Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para julho, 2010

FREUD, GRODDECK E NIETZSCHE: ENTORNO dISSO

No tempo em que construía o segundo modelo de funcionamento do aparelho psíquico, Freud leu O Livro dIsso escrito por Georg Walther Groddeck em 1921. Neste opúsculo epistolar [inicialmente nomeado, “Cartas a uma amiga sobre a psicanálise], Groddeck deixou claro sua fonte inspiradora: “Quanto a minhas cartas, vou dar-lhe a chave para o deciframento delas: tudo o que lhe parecer razoável ou apenas um pouco insólito provém diretamente do professor Freud, de Viena, e de seus discípulos; o que lhe parecer totalmente fora de propósito é de minha paternidade” (p. 17). Freud não poderia ter recebido reconhecimento maior de alguém que antecipou, em muito, sua invenção: os fundamentos da clínica psicanalítica. Na carta 2, Groddeck afirmou seus princípios na direção do tratamento que realizava no sanatório de Banden-Banden na Alemanha desde 1895: “Acredito que o homem é vivido por algo desconhecido. Existe nele um Isso, uma espécie de fenômeno que comanda tudo que ele faz e tudo o que lhe acontece. A frase ‘Eu vivo…’ é verdadeira apenas em parte; ela expressa apenas uma pequena parte desse verdade fundamental: o ser humano é vivido pelo Isso. É desse Isso que falarei em minhas cartas” (p.9).

O título das cartas faz um jogo metonímico, por um deslocamento homofônico, relacionando livro com livrar. Desse modo, o livro dIsso é um ensinamento para se livrar dIsso. Groddeck estava convencido que “desse Isso conhecemos apenas aquilo que está em nosso consciente. A maior parte do Isso – e de longe a maior parte! – constitui um setor em princípio inacessível (…) É que o Isso é bem estranho [e inquietante], e não leva em consideração a ciência anátomo-fisiológica; ele refaz por si mesmo o feito de Zeus, segundo a velha  lenda ateniense, e dá a luz pela cabeça” (pp. 9 e 14). Como então se livrar dIsso? Engajar-se na produção de novas significações simbólicas através de um permanente cuidado de si. Livrar dIsso é ouvir/significar o que Isso quer dizer: o sintoma fala, o sonho fala, o ato é falho.

Freud soube retribuir a generosidade de seu amigo Groddeck ao indicar um novo estatuto para o inconsciente na 2ª tópica. No livro O Eu e o Id [Isso] publicado em 1923, citou textualmente O Livro dIsso: “penso que não devemos hesitar em atribuir o devido valor a essa concepção de Groddeck [‘nós somos vividos por forças desconhecias e incontroláveis’] e dar-lhe um lugar no conjunto da ciência. Proponho, assim, denominarmos este ente que provém do sistema pré-consciente de o Eu [das Ich] e, seguindo Groddeck, aquele outro psíquico, no qual o Eu se prolonga e que se comporta de forma inconsciente, de o Id (o Isso) [das Es]” (p.37).  Ao atribuir esse crédito, Freud inseriu uma nota de rodapé indicando um parentesco semântico curioso entre Groddeck e Nietzsche. E, mais interessante ainda é o modo como Freud se insere nesta linhagem de sentido para o inconsciente. 

Um breve exercício de comparação entre três traduções distintas desta nota permite depreender o entorno, o contorno da interlocução possível entre Freud e Nietzsche mediado por Groddeck:

1) Standard Brasileira das Obras Completas: “O próprio Groddeck, indubitavelmente, seguiu o exemplo de Nietzsche, que utilizava habitualmente este termo gramatical [das Es] para tudo que é impessoal em nossa natureza e, por assim dizer, sujeito à lei natural” (p.37)

2) Obras Psicológicas: “Groddeck parece ter seguido o exemplo de Nietzsche, onde esta expressão gramatical [das Es] é usada para o impessoal e para designar aquilo que é, por assim  dizer, expressa as imposições da natureza no nosso ser” (p. 82 – há um equívoco na tradução coordenada por Luiz Alberto Hanns; como está, parece que a nota é do editor inglês e não do Freud).

3) Obras Completas: “Groddeck sigue el ejemplo de Nietzsche, el cual usa frecuentemente este término [das Es] como expresión de lo que en nuestro ser hay de impersonal” (p.2707).

O reconhecimento da presença de Nietzsche em Groddeck demonstra que Freud conhecia as posições de Nietzsche sobre o inconsciente. E mais, demonstra também que Nietzsche foi um leitor dos livros publicados pelo pai de Groddeck, o médico alemão Karl Groddeck. Vejam que estranha relação: Groddeck (pai) – Nietzsche – Groddeck (filho) – Freud.

Indicações bibliográficas:

FREUD, Sigmund “O Ego e o Id” In: Edição Standard  Brasileira das Obras Completas, volume XIX. Tradução José Otávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, S. “O Eu e o Id” In: Escritos sobre psicologia do inconsciente. Volume III – Coordenação geral da tradução Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2007.

FREUD, S. “El Yo y el Ello” In: Obras Completas – Tomo III – Tradução de Luis Lopes-Ballesteros y de Torres. Espanha: Ediotrial Biblioteca Nueva, 1973.

GRODDECK, Georg O Livro dIsso. Tradução José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 3ªed., 1991.

 http://bibliotecadelpsicoanalista.blogspot.com/2009/09/entre-los-psicoanalistas-georg-groddeck.html

 http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs25/aclinicanaconfluencia.htm

http://www.youtube.com/watch?v=orFP8GIvaJo  [breve apresentação de uma proposta de trabalho que foi interrompida na Unimep e, de algum modo, deslocada para os objetivos do curso “Freud, Leitor de Nietzsche” que terá início no próximo dia 16/08/2010]

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CURSO DE EXTENSÃO EM PSICANÁLISE

FREUD, LEITOR DE NIETZSCHE

Período: 16 e 30/08  –  20/09   –   04 e 25/10   –   29/11   –   13/12   –  Horário: 19:30 as 21:30

Custo: R$ 210,00 (em 3 parcelas)

Local: Clínica de Psicanálise –  Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba/SP.

Vagas limitadas: 15    

Inscrição: mmariguela@gmail.com

Coordenação: Márcio Mariguela 

Sigmund Freud em 1938

1. Objetivo: As aulas deste módulo de ensino e transmissão da psicanálise propõem uma interlocução entre pontos específicos da obra de Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche: 

– em nota de rodapé no livro O Ego e o Id [das Ich und das Es], publicado em 1923, Freud destacou que usaria o pronome es para designar o inconsciente na segunda tópica do funcionamento do aparelho psíquico. Desse modo, manteria o mesmo sentido gramatical utilizado por Nietzsche para tudo o que é impessoal em nossa condição de animal falante.

– nos aforismos: 8 “Virtudes Inconscientes”; 333 “O que significa conhecer”; 354 “Do gênio da espécie”, publicados em 1882 no livro A Gaia Ciência, Nietzsche utiliza o pronome es (pessoal do gênero neutro) para designar o inconsciente como tudo o que é impessoal em nós, aquilo que nos é mais estranho e por isso mesmo o mais familiar.     

Friedrich Nietzsche

2- Justificativas

Diferentes autores elegeram a relação Freud-Nietzsche como tema de investigação. Paul-Laurent Assoun, por exemplo, comentou a estranha contemporaneidade entre Freud e Nietzsche, citando a ata da Sessão de 01 de Abril de 1908 da Sociedade Psicanalítica de Viena em que Freud afirmou não conhecer a obra de Nietzsche, que nunca conseguiu estudá-lo, e não conseguia passar além de meia página nas tentativas de lê-lo. Citou também duas outras ocasiões em que Freud disse ter recusado o grande prazer proporcionado pela leitura de Nietzsche e ter evitado, por muito tempo, o contato com sua escrita

Michel Foucault também se interrogou sobre a estranha contemporaneidade entre Freud e Nietzsche. Na conferência de 1964, alinhou Nietzsche, Freud e Marx para analisar as rupturas que cada um, a seu modo, realizou na hermenêutica moderna: “No primeiro volume do Capital, textos como o A Genealogia da Moral e a A Interpretação dos Sonhos, situam-nos de novo diante de técnicas interpretativas. E o efeito do seu impacto, o gênero de ferida que estas obras produziram no pensamento ocidental, deve-se provavelmente ao fato de terem significado para nós o que o mesmo Marx qualificou de ‘hieroglíficos’. O que nos coloca numa posição incômoda, já que estas técnicas de interpretação nos dizem respeito, e que nós, como intérpretes, temos que interpretar-nos a partir destas técnicas”.

Esta referência ao argumento de Foucault define também a perspectiva adotada para o desenvolvimento das aulas: Nietzsche ocupa a função autor na obra de Freud. Na literalidade é possível traçar – ou mesmo cartografar – um campo de investigação: o lugar do estranho, da outra cena, do impessoal para designar o inconsciente. Dele se ocupou Nietzsche e, como leitor de A Gaia Ciência, Freud deu ao inconsciente um novo estatuto: estabelecendo assim, uma ruptura e descontinuidade com a função que o mesmo ocupava na primeira tópica do aparelho psíquico: desde a Interpretação dos Sonhos em 1900 até o Mais-Além do Princípio do Prazer, publicado em1920.

 3 – Bibliografia Básica:

FREUD, Sigmund “O Eu e o Id” In: Escritos sobre psicologia do inconsciente. Volume III. Coordenação geral da tradução Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2007.

FREUD, Sigmund “O Inquietante” In: Coleção Obras Completas. Tradução Paulo César Souza. volume 14. São Paulo: Cia das Letras, 2010. 

FREUD, Sigmund “Conferência XXI – Dissecção da personalidade psíquica”. In: Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise – Coleção Standard das Obras Completas, vol. XXII, Rio de Janeiro: Imago, 1994. 

NIETZSCHE, Friedrich A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

ASSOUN, Paul-Laurent Freud & Nietzsche: semelhanças e dessemelhanças. São Paulo: Brasiliense, 1989.

FOUCAULT, Michel “Nietzsche, Freud e Marx” In: Ditos & Escritos II – Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

GAY, Peter Freud, uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

LEFRANC, Jean Compreender Nietzsche. Petrópolis-RJ: Vozes, 2005.

MARIGUELA, M. “A função autor na instauração da discursividade” In: Psicanálise e Surrealismo: Lacan o passador de Politzer. Piracicaba:  Jacintha Editores, 2007.

MARIGUELA, M. “Freud, Nietzshe y la genealogía de la civilización” In: Delito y Sociedad – Revista de Ciências Sociales – Año 18, nº 27.       Argentina, 2009.

 MARIGUELA, M. “Freud e Nietzsche: ontogênese e filogênese” In: Impulso – Revista de Ciências Sociais e Humanas, volume 12, nº 28,   Piracicaba: Editora Unimep, 2001. [artigos disponíveis em: www.marciomariguela.com.br/artigos/revistas]