Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

FREUD, GRODDECK E NIETZSCHE: ENTORNO dISSO

No tempo em que construía o segundo modelo de funcionamento do aparelho psíquico, Freud leu O Livro dIsso escrito por Georg Walther Groddeck em 1921. Neste opúsculo epistolar [inicialmente nomeado, “Cartas a uma amiga sobre a psicanálise], Groddeck deixou claro sua fonte inspiradora: “Quanto a minhas cartas, vou dar-lhe a chave para o deciframento delas: tudo o que lhe parecer razoável ou apenas um pouco insólito provém diretamente do professor Freud, de Viena, e de seus discípulos; o que lhe parecer totalmente fora de propósito é de minha paternidade” (p. 17). Freud não poderia ter recebido reconhecimento maior de alguém que antecipou, em muito, sua invenção: os fundamentos da clínica psicanalítica. Na carta 2, Groddeck afirmou seus princípios na direção do tratamento que realizava no sanatório de Banden-Banden na Alemanha desde 1895: “Acredito que o homem é vivido por algo desconhecido. Existe nele um Isso, uma espécie de fenômeno que comanda tudo que ele faz e tudo o que lhe acontece. A frase ‘Eu vivo…’ é verdadeira apenas em parte; ela expressa apenas uma pequena parte desse verdade fundamental: o ser humano é vivido pelo Isso. É desse Isso que falarei em minhas cartas” (p.9).

O título das cartas faz um jogo metonímico, por um deslocamento homofônico, relacionando livro com livrar. Desse modo, o livro dIsso é um ensinamento para se livrar dIsso. Groddeck estava convencido que “desse Isso conhecemos apenas aquilo que está em nosso consciente. A maior parte do Isso – e de longe a maior parte! – constitui um setor em princípio inacessível (…) É que o Isso é bem estranho [e inquietante], e não leva em consideração a ciência anátomo-fisiológica; ele refaz por si mesmo o feito de Zeus, segundo a velha  lenda ateniense, e dá a luz pela cabeça” (pp. 9 e 14). Como então se livrar dIsso? Engajar-se na produção de novas significações simbólicas através de um permanente cuidado de si. Livrar dIsso é ouvir/significar o que Isso quer dizer: o sintoma fala, o sonho fala, o ato é falho.

Freud soube retribuir a generosidade de seu amigo Groddeck ao indicar um novo estatuto para o inconsciente na 2ª tópica. No livro O Eu e o Id [Isso] publicado em 1923, citou textualmente O Livro dIsso: “penso que não devemos hesitar em atribuir o devido valor a essa concepção de Groddeck [‘nós somos vividos por forças desconhecias e incontroláveis’] e dar-lhe um lugar no conjunto da ciência. Proponho, assim, denominarmos este ente que provém do sistema pré-consciente de o Eu [das Ich] e, seguindo Groddeck, aquele outro psíquico, no qual o Eu se prolonga e que se comporta de forma inconsciente, de o Id (o Isso) [das Es]” (p.37).  Ao atribuir esse crédito, Freud inseriu uma nota de rodapé indicando um parentesco semântico curioso entre Groddeck e Nietzsche. E, mais interessante ainda é o modo como Freud se insere nesta linhagem de sentido para o inconsciente. 

Um breve exercício de comparação entre três traduções distintas desta nota permite depreender o entorno, o contorno da interlocução possível entre Freud e Nietzsche mediado por Groddeck:

1) Standard Brasileira das Obras Completas: “O próprio Groddeck, indubitavelmente, seguiu o exemplo de Nietzsche, que utilizava habitualmente este termo gramatical [das Es] para tudo que é impessoal em nossa natureza e, por assim dizer, sujeito à lei natural” (p.37)

2) Obras Psicológicas: “Groddeck parece ter seguido o exemplo de Nietzsche, onde esta expressão gramatical [das Es] é usada para o impessoal e para designar aquilo que é, por assim  dizer, expressa as imposições da natureza no nosso ser” (p. 82 – há um equívoco na tradução coordenada por Luiz Alberto Hanns; como está, parece que a nota é do editor inglês e não do Freud).

3) Obras Completas: “Groddeck sigue el ejemplo de Nietzsche, el cual usa frecuentemente este término [das Es] como expresión de lo que en nuestro ser hay de impersonal” (p.2707).

O reconhecimento da presença de Nietzsche em Groddeck demonstra que Freud conhecia as posições de Nietzsche sobre o inconsciente. E mais, demonstra também que Nietzsche foi um leitor dos livros publicados pelo pai de Groddeck, o médico alemão Karl Groddeck. Vejam que estranha relação: Groddeck (pai) – Nietzsche – Groddeck (filho) – Freud.

Indicações bibliográficas:

FREUD, Sigmund “O Ego e o Id” In: Edição Standard  Brasileira das Obras Completas, volume XIX. Tradução José Otávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, S. “O Eu e o Id” In: Escritos sobre psicologia do inconsciente. Volume III – Coordenação geral da tradução Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2007.

FREUD, S. “El Yo y el Ello” In: Obras Completas – Tomo III – Tradução de Luis Lopes-Ballesteros y de Torres. Espanha: Ediotrial Biblioteca Nueva, 1973.

GRODDECK, Georg O Livro dIsso. Tradução José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 3ªed., 1991.

 http://bibliotecadelpsicoanalista.blogspot.com/2009/09/entre-los-psicoanalistas-georg-groddeck.html

 http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs25/aclinicanaconfluencia.htm

http://www.youtube.com/watch?v=orFP8GIvaJo  [breve apresentação de uma proposta de trabalho que foi interrompida na Unimep e, de algum modo, deslocada para os objetivos do curso “Freud, Leitor de Nietzsche” que terá início no próximo dia 16/08/2010]

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