Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para agosto, 2010

Esquecendo se recorda: Freud e o nome Signorelli

Freud iniciou seu livro Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana analisando um fenômeno corriqueiro: o esquecimento de nome próprio. Para empreender a análise usou como exemplo um ato de esquecimento do nome do pintor Luca Signorelli que ocorreu consigo numa viagem de coche entre Ragusa e a uma cidade vizinha na Herzegovina. Durante a viagem, conversando sobre fotografias com um advogado de Berlim que o acompanhava, Freud recomendou ao interlocutor que visitasse a bela Catedral de Orvieto para contemplar os afrescos do ciclo do fim do mundo e do juízo final pintados por…. “O nome do pintor me escapava e não houve jeito de lembrá-lo. Forcei a memória, passei em revista a todos os detalhes dos dias em Orvieto e pude constatar que nenhum deles se atenuava ou se apagara. Conseguia, aliás, representar as imagens de forma mais viva do que normalmente consigo”.

Catedral de Orvieto

As imagens mais vivas que impregnavam o esquecimento do nome do pintor estavam associadas à visão da cena “A ressurreição da carne” pintada por Signorelli para compor o tema do Juízo Final na capela de San Brizio. A catedral de Orvieto, na região da Úmbria / Itália,  é uma construção em estilo gótico iniciada em 1347 sob a responsabilidade do arquiteto Andrea Pisano, que faleceu dois anos depois, transferindo a responsabilidade para o seu filho Nino Pisano (pintor e escultor da fase gótica italiana). Toda a fachada apresenta um fundo de mosaicos dourados. Seu interior, com três naves e uma planta cruciforme, é decorado com mármores brancos e pretos com impactante efeito plástico. Este cenário abriga uma coleção dos clássicos mestres do renascimento italiano, dentre eles, Fra Angelico e Luca Signorelli. A catedral sobreviveu às trágicas guerras permanecendo intocável através dos tempos.

Os Condenados - Signorelli

As cenas narrando os temas do Apocalipse e do Juízo Final compõem o ciclo de afrescos [com tamanho de aproximadamente 6 metros cada um] intitulados:”A História do Anti-Cristo”, “O Fim do mundo”, “A ressurreição da carne , “Os Condenados”, “Os Eleitos”, “O Paradiso” e “O Inferno”. Signorelli edificou sua obra sob o signo da força e do movimento revelando-se um dos mais brilhantes anatomistas de sua época. Pintou a figura humana como entidade arquitetónica expressando uma dramaticidade sem igual. Michelangelo inspirou-se nestas cenas retratadas por Signorelli para compor sua versão do Juízo Final no altar mor da capela Sistina.

A Ressurreição da Carne - Signorelli

“A ressurreição da carne” é o significante que inscreve o conflito psíquico vivido por Freud quando de sua visita a Orvieto. Antes de partir, escreveu para seu amigo Fliess: “Hoje, ao meio dia, partirei com Martha para o Adriático; se vamos ficar em Ragusa, Grado, ou algum outro lugar, será decidido no caminho”. Citou um proverbio para dizer de sua situação: “A maneira de enriquecer é vender a última camisa”. Estava abatido por não encontrar um substrato anatômico para sua escuta clínica dos sintomas histéricos: “o segredo dessa inquietação é a histeria. Na inatividade daqui e na ausência de qualquer novidade fascinante, todo esse negócio [a teoria da sedução] passou a me oprimir pesadamente a alma. Agora, meu trabalho me parece ter muito menos valor e minha desorientação parece completa”. Citando outro provérbio [“quem procura acha, frequentemente, muito mais do que deseja”] constatou: “A consciência é apenas um órgoão sensorial; todo conteúdo psíquico é apenas representação; todos os processos psíquicos são inconscientes”.

A retornar da viagem à Itália, escreveu a Fliess dizendo: “voltei há apenas três dias e todo mau humor de estar em Viena já se abateu sobre mim. É um perfeito martírio viver aqui, e isso não é clima em que possa sobreviver a esperança de se concluir coisa alguma”. Rebateu os argumentos de Fliess afirmando não ter a intenção de deixar “a psicologia suspensa no ar, sem uma base orgânica”. No entanto, não encontrava um modo de ajustar a escuta clínica com os pressupostos da neuro-fisiologia: “não sei como prosseguir, de modo que preciso comportar-me como se apenas o psicológico estivesse em exame. Por que não consigo encaixá-los [o orgânico e o psíquico] é algo que nem sequer começei a imaginar”.

Os Eleitos - Signorelli

Essa carta de 22/09/1898 é a mesma em que aparece o segundo exemplo de análise do esquecimento de nome próprio e envolvia a viagem a Orvieto e a cena da “ressurreição da carne” de Signorelli. Esta análise  foi publicada no mesmo ano como num pequeno ensaio, “O mecanismo psíquico do esquecimento”. Na carta registrou que o esquecimento do nome Signorelli estava ligado ao contexto da conversa com o companheiro de viagem: “Na conversa, que despertou lembranças que obviamente causaram o recalcamento, falamos sobre a morte e a sexualidade”. Os temas da conversa fora atravessados pela imagem dos corpos esculpidos/pintados por Signorelli. “Como posso tornar isso crivel aos olhos de outrem?”,  perguntou Freud diante de seu embaraço em encaixar o somático e o psíquico e justificar assim o recalcamento: o fato de não haver representação psíquica para a morte e a sexualidade.

 Indicações:

Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904). Editado por Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

http://www.bellaumbria.net/Orvieto/cappella_san_brizio_eng.htm

http://www.pitoresco.com.br/italiana/signorelli.htm

http://www.tempofreudiano.com.br/artigos/detalhe.asp?cod=48

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DIÁLOGO CINEMÁTICO

SESSÃO: 29/08/2010 – Domingo as 16h – vagas limitadas – gratuíto – inscrições por email: mmariguela@gmail.com

Local: Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba/SP

“O ato psicanalítico designa uma forma, um envelope, uma estrutura tal que, de algum modo, ele suspende tudo o que até então tenha sido instituído, formulado, produzido como estatuto do ato, à sua própria lei” – Jacques Lacan

Em continuidade ao Projeto Psicanálise em Extensão, convido para assistir ao filme Rosencrantz e Guildenstern estão mortos e, após a exibição, uma conversa sobre a referência que o psicanalista Jacques Lacan fez a esses dois personagens na lição de 06 de dezembro de 1967 do Seminário 15 – O Ato Psicanalítico.  A mediação será realizada pela Marta Togni Ferreira [ médica psiquiátra, psicanalista membro da Escola de Psicanálise de Campinas -EPC]. Esta sessão também faz parte de uma reunião aberta ao público com dos membros do Cartel da EPC que trabalham com o referido Seminário.

O dramaturgo inglês Tom Stoppard reescreveu a clássica tragégia de Shakespeare a partir do ponto de vista de Rosencrantz e Guildenstern, personagens secundários de  Hamlet. O filme de 1990 é uma versão da peça homônima encenada em Londres em 1967 com grande sucesso de público e crítica. Também marcou a estreia do próprio diretor no cinema. Para tanto, Stoppard escolheu Gary Oldman e Tim Roth para interpretar os simpáticos trapalhões que são encarregados de levar a carta [um envelope] de execução do príncipe e acabam sendo eles próprios condenados pelo ato ardiloso de Hamet ao trocar a letra e se safar assim da própria morte.

Lacan disse que estes dois personagens lhe eram muito significativos: “um e outro, nos diz o título da peça, estão mortos. Antes fosse verdade! Nada disso, Rosencrantz e Guildenstern  estarão sempre lá”. Dez anos antes, já havia evocado os dois personagens no seu Escrito “A instãncia da letra no inconsciente” – exposição feita em 09/05/1957 aos membros do grupo de filosofia da Federação dos Estudantes de Letras, no anfiteatro Descartes na Sorbonne.

Escrever com os olhos para reinventar a vida

“Meu intelecto e meus afetos não reconhecem mais o corpo que antes os concretizavam na relação entre o pensar e o fazer. Filosoficamente, é como se eu estivesse vivendo a separação do espírito e da matéria. O reencontro dá-se no riso e no choro, quem sabe por meu corpo ainda ter autonomia para viabilizar tais emoções. São três anos de angústia, desespero e tristeza indescritíveis. Entretanto, sempre acreditei que o ser humano possui possibilidades de reinventar a vida em quaisquer circunstâncias. E essa crença me faz sentir que apenas ‘quebrei as asas’ e terei de aprender a alçar outros e novos vôos”. Assim, de forma abrupta e sublime, o leitor é convidado a percorrer o curso e percurso do adoecimento, pela esclerose lateral amiotrófica (ELA), da profa. Lucília Augusta Reboredo.

O livro “A Dança dos Beija-flores no Camarão Amarelo” (Jacintha Editores), a ser lançado em setembro, foi soletrado com os olhos: cada frase viu-se construída num lúcido exercício psíquico e ditada, letra a letra, pelo movimento ocular entre uma tabela alfanumérica e a pessoa que estava ao lado para grafar a sinalização dada pelo olhar. O relato da autora teve início em 2006 e corresponde ao período em que sofreu perdas motoras irreversíveis, até a imobilidade total – com exceção do movimento dos olhos. Como destaca Mariá Aparecida Pelissari, que assina a introdução: “É soletrando com os olhos que Lucília constrói sentidos. Essa base para sua expressão é uma espécie de escritura de si, pois que, ao narrar seu percurso recente, Lucília se reinventa e possibilita sua nova inscrição no mundo. Assim, este livro confere o suporte ideal para ela ocupar um lugar na escrita de si, ao autorizar-se a publicar e esperar algum efeito no outro e em si própria. Por suas páginas, os olhos de Lucília falam, sorriem, ensinam abraçam”.

Aqueles que tiveram o privilégio de conviver com a profa. Lucília no ambiente acadêmico guardam na memória a imagem fotográfica que o leitor encontrará no livro. Doutora em psicologia social, sua atuação política foi marcada pelo compromisso com o resgate da cidadania através de novos laços de convivência social. Participou de movimentos decisivos na luta por dignidade e justiça. Como guerreira amazona enfrentou o adoecimento de um câncer e, quando brindava a vitória sobre ele, recebeu a trágica notícia d’ELA, doença neurológica paralisadora dos comandos motores. Foi perdendo os movimentos das pernas, dos braços, das mãos, da deglutição, da respiração – o único mantido é o dos olhos. Mas seu corpo preserva todas as sensações, que só restam ser comunicadas e expressas justamente pelos olhos.

Nesse percurso, a profa. Lucília tem sido capaz de superar a si mesma: “creio que levei minha existência inteira ultrapassando meus próprios limites. Não foi por acaso que, vindo de uma família pobre de imigrantes portugueses, nascida em uma aldeia na região de Trás-os-Montes, cheguei a me formar doutora em psicologia e ser professora universitária. E por isso, também, eu tinha tanta resistência em aceitar minhas limitações físicas”. Mas logo percebeu que a ELA não paralisava sua criatividade. E, como sempre fez, reinventou possibilidades comunicativas: “Pintar telhas dava-me enorme prazer, pois com elas eu expressava minha subjetividade na relação com as pessoas que eram ou me estavam sendo significativas. Além disso, simbolicamente eu pensei ser assim uma forma de protegê-las, já que a telha é um elemento de abrigo”.

Com a progressão da ELA, a cada nova restrição, uma nova alternativa de expressão. Quando já não conseguia se alimentar sozinha, escovar os dentes, pentear os cabelos, enxugar o corpo, segurar um livro, abraçar pessoas…, Lucília começou a pintar mandalas coloridas, cada qual com um título, um nome, um traço significante que envolve o expectador/leitor numa rede de significação. Suavemente Lucília afirma haver vida para além d’ELA. Seu desejo convidativo (“espero sinceramente que goste do que vai encontrar aqui”) só pode ser acolhido, tal a generosidade com que nos convoca a fazer da vida, assim como ela própria o faz, uma obra de arte.

 artigo publicado no Jornal de Piracicaba – 07/08/2010