Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para dezembro, 2010

Passeio pela Península Ibérica

“Eis aqui, quase cume da cabeça / De Europa toda, o Reino Lusitano, /Onde a terra se acaba e o mar começa, /E onde Febo repousa no Oceano” 

(Luis de Camões – Lusíadas – canto III)

 A península ibérica é nossa Europa. Fomos colonizados pelo reino de Portugal e da Espanha.  A América do Sul Latina e Latrina foi dominada, explorada, massacrada, espancada pelos europeus cristãos do sul da Europa. Enquanto os povos do norte alçavam rumo ao processo de industrialização do processo de produção burguês, os povos do sul viviam uma monarquia expansionista na conquista de terras do além mar. Como bravos navegantes de naus angustiantes, portugueses e espanhóis alçavam âncora no processo de mercantilização de riquezas naturais das terras americanas do centro-sul.

O mapa abaixo cartografa visualmente a extensão de terras do sul da Europa divididas entre o reino de Portugal, reino de Castile, o reino de Navarra (ao norte),  o reino de Granada (ao sul) e a leste ,o reino de Aragon.  O arquipélogo pertencia ao reino de Majorca. Este conjunto de terras européias divididas em reinos de 1270 a 1492 será reordenado em duas monarquias: Portugal e Espanha.  

peninsula ibérica 1492

Primeira Estação: Lisboa – sob os pés a terra de matriz colonizadora e forjadora de identidade lingüística. Almoço nas margens do Tejo com a melancolia estética de um recomeçar: lançando nas lançadeiras da alegria inesperada de um dito espirituoso.

Começo mítico – estrutura de verdade  / Origem mística – devoto da esperança / Início mitigo – cambaleante no vinho

Meio sísifico – feliz na decida /Meio prometéico – com o fígado regenerado

Fim edípico – em Colono errante /Fim antígono – entre duas mortes a fazer herói

Um mimo de natal

Todo ato de presentear é uma forma de inscrição simbólica do sujeito que presenteia. Em várias situações convencionalmente instituídas, segundo o cálculo do mercado, somos convocados a presentear. Nestes tempos de expansão econômica, o número de presentes de Natal será um recorde histórico. O comércio varejista já apostou num crescimento de 20%. Com ascensão da chamada classe C, a troca de presentes natalinos será motivo de festa entre os brasileiros. O que escolher para presentear? Se a compra for aleatória, não tem graça. O encanto é comprar algo que possa dizer ao outro o que ele representa, o que você quer dizer ao presenteá-lo. Os objetos carregam um ato simbólico que quer dizer outra coisa. Símbolo é a presença de uma ausência. O objeto não tem valor em si: o valor está determinado por aquilo que ele representa na relação entre eu e o outro. É importante não se deixar capturar pelo valor que o objeto possui na lógica do mercado. Nós, bichos falantes, somos os únicos seres capaz de atribuir valor, de valorar. Que tal exercitar essa bela capacidade de instituir valor e escolher presentes que possam ser o símbolo de amor, de agradecimento, de generosidade, de gratidão – em suma, de desejo?

Se é para participar de fato do ritual natalino, que cada um possa inventar um modo de celebrar o nascimento do Deus menino. Celebrar o mistério da manjedoura: Deus que se faz carne para nos ensinar a prática do amor, da solidariedade, da partilha, da inclusão. “O verbo se fez carne” nos ensinou o discípulo amado. O Natal é um acontecimento na história da civilização cristã. Num dia determinado, a cristandade é chamada a celebrar o nascimento de Deus. Ritualizar esse ato inaugural, independente de ser cristão ou não, é um modo de cada um celebrar o verbo amar: isso é divino!

Bem antes de saber o que é o Natal, a palavra natal estava associada ao nome do senhor que vendia vísceras bovinas e suínas no bairro da minha infância. Seu Natal tinha uma carroça de metal e comprava vísceras no matadouro municipal para vender na periferia da cidade. As vísceras chegavam pela manhã com o cheiro da morte. As mulheres sabiam identificar a qualidade e o frescor, e trocavam receitas de bife de fígado acebolado; rins cozidos no molho de tomate; coração ensopado; dobradinha com linguiça. Seu Natal era um velhinho simpático como meu avô paterno, que também era charreteiro. Aos cinco anos, eu assumia as rédeas da charrete do seu Natal e passeava pelo bairro vendendo vísceras.

Tempos depois, Natal passou a significar confraternização na indústria de produtos alimentícios onde meu pai trabalhava. No final do ano, a diretoria promovia um churrasco entre os funcionários e seus familiares. A festa ocorria entre grandes máquinas, esteiras e caldeiras, responsáveis pela produção de extrato de tomate e goiabada. Meu pai explicava didaticamente como era o processo de produção. Adorávamos brincar de pega no meio daquela maquinaria toda. Os presentes distribuídos pela empresa me são até hoje inesquecíveis. Esperava com ansiedade desejante o grande dia de festa na fábrica para ganhar o presente de Natal.

Neste mesmo tempo, Natal era o dia de montar a árvore. Uma deliciosa cerimônia que começava num domingo de sol, quando saíamos pela mata para escolher o mais bonito galho de jabuticabeira. Pintávamos de prata o galho cuidadosamente desfolhado e o revestíamos de algodão. Fixado numa lata, a árvore-galho via-se adornada de um jogo de lâmpadas multicoloridas. As bolas de vidro fino como papel eram amarradas com destreza no manuseio. Como ápice dessa cerimônia, a colocação do pendão: um ponteiro de vidro esculpido. O da minha infância tinha uma manjedoura com a sagrada família. Toda casa possuía sua árvore-galho e, nas visitas natalinas com a reza do terço, as mulheres comentavam sobre o pendão/ponteiro. Cada um tinha sua própria história familiar: uma espécie de símbolo passado de mãe para filha. Um acidente incidente marcou-se em mim de forma traumática: decidi, contra a determinação de meus pais, ligar na rede elétrica as luzes da árvore de Natal. Adorava contemplar o reflexo das luzes nas bolas de vidro. Tomei um belo de um choque e cai ao chão arrastando comigo nossa árvore-galho toda enfeitada: poucas bolas sobraram intactas, e o pior: o pendão/ponteiro virou caco. Chorei copiosamente a culpa por aquele acidente.

Neste Natal, ao trocar de presentes, convide seus familiares e amigos queridos para celebrar o nascimento da vida contando/narrando uma lembrança natalina. A comemoração e rememoração natalina é um mimo que cada um pode dar a si mesmo, inventando e criando laços de convivência para além das determinações do consumo. Escolha o presente que possa significar sua presença na vida daquele que vai presentear. Que seu presente seja sua presença!