Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

DISPOSITIVO DE SEXUALIDADE E AS “PULSEIRAS DO SEXO”

No artigo “Por uma educação sexual sem moralismos” publicado na edição de sábado (10/04) do Jornal de Piracicaba, teci alguns comentários sobre as denominadas “pulseiras do sexo”:

Nesta semana, três cidades brasileiras proibiram as garotas de usarem pulseiras plásticas coloridas. Motivo: um jogo perverso e macabro envolvendo tais objetos levou a estupro e morte de adolescentes. As regras desse jogo surgiram na Inglaterra há alguns meses e já atravessou o Atlântico. Denominadas “pulseiras do sexo”, esse inofensivo adorno tornou-se o vilão de uma prática de violência contra garotas que está assombrando os pais e interrogando o silenciamento da sexualidade no interior das escolas. Supostamente, cada cor corresponde a uma atividade de caráter sexual e, quando um garoto arrebenta a pulseira de uma cor específica, a garota deve fazer o que as regras determinam. Caso contrário, ela sofrerá algum tipo de abuso por não cumprir a regra estabelecida.

Para além das manifestações da violência e ocupações criminosas envolvidas nesse jogo, chama atenção o fato de envolver a irrupção da sexualidade num ambiente que prefere calar a questão da sexualidade nas ações educativas. A escola espera que o assunto seja abordado pelos pais. Os pais, que terceirizaram a educação de seus rebentos, esperam que essa função seja exercida pela escola. Desse modo, a deseducação sexual acaba sendo realizada pela mídia e as crianças e adolescentes ficam entregues à própria sorte. Em vez de clamarem à justiça do Estado para que proíbam o uso das simpáticas pulseirinhas coloridas, não seria uma oportunidade de enfrentarmos juntos – pais e educadores – o desafio de uma educação sexual que possa incluir os aspectos de relacionamento e valores éticos?

Sou contrario a uma proposta de educação sexual que seja prisioneira do discurso moral. Aposto na possibilidade de instituir “a ética do cuidado de si como prática da liberdade”. Nesta perspectiva acredito sim que o tema da sexualidade tenha lugar nas práticas educativas escolares. Publiquei, em parceria com a Profa. Regina Maria de Souza (FE-Unicamp), um capítulo, “Sexualidade e Diferenças: por uma filosofia curiosa de si”, no livro Cotidiano Escolar: emergência e invenção (http://www.jacinthaeditores.com.br/) onde sustentamos uma proposta de educação sexual na escola que possa se fundamentar no cuidado de si como princípio ético.

Os graves acontecimentos envolvendo as pulseiras coloridas deve nos fazer interrogar sobre o retorno do recalcado: a sexualidade do cotidiano escolar. No artigo do JP fiz a proposta de retornar aos Três Ensaios da Teoria da Sexualidade para pensarmos as estratégias de intervenção que a escola pode, virtualmente, assumir quando decide abordar o tema da sexualidade. Afirmei ainda ser é necessário resgatar o conceito de pulsão sexual como paradigma para analisar o tema da sexualidade por oposição ao discurso biológico enunciado no exercício educativo escolar, sobretudo nos conteúdos de ciências que se voltam para ensinar a função do aparelho reprodutivo. Isso porque, reduzir o tema da sexualidade apenas a tais ensinamentos é tentar camuflar o dispositivo de sexualidade que incita discursos e práticas cotidianas no espaço escolar.

Deixo abaixo alguns apontamentos para uma reflexão sobre o conceito “dispositivo de sexualidade,” apresentado por Foucault em 1976 por ocasião do lançamento de seu primeiro volume da História da Sexualidade: a vontade de saber (Edições Graal).

Dispositivo[in: Houaiss Eletrônico]

– que prescreve; que ordena; aquilo que dispõe; norma, preceito, artigo

-conjunto de ações planejadas e coordenadas, implantadas por uma administração, visando a algo [por explo: dispositivo de prevenção da criminalidade]

-Termo jurídico: trecho que contém aquilo que se decide numa lei, declaração ou sentença

– Termo militar: formação de uma unidade de combate

O dispositivo esta sempre inscrito em um jogo de poder, estando sempre, no entanto, ligado a uma ou a outra configurações de saber que dele nascem mas que igualmente o condicionam. É isto, o dispositivo: estratégias de relações de força sustentando tipos de saber e sendo sustentadas por eles. (M. Foucault – Microfísica do Poder, p. 246)

Entre cada um de nós e nosso sexo, o Ocidente lançou uma incessante demanda de verdade: saber do prazer, prazer de saber o prazer, prazer-saber. É preciso fazer a história dessa vontade de verdade, dessa petição de saber que há tantos séculos faz brilhar o sexo: história de uma obstinação e de uma tenacidade. (M. Foucault – História da Sexualiade I – a vontade de saber,  p. 77)

Na grande família das tecnologias do sexo, a psicanálise foi a única que se opôs, rigorosamente, aos efeitos políticos e institucionais do sistema perversão-hereditariedade-degenerescência. (M. Foucault – História da Sexualiade I – a vontade de saber, p. 113)

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