Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Um dia no Centro Pompidou em Paris

mais um capítulo da série de narrativas para a construção de uma memória estética-turística

roteiro de julho de 1996

Pouco antes de minha partida, o jornal Folha de São Paulo noticiou: “Paris recebe a dor e arte de Francis Bacon”. Recebi isso como um presente dos deuses. Seria a grande oportunidade de conhecer ao vivo e as cores desse gênio contemporâneo. O Centro Pompidou organizou uma retrospectiva com 79 pinturas de Bacon, destas 16 eram grandes trípticos, e 4 obras inéditas. Meu coração saltitava de alegria na expectativa do encontro com as telas de Bacon.

O Centro Nacional de Arte e Cultura Georges Pompidou nasceu do expresso desejo do presidente Pompidou. Com uma arquitura icônica projetada por Renzo Piano e Richard Rogers, o Centro Pompidou reúne em seu projeto ser abrigo para as artes plásticas em suas múltiplas relações com as demais manifestações da arte moderna e contemporânea: o teatro,  a música, filmes, livros. Situado no coração de Paris, o Centro recebeu, em seus 30 anos de existência, cerca de 190 milhões de visitantes (http://www.centrepompidou.fr/).

entrada do centro pompidou

Bacon retratou a angústia na dilacerante carne humana. Certa vez afirmou: “gostaria que meus quadros dessem a impressão de que um homem se introduziu sorrateiramente, como um escargot, deixando um rastro de presença humana e de lembranças de fatos passados, como e escargot deixa seu rastro de baba pelo caminho”.  O escritor Philippe Sollers (http://www.philippesollers.net/) afirmou em As paixões de Francis Bacon: “juntamente com Picasso, Bacon é o maior pintor do século XX, um século que se superou em massacres, torturas e horrores”. As telas que retratam o dilaceramento do corpo humano se contraposta com as telas que retratam o esquartejamento de corpos bovino e suino demonstram com perfeição a genialidade do pintor.

Instituto de Artes de Chicago

Chefe rodeado pelos lados da carne - 1954

Em 1998, a Galeria Hayward do Centro Cultural da Margem Sul de Londres, organizou também uma exposição destacando o lugar do corpo humano. Num ensaio publicado no Caderno Mais da Folha SP, Nicolau Sevcenko comentou a exposição londrina afirmando: “Bacon é um dos artistas que neste século sondou mais profundamente os modos pelos quais nossa cultura condiciona a percepção do corpo humano. Ele cogita sobre como nosso olhar opera sob filtro de valores e experiências que seleciona o que vê e o que está excluído de qualquer registro sensorial. Mais que isso, ele confronta a natureza histórica e política desse filtro, disposto a se livrar dele e descobrir o que jaz por trás dessa ética das aparências sanitizadas. Nesse sentido, sua obra ameaça de modo desagradável nossos hábitos visuais e relutamos muito em nos reconhecer nela. Ele próprio estabelecia esse desafio de maneira franca e crua. Várias vezes repetiu: ‘se você quer entender a lógica da nossa relação com a carne, olhe bem para o bife no seu prato'”.

Tríptico - parte 1 - 1973

“Nós somos carne. Somos carcaças em potencial. Quando entro em um açougue, fico surpreendido por não estar no lugar do bicho”

“Eu quero morrer como nasci, sem nada. Espero continuar pintando, nos intervalos entre a bebida e jogo, até eu cair morto, e espero que venha a morrer trabalhando”

“Existe todo um território que não foi ainda explorado, o de formas orgânicas relativas à figura humana que distorcem por completo”

“Visto que a maioria de minhas figuras é de nus masculinos, não há dúvida de que me influenciou muito o fato de Michelangelo ter realizado os mais voluptuosos nus masculinos de todas as artes plásticas”

Auto retrato - Francis Bacon

Ver:

http://www.youtube.com/watch?v=HIyVic5ubEY – vídeo com solo de guitarra flamenca apresenta boas fotos do pintor

 http://www.youtube.com/watch?v=2itWlKXgPEw&feature=related – vídeo com solo jazzístico mostrando as fontes de inspiração e o contexto histórico de criação das obras de Bacon

 http://www.youtube.com/watch?v=QhaqwlZxJZI&NR=1 – documentário exibido em rede de TV inglesa com imagens de arquivo revelando o pintor irlandês pelas ruas de Londres

Ler: O Corpo Impossível: a decomposição da figura humana de Lautréamont a Bataille – Eliane Robert de Moraes (Iluminuras, 2002).

No comments yet»

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: