalidade. Ao articular a ética da psicanálise com o paradigma Antígona, Lacan reinscreveu a tradição aristotélica num campo clínico bem preciso: o tratamento dos sofrimentos neuróticos e psicóticos, conduzido por um psicanalista. A experiência trágica de uma psicanalise também suscita o temor e a piedade. A dimensão ética da catarse como purificação do ânimo através da libertação do peso das paixões, está presente na experiência clínica da psicanálise. “Não esqueçamos de que o termo catarse permanece singularmente isolado na Poética, onde o recolhemos”. Ao recolher esse termo, Lacan destacou os três níveis de significação da palavra “kátharsin” para ancorar sua interpretação no sentido ético-pedagógico: apaziguamento do ânimo através da liberação do peso das paixões (páthos).

Eudoro de Souza, comentando sua tradução da passagem da Poética em que a palavra “kátharsin” aparece, esclareceu que a mesma pode ser compreendida em quatro maneiras distintas: “catarse (operada por…) sobre tais emoções; catarse (operada) por tais emoções (sobre…); catarse (operada) por tais emoções (sobre elas mesmas); catarse de tais emoções (=expurgação ou eliminação de tais emoções”. As variações não escaparam à atenção de Lacan. Ele traduziu como: “meio que efetua pela piedade e pelo temor a catarse das paixões semelhantes a esta”.

Essa questão é decisiva na interpretação que fez da tragédia Antígona. Por isso, afirmou:  “O que promovemos mais particularmente concernindo ao desejo permite-nos fornecer um elemento novo à compreensão do sentido da tragédia, e isso por essa via exemplar, a função da catarse. Antígona nos faz, com efeito, ver o ponto de vista que define o desejo” (J.Lacan)

Indicações de Leitura:
Aristóteles, Poética. Tradução Eudoro de Souza. Edição Bilíngue. 2ª ed. São Paulo: Ars Poetica, 1993.
Sófocles, Antígona. Tradução Guilherme de Almeida. In: Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 1997.
Kathrin H. Rosenfield. Sófocles & Antígona. Coleção Filosofia Passo-a-passo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
Kathrin H. Rosenfield (org.) Filosofia e Literatura: o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
Albin Lesky, La Tragedia Griega. Barcelona: Editorial Labor, 3ª ed., 1970.
Denise Maurano, Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.

ÓCIO EM PARIS

O cultivo do ócio é um exercicio de liberdade. Viver no ócio não quer dizer ficar sem fazer nada. Praticar o ócio é fazer nada útil, que tem utilidade visando um fim determinado. O ócio requer uma suspensão temporária das atividades laborais rotineiras: 2ª, 3ª, 4ª…. Quando se esta no ócio, o tempo flui sem a marcação cronológica. É acordar e se perguntar: O que vou fazer hoje? Nada de útil.

“Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda  fins, propósitos e intenções. A beleza das ruínas? O não servirem mais para nada. A doçura do passado? o recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem pode ser – o absurdo, meu amor, o absurdo”. (Bernardo Soares,  “O livro do desassossego”)

Torre Eiffel

Fazer turismo é praticar o ócio. Para tanto, não pode ser um pacote coordenado por um agente de viagem. O viajante deve ser autônomo o bastante para tomar as decisões de onde e como ir de um lugar ao outro. O que vai visitar, o que deseja conhecer empiricamente e o que minimamente já sabe através de leituras e pesquisa na internet. Ajuda muito se o ócio é praticado num local já conhecido. As coordenadas geográficas básicas são importantes para não ter o tempo subtraído do cultivo do ócio. Saber o que evitar e algumas noções sobre a logística dos meios de transporte são ferramentas fundamentais para mover-se num flanar sem direção.

Sena visto da Rue du Théâtre

No Houaiss Eletrônico, o vocábulo ócio é designado semanticamente como cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar. É também um espaço de tempo em que se descansa, falta de ocupação. Por derivação, sentido figurado, ócio é trabalho leve e agradável. Nesta trama de significação, vagar é o sentido apropriado para designar uma viagem a Paris. Vagar, vagabundear, flanar, perambular. Andar ao leu com uma  certa curiosidade infantil de tudo tocar, sentir, cheirar. Deixar os olhos serem conduzidos e condutores. Cultivar o ócio em Paris é deixar-se seduzir pelas encruzilhadas de suas ruas, pela  história destas cercanias em torno de um caudaloso e belo rio.

Pont Neuf com a île de la Cité ao fundo

Paris é para ser degustada passo-a-passo. Uma Igreja aqui, um museu ou palácio ali, um jardim e praça acolá. Entre um e outro, comer croissant, baguete e tomar agua perrier. Entrar em Paris é atravessar o portão e adentrar num espaço onde a história da cultura ocidental se inscreve em cada pedaço que a visão consegue capturar. Desde o século III a.C, a tribo celta dos parísios fixaram residencia na île de la cité que emergiu triunfante nas águas do Sena.

Opera Garnier

salão de estar do palácio da música – obra prima do 2º Império

Conquistada pelos romanos que ali fundaram a Lutécia: sede do império ao norte da Europa. O mito cristão fundador é personificado por São Denis, o primeiro bispo de Paris,  cultuado como protetor dos monarcas. No século III foi decapitado pelos romanos e, mesmo assim, carregou sua cabeça por 10 km: de Montmartre até o portão da cidade, hoje conhecida como Porta de São Denis. Há também a proteção feminina: Santa Genoveva salvou Paris de Átila, o Huno em 451.

portão do castelo de Versailles

Clóvis, rei dos francos, fez de Paris a capital de seu reino em 508. Em todo período medieval, os francos asseguram as construções de monastérios e um reino cristão foi sedimentando a cultura monárquica que fundou sua descendência em Luis IX no século XIII até a decapitação de Luis XVI no final do século XVIII pelos Revolucionários Republicanos.

Conciergerie na île de la Cité

Em 1868, Paul Lafargue casou-se com Laura, a filha caçula de Karl Marx. Nascido em Cuba, Paul era filho de um francês e de uma judia. Enviado a Paris para estudar medicina, tornou-se um apaixonado militante socialista. Na época, os trabalhadores nas oficinas parisienses trabalhavam em média 13 horas por dia, e o pior, ainda estavam convencidos de que o trabalho em si mesmo era uma atividade dignificante para si e benéfica para o progresso social. Com a latinidade nas veias, Paul confrontou o sogro de forma viceral ao publicar em Paris o ensaio O Direito a Preguiça, em 1880.

entrada do palácio de Versailles

Lafargue  levantou seu brado contra a visão hegemônica da santificação do trabalho, promovida por escritores de direita e de esquerda, por economistas liberais e socialistas tapados. Para ele, o trabalho dignifica o humano no limite imposto pelo ócio e o lazer. Quando não há mais condições de praticar o ócio e dedicar-se ao lazer, o trabalho tornou-se um valor em si e ao mesmo tempo, ferramenta para o trabalhador ser reconhecido como consumidor. Trabalhar para consumir é uma atividade alienada pois o trabalho visa um fim: obter bens, mercadorias marcadas por signos de status e poder.

pedinte nas proximidades da Galeria Lafayette,
o templo do consumo

O panfleto revolucionário de Laforgue foi redigido num tempo em que a burguesia industrial levava a exploração do trabalhador ao máximo na construção do modelo capitalista. O sucesso deste texto em Paris é inflamante na medida em que interrogou o contexto histórico no período do 2º Império, governado por Napoleão III. Fundamentalmente é essa Paris de Laforgue que os turistas mais veem.

Avenida Champs Élysées

As transformações no espaço publico para acolher efetivamente os ideais da burguesia dominante é a Paris do primeiro plano de percepção estética. Escavando os substratos dos planos subjacentes, o visitante pode vestir a fantasia de um arqueólogo e descobrir os feitos do 1º Império de Napoleão Bonaparte, os vestígios da monarquia cristã devota de São Denis, Santa Genoveva e São Luis, o rei que se tornou santo.