Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para abril, 2010

Convite para assistir e conversar sobre o filme XXY

cartaz de divulgação

Inaugurando o Projeto “Psicanálise em Extensão” convido para um diálogo sobre o filme “XXY” de Lucia Puenzo, no próximo dia 08/05 as 15h na Clínica de Psicanálise, Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba – SP.  A entrada é gratuíta e há 15 vagas disponíveis.

Os interessados deverão enviar email para: mmariguela@gmail.com

Contaremos com a presença do Adriano Morad Bley (médico endocrinologista, psicanalista, mestre em Saude da Criança e Adolescência Unicamp, membro da Escola de Psicanalise de Campinas) que fará uma exposição sobre o tema  “O intersexo e a diferença sexual”. Convidamos também para a conversa, vários profissionais que trabalham na ONG – CASVI/Piracicaba http://www.casvi.com.br/historico.php

Sinópse do filme XXY:  Alex  nasceu com as características sexuais de ambos os sexos e para fugir dos médicos que insistiam em corrigir a ambigüidade genital, a família leva-a para um vilarejo no Uruguai (o filme é baseado numa história verídica). Convencidos de que uma cirurgia seria uma violência contra seu corpo, a família decide viver numa casa nas dunas. Um dia, recebem a visita de um casal de amigos, que traz com eles o filho adolescente. O pai visitante é especialista em cirurgia estética e se interessa pelo caso do/da jovem. Enquanto isso, Alex, de 15 anos, e o rapaz, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro e juntos protagonizam a metáfora da (in)diferença sexual.

Informações Técnicas: Título no Brasil: XXY –  Título Original: XXY – País de Origem: Argentina / França / Espanha – Gênero: Drama Classificação etária: 16 anos – Tempo de Duração: 86 minutos –  Ano de Lançamento: 2007 

Sugiro uma visita ao belo site oficial do filme:  http://xxylapelicula.puenzo.com

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Um dia no Museu Marmottan em Paris

continuando com a série ” Um Dia ” e assim literarizar as lembranças de viagens…

Claude Monet

Auto Retrato com boina - 1886

A presença das telas de Claude Monet no Brasil em 1997 foi marcada pelo renascimento dos debates sobre o movimento impressionista na história da pintura moderna. A exposição no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e no Museu de Arte de São Paulo atraiu multidões e foi considerada um dos maiores eventos culturais da América Latina nos últimos anos. Os trabalhos mostrados compõe a série Ninféias, na qual Monet dedicou os últimos anos de sua vida, buscando capturar as variações luminosas de seu jardim em Giverny [ lamento até hoje não ter visitado o jardim de Monet: tive de escolher entre um dia a mais em Avignon e visitar o jardim! Senti com toda intensidade a situação da personagem do filme A Escolha de Sofhia]

O lago das Ninféias - 1899

As telas de Monet , expostas no Brasil, pertencem ao acervo do museu Marmottan-Monet em Paris [http://www.marmottan.com/]. O acervo do museu é composto por  mais de 80 telas de Monet, além de quatro pastéis e três desenhos. Também possui telas da coleção pessoal de Monet, dentre elas, encontra-se telas de amigos contemporâneos: Caillebotte, Guillaumin, Manet, Morisot, Renoir, dentre outros. A maioria delas foram doadas por Michel Monet, o segundo filho do pintor com Camille Doncieux.  As telas pertenciam à  Academia de Belas Artes de Giverny e posteriormente doadas ao Marmottan.  A clássica tela Impressão: nascer do sol de 1873, – infelizmente não esteve no Brasil – foi acoplada à coleção por doação da filha única do médico Georges de Bellio, a quem Monet pagou pela cirurgia de cataratas.

Minha formação estética foi decisivamente marcada pelo trabalho dos impressionistas. A História do Impressionismo é um capítulo fundamental do que poderá ser nomeado, só depois, como arte moderna. Escrevi sobre o tema num artigo publicado na Revista Impulso da Unimep. Nele estabeleço um diálogo entre Monet e Vincent [ http://www.marciomariguela.com.br/artigos/revistas/89-o-mundo-arte ] utilizando um argumento de Clement Greenberg publicado no livro: Arte e Cultura: ensaios críticos, tradução: Otacílio Nunes,  São Paulo:Ática, 1996.  

A série Ninféias é uma referência erótica de cores que demonstra a própria etimologia da palavra grega nymphe. Ninféia é o feminino de ninfeu, que por sua vez, é adjetivo de ninfa e designa a divindade fabulosa dos rios, dos bosques e dos montes; em sentido figurada, mulher nova e formosa; anatômicamente designa o pequeno lábio da vulva. No discurso da zoologia, Ninféia nomeia a forma intermediária entre a larva e o inseto adulto.

Ninféia

A sensualidade das Ninféias foi capturada pelo filósofo-poeta Gaston Bachelard: “a cada aurora, após o bom sono de uma noite de verão, a flor da ninféia, imensa sensitiva das águas, renasce com a luz, flor sempre jovem, filha imaculada da água e do sol. Tanta juventude reencontrada, tão fiel submissão ao ritmo do dia e da noite, tal pontualidade em dizer o instante da aurora, eis que faz a ninféia a própria flor do impressionismo. A ninféia é um instante do mundo. É uma manhã dos olhos. É a surpreendente flor de uma alvorada de verão”.                                                                   [“As ninféias ou as surpresas de uma alvorada de verão” in: O Direito de Sonhar}

Impressão: nascer do sol - 1873

A tela Impressão: nascer do sol é um ícone do movimento impressionista. Pensando nela tracei meu caminho em direção ao museu Marmottan. A imagem que deseja ver é um instante de luz capturado num amanhecer no porto do Havre, cidade no noroeste da França, capital do departamento do Sena, no canal da Mancha em plena Normandia. É um dos principais portos marítimos do país e, sendo base militar dos nazistas, foi brutalmente devastado na Segunda Guerra Mundial. 

Para minha inesquecível supresa, além do deleite proporcionado pela contemplação das tela de Monet, o museu Marmottan oferece uma coleção de capas e ilustrações de livros que são preciosidades histórica. Les enluminures – é assim que são denomiados  os trabalhos desta coleção: uma riqueza de detalhes esculpidos, revelando o Genius atravessando as mãos dos ornamentadores e ilustradores dessas miniaturas. Uma das  imagens abaixo [ L’ Alchimie ] é exemplar:   illustra o poema escrito em 1516 por Jean Perréal [1455-1530] e retrata o lamento da natureza [phýsis] ao alquimista errante. A coleção de 313 miniatures reune exemplares específicos que identificam diversas escolas européias desde o século XIII e XVI.

Para um amante de livros, conhecer esta coleção foi uma deliciosa sobremesa servida no banquete estético naquele dia ensolarado do verão parisiense.

Ecole française

” Os latinos chamavam Genius, o deus a que todo homem é confiado sob tutela na hora do nascimento. [Por isso] genialis é a vida que distancia da morte o olhar e responde sem hesitação ao impulso do gênio que o gerou (…) Genius é a nossa vida, enquanto não foi por nés originada, mas nos deu origem (…) Todo impessoal em nós é genial (…) viver com genius significa, nessa perspectiva, viver na intimidade de um ser estranho, manter-se constantemente vinculado a uma zona de não-conhecimento (…)   A intimidade com uma zona de não conhecimento é uma prática mística cotidiana (…) Genius é a nossa vida enquanto não nos pertence… ”  

                                           Fragmentos  do livro Profanações, Giorgio Agamben

Um dia no Museu do Louvre

a tela pertence ao Musée Marmottan, Paris

Les Tuileries - Claude Monet

 Projetados no século XVII pelo arquiteto André Le Nôtre, jardineiro real de Luís XIV, o jardim Tuileries era a grande extensão do palácio incendiado em 1871 no confronto final da Comuna de Paris. O jardim foi  o cenário da vida burguesa parisiense na segunda metade do século XIX, substituindo o Palais Royal.

Théodore Duret, amigo de Claude Monet, escreveu numa carta: “o Palácio das Tulherias, sede da corte imperial, era um centro da vida luxuosa, que se estendia para os jardins. A música ali executada duas vezes por semana atraía uma multidão cultivada e elegante”. 

desenho com vista geral do jardim

Atualmente compõe a paisagem na área paralela ao rio Sena que vai do Museu do Louvre à Avenida Champs-Elysées; passsando pelo Arco do Triunfo, estende-se até à vasta e harmoniosa praça da Concórdia. Cruzam a área do jardin, duas das maiores ruas de compras de Paris: a Rue de Rivoli, com suas arcadas, butiques caras, livrarias e hotéis cinco estrelas; e a Rue St. Honoré, que reúne o que há de luxuriante em butiques e cafés.

vista do jardim com Louvre ao fundo

Atravessei o jardim em direção ao palácio  construído em 1190 para ser a fortaleza do rei Felipe Augusto e, em cada passo, fui me aproximando da pirâmide de vidro construída em 1989 para ser a porta de entrada do Museu do Louvre. A expectativa aumentava em proporção ao desejo acalentado por anos a fio: conhecer o Louvre. A pirâmide é um símbolo de captura de energias côsmicas e fiquei feliz em pensar nisso enquanto aguardava na fila para atravessá-la e adentrar nos labirintos de galerias que compõem o museu. Passar pela pirâmide é atravessar um umbral mágico e ser catapultado num cenário encantador de imagens, cenas, figuras, cores e formas.

entrada do Museu do Louvre

entrada do Museu do Louvre

Decidido a me entregar de corpo e alma naquela aventura teci imaginariamente um roteiro: começaria pelas pinturas e depois as esculturas do período renascentista até o romantismo do século XVIII. Lá pelas tantas, enebriado pela beleza fulgurante, cheguei até a Monalisa: o ícone pop do Louvre. Confesso minha decepção! O que havia de tão estraordinário naquela pequena tela cercada por um vidro de alta segurança? Porque tantas plaquinhas indicando o caminho para a Monalisa? Uma multidões de turistas seguiam, em procissão, as indicações de como chegar à Monalisa. Entravam em bando por uma porta, tiravam muitas fotografias e seguiam adiante, saindo da sala pela outra porta –  sem ver a magnífica tela “A morte da Virgem” de Caravaggio que fica defronte a Monalisa.  Fiquei observando aquela cena por mais de uma hora: poucos dos visitantes da Monalisa viravam o corpo para olhar o que estava por detrás de seu campo de visão.

Monalisa - Leonardo Da Vinci

Monalisa - Leonardo Da Vinci

Quando olhei para aquela tela (A morte da Virgem, 1605) de 3,69 x 2,45 pintada por Caravaggio fiquei em estado de êxtase: o radiante vermelho que transborda de uma profusão de dobras no tecido capturou todo meu ser. Fiquei paralisado, minhas pernas tremiam e foi preciso sentar –  tinha a sensação de que iria cair. Alí parado, em estado de catatonia, fui aos poucos recuperando os sentidos. O primeiro pensamento que me ocorreu, depois desse transe provocado pela beleza, foi um verso de Rainer Maria Rilke: “Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos?” (in: Elegias de um Duíno)

A morte da virgem

A morte da virgem - Caravaggio

FREUD E O MOISÉS DE MICHELANGELO

No outono de 1913, Sigmund Freud passou várias tardes diante da monumental figura de Moisés, esculpido no mármore por Michelangelo como ornamento para túmulo do Papa Julio II. Diante do patriarca hebreu, Freud tomou uma difícil decisão que determinou os rumos da história da psicanálise: expulsou Carl Gustav Jung do movimento psicanalítico e assumiu a condição de criador e inventor da prática clínica e da teoria do inconsciente. Dois artigos demonstram esta decisão: “Moisés de Michelangelo”, publicado anonimamente, e “História do Movimento Psicanalítico”, ambos publicados em 1914.

Sigmund Freud e Carl Gustav Jung

Desde os tempos de juventude, Freud nutria o desejo de visitar Roma. No livro As Cidades de Freud (Jorge Zahar Editor), o psicanalista italiano Giancarlo Ricci narrou os itinerários das viagens de Freud a partir de um meticuloso trabalho de pesquisa no conjunto das cartas escritas pelo inventor da psicanálise: “por muitos anos, Freud aproxima-se, ronda, pensa em dar o passo decisivo, mas depois adia. Estuda os mapas toponomásticos da cidade eterna até a noite, lê livros de arqueologia e de história. Mas espera e adia, quase como se Roma constituísse o umbigo de sua aventura. O que o faz hesitar? Só depois da morte do pai, em 1896, ousa finalmente ir a Roma, símbolo e pretexto de vários desejos ardentemente acalentados. Durante sete anos suas viagens à Itália resultam labirínticas: Veneza, Pádua, Florença, Pisa, Livorno, Siena, Orvieto, Trento, Milão”.  Chegou finalmente em Roma em setembro de 1901, depois de publicar sua obra fundadora, A Interpretação dos Sonhos: “meu desejo de ir a Roma é profundamente neurótico”, escreveu ao amigo Fliess. Roma é para ele o emblema da audácia, uma etapa absolutamente decisiva em sua vida. Retornou a Roma vária outras vezes, sempre que precisa tomar uma decisão importante.

Moisés

Freud disse em carta à sua esposa Martha: “Visito diariamente o Moisés e acho que poderia escrever umas poucas palavras sobre ele”. O que mais o intrigava era exatamente o fato do quanto essa obra o intrigava: “ao longo de três semanas solitárias de setembro, detive-me diariamente na igreja diante da estátua, estudei-a, medi-a, sondei-a, até que me veio a compreensão que só ousei expressar no papel anonimamente”.  

Nos primeiros parágrafos do artigo, “Moisés de Michelangelo” , Freud observou: “as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura e ,com menos, freqüência, a pintura. Isto já me levou a passar um longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las á minha própria maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve o seu efeito (…) Uma inclinação psíquica em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de  comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta”

 O Moisés de Michelangelo tornou-se objeto de admiração estética ao longo dos séculos. É considerado um dos marcos da arte renascentista. Os traços heróicos do patriarca serviram a muitos debates sobre a intencionalidade do criador. A cena bíblica (Ex 32, 1-24) escolhida  para esculpir o Moisés é  um referencial interpretativo para diferentes autores. Freud também se sentiu comovido pela monumental escultura de Michelangelo. Desde a primeira visita a Roma, ficou fascinado com a obra. Nenhuma outra obra de arte jamais o impressionara tanto. Nunca deixou de considerá-la atordoante e magnífica.

Moisés arremessando as Tábuas da Lei

 Se o objetivo da interpretação psicanalítica era buscar o desejo do artista através da obra, o artigo “Moisés de Michelangelo”,  apresentou a seguinte questão: qual o momento na vida de Moisés que Michelangelo reproduziu no mármore? No livro do Êxodo encontra-se a resposta:  “Foi a descida do Monte Sinai, onde Moisés recebera de Deus as Tábuas, o momento em que o povo havia naquele meio-tempo feito para si um bezerro de ouro e estava dançando em torno dele e rejubilando-se. Esse é o espetáculo que evoca os sentimentos representados em seu semblante – sentimentos que no instante seguinte se transformará em ação violenta. Michelangelo escolheu esse último  momento de hesitação, de calma antes da tempestade, para representar o homem Moisés. No instante seguinte, Moisés se erguerá – seu pé esquerdo já se alçou do solo – arremessará as Tábuas por terra e desencadeará sua cólera sobre o povo infiel”

detalhe do olhar

O conflito entre a calma exterior e a emoção interior pode ser analisado pelos olhos (perplexidade), pela postura da mão direita (ira reprimida) e a posição do pé (ação projetada) que indica o instante em que Moisés vai lançar ao chão as Tábuas da lei recebida no monte Sinai. O patriarca hebreu foi esculpido no instante  que antecede ao ato de levantar-se de arremessar as Tábuas. A cena escolhida por Michelangelo simbolizava a própria situação vivida por Freud neste período: o conflito com Jung. O estado emocional de Freud encontrou na obra de Michelangelo seu significante: irado, levantou-se para denunciar as apropriações indevidas que Jung fez de sua criação: a psicanálise. Contra o afastamento dos seguidores de sua descoberta original, Freud assume a defesa de sua obra e ataca com cólera seus desertores.

Freud iniciou seu relato na “História do Movimento Psicanalítico” anunciando: ” a psicanálise é criação minha; durante mais de dez anos fui a única pessoa que se interessou por ela, e todo o desagrado que o novo fenômeno despertou em meus contemporâneos desabou sobre a minha cabeça em forma de críticas. Embora de muito tempo para cá eu tenha deixado de ser o único psicanalista existente, acho  justo continuar afirmando que ainda hoje ninguém pode saber melhor  do que eu o que é psicanálise, em que ela difere de outras formas de investigação da vida mental. O que deve precisamente ser denominado de psicanálise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer”. Nesta  airmação podemos reconhecer as mesmas feições do patriarca Moisés, esculpido por Michelangelo

O primeiro encontro de Freud com o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung ocorreu em  Viena em fevereiro de 1907. Nele, Freud depositou a esperança de ter um herdeiro para dar continuidade da causa. No entanto, as posições teóricas de Jung o afastavam cada vez mais da premissa freudiana: a sexualidade como fator etiológico das neuroses.

A presença de Jung no movimento psicanalítico crescia. Ele acompanhou Freud aos Estados Unidos em 1909, onde  expôs pela primeira vez na academia os resultados de seu trabalho. No segundo congresso da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), realizado em março de 1910, Freud declarou que Zurique era a terra prometida da psicanálise e decidiu confiar a um não-judeu, ou seja, a Jung, a direção da organização. Como presidente da IPA, Jung organizou o terceiro e o quarto congresso. Neste último, realizado em Munique em setembro de 1913, os partidários de Freud exigiam que Jung renunciasse a suas funções.

Freud então viagou para Roma a fim de buscar o significante de sua decisão e na volta escreveu a primeira “História do Movimento Psicanalítico” anunciando que a psicanálise era uma invenção sua e somente ele poderia dizer o que era ou não próprio ao campo daquilo que ele inaugurou.

Psiquê e o complexo de castração

Este foi o título escolhido para a aula de 12 de abril de 1961 do Seminário, livro 8 – a transferência (Jorge Zahar Editor) ministrado por Jacques Lacan nas dependências do hospital Saint-Anne em Paris.  Na abertura dessa aula, Lacan contou uma experiência de olhar para onde nunca se olha. Narrou que estava visitando o museu da Galeria Borghèse e, num relance, viu um quadro de Jacopo Zucchi que nunca tinha ouvido falar: “trata-se de um quadro que se chama “Psiche sorprende Amore”, isto é, Eros. É a cena clássica de Psiquê elevando sua pequena lâmpada sobre Eros, que é, já algum tempo, seu amante noturno, nunca visto” (p.220).

O que mais chamou a atenção de Lacan foi que jamais tinha visto uma representação de Psiquê armada com um pequeno trinchante [ faca grande usada para trinchar a carne]: uma cimitarra [espada de lâmina curva mais larga na extremidade livre, com gume no lado convexo, usada por certos povos orientais (árabes, turcos, persas) especialmente pelos guerreiros muçulmanos]

Esta imagem de Psiquê armada foi destacada por Lacan em comparação com o buquê de flores sobre o “falo de Eros”.

Jacopo Zucchi

Bela metáfora para encantar seus ouvintes e levá-los ao cerne do problema proposto: “o que a experiência analítica nos revela é que, mais precioso que o próprio desejo, é guardar o seu símbolo, que é o falo. Eis o problema que nos é proposto. Espero que tenham notado bem, no quadro, as flores que estão ali diante do sexo de Eros. Elas são, justamente, marcadas por uma tal abundância apenas para que não se possa ver que, por detrás, não há nada. Não há lugar, literalmente, para o menor sexo. Aquilo que Psiquê está ali a ponto de cortar, já desapareceu diante dela” (p.229).

Para Lacan, o paradoxo do complexo de castração está concentrado nessa imagem construida pelo pintor itáliano: “o orgão só é trazido e abordado se transformado em significante, e para ser transformado em significante ele é cortado” (p.229).

As flores sobre o falo de Eros já o inscreve como signo da ausência, de uma ausência presentificada: “o que lhes ensinei é o seguinte:  se phi, o falo como significante, tem um lugar, é, muito precisamente, o de suplência no ponto onde, no Outro, desaparece a significância – onde o Outro é constituido por haver, em algum lugar, um significante que falta” (p.230)

Na aula seguinte, Lacan destacou o ato de Psiquê: “satisfeita, ela se interroga sobre com que está lidando, e é este instante preciso, privilegiado, que o artista reteve, talvez muito além daquilo que ele próprio poderia articular quanto a isso num discurso (…) O artista, nessa imagem, captou aquilo a que chamei, da última vez, o momento de aparição, do nascimento , da Psiquê, essa espécie de troca de poderes que faz com ela ganhe corpo. Vai se suceder todo o cortejo de desgraças que serão as suas antes que ela feche o seu circuito, e reencontre então aquilo que, naquele instante, vai desaparecer para ela no instante seguinte, o que ela quis desvelar e capturar, a figura do desejo” (p.236).

Koyré, guia de Lacan

 

No escrito  “A ciência e a verdade”, Jacques Lacan disse que Alexandre Koyré era seu guia na empreitada de inscrever o objeto da psicanálise e dar um passo adiante no movimento de retorno a Freud.  O texto foi publicado como aula estenografada da abertura do Seminário O Objeto da Psicanálise, em 1965-1966.  Apareceu no primeiro número dos Cahier pour l’Analyse  em janeiro de 1966 – periódico do Circulo de Espistemologia da Escola Normal Superior –  e foi incluido como último texto do conjuntos dos Escritos (Jorge Zahar Editor), publicados em 1966.

Guia é uma palavra bonita para designar, pela nomeação, o campo da investigação epistemológica no qual Lacan cerziu [do verbo cerzir: coser, remendar com pontos miúdos, quase imperceptíveis; juntar (algo) sob núcleo comum; reunir, combinar, incorporar] o objeto da psicanálise.

No HOUAISS ELETRÔNICO encontramos, dentre outros, os seguintes sentidos para o verbete Guia:

–  ato ou efeito de guiar;  documento com que se recebem mercadorias ou encomendas ou que as acompanha para poderem transitar livremente;  formulário com que se fazem recolhimentos às repartições arrecadadoras do Estado; autorização, permissão; dispositivo (como régua, linha, aro, presilha, esquadro) que serve para orientar ou regular o movimento de uma ferramenta, de uma máquina ou da mão; pessoa que acompanha ou dirige outra(s) para mostrar-lhe(s) o caminho; ­ aquele ou aquilo que serve de diretriz, de modelo; que inspira uma pessoa.

Também na rubrica do vocábulo militar, guia  designa, em operações aeroterrestres, a equipe lançada num objetivo para instalar e acionar os meios de sinalização, bem como guiar os aviões para as áreas de lançamento ou de pouso.

Na umbanda, religião regional do Brasil, guia  é cada um dos seres espirituais, já em elevado nível de evolução que orientam, através dos médiuns, os que os consultam quanto ao seu caminho ao aperfeiçoamento, funcionando tb. como entidades protetoras dos médiuns e de seus terreiros

“Koyré é nosso guia aqui, e sabemos que ele é ainda desconhecido”

Alexandre Koyré (1892-1964) é um dos mais respeitados historiadores das ciências. Em seus estudos sobre Galileu, iniciados por volta de 1935, mostrou que o movimento da revolução científica, que levou à destruição do cosmos medieval, era a princípio inspirada por uma oposição entre o platonismo e o aristotelismo a propósito do papel desempenhado pelas matemáticas para a compreensão do mundo. Para os platônicos, dos quais Galileu fazia parte, as matemáticas comandavam o universo, ao passo que para os aristotélicos, que representavam a antiga escolástica, era a física, como ciência do real, que ocupava esses lugares superiores, independentes das matemáticas ocupadas com objetos abstratos. Koyré teorizou o sujeito da ciência moderna, que tendo perdido a referência de um cosmo ordenado por Deus, terá de buscar em si mesmo um ponto fixo a partir do qual possa garantir a certeza: o cogito cartesiano.

Entre 1951 e 1953, Koyré ministrou um conjunto de conferências na Johns Hopkins University (USA), com o objetivo de definir os modelos estruturais da antiga e da nova concepção de mundo e determinar as mudanças acarretadas pela revolução do século XVII. As conferências foram publicadas em Do mundo fechado ao universo infinito (Editora Forense Universitária). Dois argumentos centrais sustentam as teses do autor: a destruição do cosmo pela matematização do espaço e a invenção do Universo como espaço infinito.

1º) “a substituição da concepção de mundo como um todo finito e bem ordenado, no qual a estrutura espacial materializava uma hierarquia de perfeição e valor, por um universo indefinido, ou mesmo infinito, não mais unido por subordinação natural, mas identificado e unido por seus componentes supremos básicos”.

2º) “a substituição da concepção aristotélica do espaço, um conjunto diferenciado de lugares intramundos, pela concepção da geometria euclidiana -uma extensão essencialmente infinita e homogênea-, a partir de então considerada como idêntica ao espaço real do mundo”.

 Decorre daí uma conclusão: “a substituição do cosmo finito e hierarquicamente ordenado do pensamento Antigo e medieval por um universo infinito e homogênio implica e impõe a reformulação dos princípios básicos da razão filosófica e científica, bem como a reformulação de noções fundamentais, como a de movimento, de espaço, do saber, do ser” (in: Estudos de História do Pensamento Científico, p.10)

Em 1951, Koyré escreveu um Curriculum Vitae definindo seus princípios orientadores: “Desde o início de minhas pesquisas, fui inspirado pela convicção da unidade do pensamento humano, particularmente em suas formas mais elevadas. Pareceu-me impossível seprar, em compartimentos estanques, a história do pensamento filosófico e a história do pensamento religioso, do qual o primeiro sempre se serve , quer para nele inspirar-se, quer para refutá-lo. (…) Mas era preciso ir mais longe. Tive de convencer-me, rapidamente, de que era analogicamente impossível negligenciar o estudo da estrutura do pensamento científico  (in: Estudos de História do Pensamento Científico, p.10, grifo meu).

 Eis aí um dos aspectos fundamentais que legitima a afirmação de Lacan: “Koyré é nosso guia aqui, e sabemos que ele é ainda desconhecido”. No momento em que inaugura seu Seminário para demarcar, pela invenção, o objeto da psicanálise, Lacan anunciou seu guia. Um bom motivo para ler Koyré, um pensador que ainda hoje é pouco conhecido na história da filosofia contemporânea.

Jacques Lacan

Alexandre Koyré

AS VIAGENS DE FREUD

As cidades de Freud: itinerários, emblemas e horizontes de um viajante
Autor: Giancarlo Ricci
Jorge Zahar Editor, 2005

Sinopse:
Seguir Freud em suas freqüentes viagens, recolhendo uma vasta documentação extraída de suas cartas e obras. Essa é a proposta inicial do livro, sua saborosa camada externa. Percorremos, através do olhar e do filtro das preocupações profissionais e pessoais de Freud, mais de 40 cidades. Sua curiosidade pelo homem e pela cultura e sua atenta observação de paisagens exteriores e interiores da humanidade fazem dele um agudo intérprete de nosso tempo. Com base nos escritos do mestre de Viena, Giancarlo Ricci levantou os pontos mais emblemáticos do itinerário freudiano – da Freiberg natal a Londres, a cidade do exílio e do fim. Ao seguir seus passos, o autor evidencia como Freud testemunhou e sobretudo forjou a modernidade, deixando para trás o século XIX e interrogando o mal-estar de nossa época.

Comentários:
Durante dias, nos intervalos de minhas atividades cotidianas, viagei na cartografia desenhada pelo psicanalista italiano Giancarlo Ricci, seguindo o itinerário de Freud em suas viagens desde os tempos de colegial até o final de sua vida. Com vasta pesquisa nas correspondências de Freud, o autor reconstruiu passo a passo as cidades que Freud visitou e o registrou que o mesmo fez. São ao todo quarenta cidades listas em ordem cronológica que servem como pretexto para uma análise minuciosa e de grande literalidade cruzando as impressões de Freud com o trabalho progressivo de suas pesquisas e formação cultural. No prefácio, escrito por Carlo Sini, da Universidade Federal de Milão, se encontra uma chave para a leitura desse livro singular pela temática e pelo caráter documental – o modo como interroga o oficio, a arte inventada por Freud: "no livro encontramos testemunhos freudianos dos quais emerge a sua recusa de uma profissionalização e sobretudo de uma medicalização da psicanálise, que seriam o equivalente à sua normalização liquidatória. A psicanálise é a arte da palavra. Sua arte é sob certos aspectos arqueológica: justo em Roma, Freud olha para a cidade, surpreendentemente, com um olhar que hoje diríamos wittgensteiniano, isto é, como uma estratificação de épocas, de práticas, de sentidos, de tópicas. Também o analista deve traçar mapas de territórios sepultos, desconhecidos e esquecidos, buscando indícios na superfície. Para tanto, precisa aprender a compreender a lingua do inconsciente e seus dialetos, ou melhor, seus hieroglifos e suas escrituras indissincráticas, movendo-se e tropeçando como Édipo entre enigmas e signos do destino (…) Freud entendeu muito bem: a prática psicanalítica tem muito em comum com o exercício da poesia".