Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

NIETZSCHE, LEITOR DE SCHOPENHAUER

Filólogo por formação, filósofo por paixão, Nietzsche (15/10/1844 -25/08/1900) foi um amante da arte e encontrou na filosofia uma forma de expressão deste relacionamento amoroso com a poesia e a música.
Com a morte do pai e de irmão em 1849, mudou-se com a mãe, duas tias e a avó para Naumburg e em 1858, ganhou uma bolsa de estudos no Colégio Pforta, onde inicia seu afastamento do cristianismo e envolve-se com obras clássicas da filosofia. Com um brilhante domínio do grego e do latim, percorreu os diálogos de Platão e as tragédias gregas, Ésquilo era seu favorito.
Ingressou para a Universidade de Bonn em 1864 e , aconselhado por seu predileto mestre Ritschl, foi estudar filologia. No ano seguinte, transferiu-se para a Universidade de Leipzig. Através da filologia, fes seus estudos sobre Diógenes Laércio (séc.III d.C), Hesíodo (séc.VIII a.C.) e Homero (séc.X a.C.). Destaca-se neste período, a presença marcante de dois nomes da cultura alemã sobre o jovem filólogo: Arthur Schopenhauer e Richard Wagner.
Schopenhauer publicou O mundo como vontade e representação em 1818 e meio século depois começou a ser estudado nos meios acadêmicos. Nietzsche escreveu certa vez que caminhando pelas ruas de Leipzig, seu olhar foi atraído por um título na vitrine de uma livraria. Tomou o exemplar da obra de Schopenhauer nas mãos e um demônio soprou no seu ouvido: "volte para casa com esse livro". O conteúdo da obra exerceu um verdadeiro fascínio sobre Nietzsche: nenhuma Providência, nenhum Deus dirige o universo; todos os fenômenos não passam de aspectos de uma cega vontade de viver; essa vontade de viver absurda, sem razão ou finalidade, se revela como essência do mundo; a dor que dela nasce constitui a única realidade; é na música que a vontade de viver se manifesta de maneira mais intensa. São essas idéias que estarão presentes no primeiro livro de Nietzsche: O Nascimento da Tragédia.

Dois fragmentos extraídos da correspondência de Nietzsche (in: Despojos de uma Tragégia – Lisboa: Relógio d’Água, 1944):

Querido amigo,

(…) espero que, após minha chegada a Leipzig, poderei dedicar-me a redigir o meu trabalho [monografia sobre Theognis], pois já reuni e quase ordenei o material necessário. Confesso, porém que ainda não percebi porque lancei sobre meus ombros esta faina que me afasta de mim mesmo (e de Schopenhauer – o que é a mesma coisa), e cujo resultado me expõe às críticas das gentes, forçando-me, além disso, a afivelar em toda a parte a máscara de uma erudição que não possuo. Sempre perdemos qualquer coisa, ao darmo-nos ao público

Carta ao Barão de Gersdorff, Naumburg, 7 de abril de 1866

Querido amigo,

(…) agora verificaste em ti próprio a razão porque o nosso Schopenhauer achava o sofrimento e a aflição como um destino magnífico – senda para a negação da vontade. Tens experimentado a força purificadora da dor, que apazigua o nosso espírito. Agora, podes verificar por ti mesmo o que há de verdade na doutrina de Schopenhauer. Se o quarto livro da sua obra principal te produz, neste momento, uma impressão de repulsa, turva e desagradável, se não tem a força de te levantar o ânimo e conduzir-te através da violenta dor exterior até àquela disposição espiritual melancólica, mas feliz, análoga à que sente quando ouvimos uma música sublime (mercê da qual sentimos desprender-se de nós a envoltura terrestre) já não quero nada com tal filosofia. Só o homem cheio de dor tem o direito de pronunciar sobre ela [a filosofia de Schopenhauer] a palavra decisiva (….)

Carta ao Barão de Gersdorff, Naumburg, Janeiro de 1867

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