Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para maio, 2010

Convite para Sessão 3C – Cinema, Conceito e Crítica

Convite Cartaz

Atendendo o convite dos discentes do Curso de Filosofia da Unimep para comentar o filme “Persona” de Igmar Bergman lembro do encontro que tive com o cinesta sueco: assisti em 1986,  num teatro em Campinas, o filme “Fanny e Alexander”.  Fiquei encantado com o olhar dirigido ao mundo através dos olhos de duas crianças.  Na época ministrava aulas de psicologia da educação  no curso de magistério do Colégio Ave-Maria. Convenci o diretor do teatro a realizar uma sessão especial para que eu pudesse levar as alunas. O passo seguinte foi convencer a Irmã Diretora – ela sempre me apoiava nas mais singulares e inusitadas experiências de ensino, como por exemplo, exibir o filme Hair na biblioteca debaixo da Igreja com duas freiras presentes.

Lá fomos nós numa tarde ensolarada caminhando do Colégio ao teatro na Vila Industrial. Após o filme fizemos uma saudosa conversa sobre educação infantil. A classe começou um trabalho de ouvir as crianças em estágio com crianças pré-escolares através de atividades de desenho. O que as crianças dizem quando desenham a família? O filme permitiu uma experiência pedagógica do lugar da psicologia na educação infantil.

meu pré-ferido

Os filmes de Bergman foram decisivos em minha formação estética.  O delineamento dramático que compõem a história de seus peronagens é de uma sutileza apaixonante. Georges Politzer disse em 1928 que há mais psicologia na literatura do que em todos os tratados de psicologia científica existentes. Eu digo: há mais psicologia nos filmes de Bergman do que em todos os tratados das neurociências.

Persona é uma palavra latina que designa a pessoa. Toda pessoa é personagem de um drama. Identidade identifica: eu sou eu! Mas com que se identifica o eu? consigo mesmo? com os outros, com o Outro? Com sua imagem projetada no espelho? Se [ Eu ] é um Outro como formulou Arthur Rimbaud, quantos outros cabem num eu?

Se eu fosse eu…  como disse Clarice   http://www.youtube.com/watch?v=re4-BJ7JccI&feature=related

Quantos personagens cada eu representa? O bobo e o esperto, por exemplo. Cada um representa um drama! Lispector tomou partido pela felicidade do bobo. Fez até um canto das vantagens de ser bobo…  http://www.youtube.com/watch?v=8lSoxrWsnZw&feature=related

Os atores nas tragédias usavam máscara para compor seu personagem. A relação rosto-máscara atravessa as identidades. Há um mais além das identificações quando a pessoa-persona se reconhece no ato de invenção de si. Não no si propriamente, mas no ato, em ato: de ato em ato, um drama é tecido – uma existência é inventada. Uma história pode ser contada!

vejam e ouçam na voz da Aracy, o conto-canto de Clarice Lispector em louvor a genialidade de Bergmam 

 http://www.youtube.com/watch?v=1CahrUIWsM8

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Um dia no Centro Pompidou em Paris

mais um capítulo da série de narrativas para a construção de uma memória estética-turística

roteiro de julho de 1996

Pouco antes de minha partida, o jornal Folha de São Paulo noticiou: “Paris recebe a dor e arte de Francis Bacon”. Recebi isso como um presente dos deuses. Seria a grande oportunidade de conhecer ao vivo e as cores desse gênio contemporâneo. O Centro Pompidou organizou uma retrospectiva com 79 pinturas de Bacon, destas 16 eram grandes trípticos, e 4 obras inéditas. Meu coração saltitava de alegria na expectativa do encontro com as telas de Bacon.

O Centro Nacional de Arte e Cultura Georges Pompidou nasceu do expresso desejo do presidente Pompidou. Com uma arquitura icônica projetada por Renzo Piano e Richard Rogers, o Centro Pompidou reúne em seu projeto ser abrigo para as artes plásticas em suas múltiplas relações com as demais manifestações da arte moderna e contemporânea: o teatro,  a música, filmes, livros. Situado no coração de Paris, o Centro recebeu, em seus 30 anos de existência, cerca de 190 milhões de visitantes (http://www.centrepompidou.fr/).

entrada do centro pompidou

Bacon retratou a angústia na dilacerante carne humana. Certa vez afirmou: “gostaria que meus quadros dessem a impressão de que um homem se introduziu sorrateiramente, como um escargot, deixando um rastro de presença humana e de lembranças de fatos passados, como e escargot deixa seu rastro de baba pelo caminho”.  O escritor Philippe Sollers (http://www.philippesollers.net/) afirmou em As paixões de Francis Bacon: “juntamente com Picasso, Bacon é o maior pintor do século XX, um século que se superou em massacres, torturas e horrores”. As telas que retratam o dilaceramento do corpo humano se contraposta com as telas que retratam o esquartejamento de corpos bovino e suino demonstram com perfeição a genialidade do pintor.

Instituto de Artes de Chicago

Chefe rodeado pelos lados da carne - 1954

Em 1998, a Galeria Hayward do Centro Cultural da Margem Sul de Londres, organizou também uma exposição destacando o lugar do corpo humano. Num ensaio publicado no Caderno Mais da Folha SP, Nicolau Sevcenko comentou a exposição londrina afirmando: “Bacon é um dos artistas que neste século sondou mais profundamente os modos pelos quais nossa cultura condiciona a percepção do corpo humano. Ele cogita sobre como nosso olhar opera sob filtro de valores e experiências que seleciona o que vê e o que está excluído de qualquer registro sensorial. Mais que isso, ele confronta a natureza histórica e política desse filtro, disposto a se livrar dele e descobrir o que jaz por trás dessa ética das aparências sanitizadas. Nesse sentido, sua obra ameaça de modo desagradável nossos hábitos visuais e relutamos muito em nos reconhecer nela. Ele próprio estabelecia esse desafio de maneira franca e crua. Várias vezes repetiu: ‘se você quer entender a lógica da nossa relação com a carne, olhe bem para o bife no seu prato'”.

Tríptico - parte 1 - 1973

“Nós somos carne. Somos carcaças em potencial. Quando entro em um açougue, fico surpreendido por não estar no lugar do bicho”

“Eu quero morrer como nasci, sem nada. Espero continuar pintando, nos intervalos entre a bebida e jogo, até eu cair morto, e espero que venha a morrer trabalhando”

“Existe todo um território que não foi ainda explorado, o de formas orgânicas relativas à figura humana que distorcem por completo”

“Visto que a maioria de minhas figuras é de nus masculinos, não há dúvida de que me influenciou muito o fato de Michelangelo ter realizado os mais voluptuosos nus masculinos de todas as artes plásticas”

Auto retrato - Francis Bacon

Ver:

http://www.youtube.com/watch?v=HIyVic5ubEY – vídeo com solo de guitarra flamenca apresenta boas fotos do pintor

 http://www.youtube.com/watch?v=2itWlKXgPEw&feature=related – vídeo com solo jazzístico mostrando as fontes de inspiração e o contexto histórico de criação das obras de Bacon

 http://www.youtube.com/watch?v=QhaqwlZxJZI&NR=1 – documentário exibido em rede de TV inglesa com imagens de arquivo revelando o pintor irlandês pelas ruas de Londres

Ler: O Corpo Impossível: a decomposição da figura humana de Lautréamont a Bataille – Eliane Robert de Moraes (Iluminuras, 2002).

A luta antimanicomial e experiência da loucura

(versão na íntegra do artigo publicado em 22/06 no Jornal de Piracicaba)

Numa entrevista ao jornal Corriere della Sera, em 11/set./1981, quando da morte do psicanalista Jacques Lacan, Michel Foucault afirmou: “ser psicanalista para Lacan supunha uma ruptura violenta com tudo o que tendia a fazer depender a psicanálise da psiquiatria, ou fazer dela um capítulo sofisticado da psicologia. Ele queria subtrair a psicanálise da proximidade da medicina e das instituições médicas, que considerava perigosa. Ele buscava na psicanálise não um processo de normalização dos comportamentos, mas uma teoria do sujeito”.

Lembrei-me dessa entrevista enquanto pesquisava na internet as notícias das diversas atividades realizadas em todo Brasil pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no Dia Nacional de Luta Antimanicomial, celebrado na última terça-feira (18/maio). A data foi escolhida em 1987 em Bauru, São Paulo, onde ocorreu o Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental. As atividades serviram para chamar a atenção da sociedade para as diferentes práticas de acolhimento às pessoas abatidas pelo sofrimento psíquico. O evento merece todo o respeito e apoio num momento em que ocorrem as plenárias municipais e estaduais para escolherem os delegados que participarão, com direito a voz e voto, da IV Conferência Nacional de Saúde Mental.

No site do Ministério da Saúde, a Política Nacional de Saúde Mental, apoiada na Lei 10.216/02, é apresentada com o seguinte objetivo: “busca consolidar um modelo de atenção à saúde mental aberto e de base comunitária. Isto é, que garante a livre circulação das pessoas com transtornos mentais pelos serviços, comunidade e cidade, e oferece cuidados com base nos recursos que a comunidade oferece. Este modelo conta com uma rede de serviços e equipamentos variados, tais como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), os Centros de Convivência e Cultura e os leitos de atenção integral (em Hospitais Gerais, nos CAPS III). O Programa de Volta para Casa, que oferece bolsas para egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos, também faz parte desta Política”.

Os serviços de saúde pública voltado ao atendimento “de pessoas com transtornos mentais” partem de determinadas circunstâncias históricas que envolvem aspectos políticos e epistemológicos (a construção de um saber sobre a loucura). A construção de diagnóstico e o tratamento da experiência da loucura dependem de uma definição básica: a loucura é uma doença mental. O próprio conceito de “transtorno mental” para designar as pessoas abatidas pelo sofrimento psíquico já está contido nessa premissa básica. Mas desde quando a experiência da loucura foi designada como doença mental?

A criação dessa data comemorativa deu visibilidade ao Movimento da Luta Antimanicomial que, por sua vez, seguia os trilhamentos do movimento da antipsiquiatria instaurado pelos surrealistas na França e o pela Reforma Psiquiátrica, surgido na Itália nos anos 70. As condições de confinamento asilar dos manicômios psiquiátricos foram denunciadas ao longo de décadas e travou-se uma luta contínua para libertar os loucos da condição subanimal em que viviam. O Museu da Loucura em Barbacena (MG) nos dá um exemplo da situação retratando quem eram os loucos internados nos manicômios (www.youtube.com/watch?v=-2O0WlW5pFc).

As práticas de internamento da loucura possuem uma história. Até 1650, a cultura ocidental foi estranhamente hospitaleira à experiência da loucura. A partir daí ocorreu brusca mudança: o mundo da loucura vai se tornar o mundo da exclusão. Por toda a Europa, a prática do internamento era uma medida de assistência social, sem vocação médica alguma. Na França, por exemplo, cada grande cidade terá seu Hospital Geral, para onde são encaminhamos os loucos, os pobres inválidos, os velhos na miséria, os mendigos, os desempregados, os usuários de ópio, os portadores de doenças venéreas e demais rebotalhos sociais. O internamento não visava ao tratamento específico dos loucos. Seu propósito, até a Revolução Francesa, era reestruturar o espaço social: fazer uma higienização das ruas e praças, recolhendo todos os desvalidos e encaminhando-os à internação no Hospital Geral. O modelo republicano implantado libertou os pobres e desvalidos do internamento, reservando o espaço apenas para os loucos: os herdeiros naturais do internamento.

Foucault em seu livro-acontecimento História da Loucura na Idade Clássica (Ed. Perspectiva), delineou a constituição histórica da loucura como doença mental, afirmando que, antes do século 19, a experiência da loucura era bastante polimorfa, tendo sido com o advento das práticas de internamento no Hospital Geral que a categoria de doença mental começou a ser construída para diagnosticar os loucos e aplicar técnicas corretivas de tratamento: “numa época relativamente recente o Ocidente concedeu um status de doença mental à loucura e as práticas de internamento adquiriram uma nova significação tornando-se medida de caráter médico”. É nesse contexto que a psiquiatria será inventada e uma psicopatologia, construída.

A atualidade da luta antimanicomial está diretamente ligada às reivindicações por políticas públicas que possam acolher em tratamento e cuidados aqueles afetados pela experiência da loucura. Ocorre que a loucura perdeu seu diagnóstico diferencial ao ser subjulgada pela categoria de doença mental. Os protocolos e consensos na comunidade científica definem a experiência da loucura como doença mental e determinam políticas públicas de atendimento em saúde mental. Os diagnósticos da loucura, feitos com base no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM IV) e na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 10), dominam hegemonicamente os discursos e práticas de atenção à saúde mental e pouco contribuem para um avanço significativo no tratamento da experiência da loucura.

Como os trabalhadores do campo da saúde mental podem se desvencilhar dessa armadilha construída historicamente que captura os discursos e práticas de resistências? Como os cuidadores, que acolhem os abatidos pelo sofrimento psíquico, podem restituir a experiência da loucura como um modo de enunciação da verdade do sujeito, como um grito de desespero e demanda de amparo?

Surrealismo e Espiritismo: a escrita automática

Os filmes sobre Chico Xavier e Bezerra de Menezes assim como a novela da Rede Globo estão aumentando o número de pessoas que buscam um passe, uma imposição de mãos ou mensagens do além morte nas casas espíritas de todo o Brasil. Numa reportagem sobre o tema, publicada na ‘Folha de São Paulo’, o fenômeno foi nomeado como “os espíritas saem do armário”. Segundo dados do IBGE, os espíritas ocupam o 3.º lugar no item das religiões praticadas no Brasil.

cartaz escolhido pelos internautas

Quando criança morava visinho a um centro espírita: duas vezes por semana, um grupo de pessoas do bem sentava ao redor de uma longa mesa forrada com linho branco. Era conhecido no bairro como Centro de Mesa Branca – para se diferenciar do terreiro de umbanda que havia no mesmo bairro. Garoto curioso e ecumênico, eu freqüentava os dois.

No Centro de Mesa Branca gostava do ambiente calmo, sereno, à meia luz, onde os adultos estendiam as mãos sobre o branco linho e davam passagem aos espíritos em busca de luz. Os espíritos mais evoluídos ensinavam os caminhos para os jovens espíritos de mortos recentes. Os familiares desesperados em trabalho de luto buscavam uma mensagem de seu ente querido desencarnado. Não me lembro de ver a prática da psicografia naquele centro. A comunicação entre vivos e mortos se realizava na oralidade, não pela escrita. Naquele tempo, e naquelas circunstâncias, a maioria dos médiuns era analfabeta.

ESCHER - Drawing Hands (Litografia)

Muito tempo depois, no trabalho de pesquisa que realizei sobre o movimento surrealista, descobri que os escritores desse período tiveram grande interesse pela prática da psicografia no kardecismo. Vários deles freqüentaram sessões espíritas com o propósito de identificar esse fenômeno de escrita. Alguns até reproduziam o cenário de um centro espírita para praticar a escrita automática. A relação dos surrealistas, na França da década de 1920, com o kardecismo é um aspecto interessante para pensar esse advento do espiritismo em nossos dias para além da explosão midiática em torno do tema.

De março a junho de 1952, André Breton refez sua trajetória num conjunto de dezesseis entrevistas concedidas a André Parinaud e transmitidas pelo sistema de Radiodifusão Francesa. Transcritas, as ‘Entrevistas’ (Edições Salamandra) são um precioso arquivo sobre o movimento surrealista, narrado por seu protagonista principal. Depois de contar sobre sua admiração entusiasmada por Freud e do encontro que teve com ele em Viena, Breton afirma: “as experiências do sono fazem parte integrante da história do movimento surrealista”. Denominada como ‘estados segundos’, estas experiências de estados hipnóticos, de transe mediúnico, foram resgatadas pelos surrealistas como ato instaurador de uma escrita que escapa à sujeição das percepções sensórias imediatas. Com isso, “tratava-se de devolver o verbo humano às suas inocência e virtude criadora original”.

Andre Breton

Os surrealistas encontraram essas experiências de estados segundos na psicografia praticada pelo espiritismo. Não lhes interessava a doutrina espírita por uma questão de princípio: “é impossível a comunicação entre os vivos e os mortos”. A despeito de seu ponto de partida, o espiritismo permitia capturar uma experiência singular: a escrita automática na prática da psicografia. A doutrina revelava certos poderes do espírito no ato da escrita. “Somente o surrealismo, na visão de Breton, pode valorizar o que resta da comunicação mediúnica quando liberta das loucas interpretações metafísicas.”

Breton estabeleceu um critério: “para que a escrita seja verdadeiramente automática, é preciso, com efeito, que o espírito tenha conseguido colocar-se em condições de desapego, quer em relação às solicitações do mundo exterior, quer às preocupações individuais de ordem utilitária e sentimental”. Penso que é um bom critério para assistir ao filme sobre a vida de Chico Xavier: em seus livros psicografados, o mineiro de Uberaba praticou a verdadeira escrita automática.