Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para janeiro, 2011

Passeio pela Península Ibérica V

7ª Estação: GRANADA – ESPANHA

Partimos de Sevilha pela bela Estação Santa Justa, conduzidos por um agradável taxista espanhol [coisa rara!] que dizia de seu desejo: conhecer o Brasil de verdade e “não aqueles pacotes de Resort que as agencias daqui oferecem”.  O veloz, moderno e bem confortável, trem foi cortando o sul da Espanha em meio a plantações disciplinadas de oliveiras. Num percurso de 3 horas até Granada, a verde oliva predominava em relevos totalmente cultiváveis. Ainda era possível ver os últimos momentos da colheita: os azeites da Andaluzia são muito apreciados.

caquis nos jardins de Alhambra

 Chegamos a Granada no meio do feriado “de los reyes” com um único propósito: visitar o Palácio Alhambra e a Catedral com seu entorno que eram moradias e comércio árabe. Nesta cidade pode-se ter a exata proporção da presença da realeza. La Alhambra: um palácio mágico, sublime e encantador. Por razões de preservação do patrimônio, há limite de vagas para a visitação. Compre seu bilhete com antecedência (http://alhambra-patronato.es), assegurando assim sua viagem pelo túnel do tempo preservado na inscrição de letras árabes.

arabescos no Alhambra

No século VIII o Mar Mediterrâneo estava sob controle dos árabes muçulmanos. Dominando todo o norte da África, atravessaram o estreito de Gibraltar e conquistaram os principais rios no sul da Europa. Em 1238, Muhammad I. Al-Ahmar, fundador da dinastia Nazari, instalou sua corte na “Colina de la Sabika”, iniciando a edificação dos palácios que compõem  La Alhambra: O Palacio del Mexuar, o Palacio de Comares e o Palacio de los Leones. Os sucessores da dinastia Nazari reinaram até 02 de janeiro de 1492: o dia da rendição. “Los Reyes Católicos”, Isabel I de Castilha e Fernando II de Aragón assumiram o poder, impondo a unificação da Espanha. Allambra tornou-se sede do poder aristocrático cristão. Os árabes foram mortos, expulsos ou subjugados pela conversão ao cristianismo. A Andaluzia tornou-se as terras dos reis católicos. Versículos o Alcorão Sagrado, poemas e preceitos ficaram inscritos no estuque, eternizando a rica presença dos árabes na constituição histórica da cultura Européia que colonizou as Américas.

luminosa harmonia

Transformada em Casa Real e sede da Capitania Geral do Reino de Granada, La Alhambra passou por reformas e ampliação. Capturados pela beleza harmônica entre os arabescos em estuque e os azulejos, os Reis Católicos souberam preservar a riqueza deste patrimônio árabe. Conta-se, por exemplo, que foi na Sala de los Reyes que ocorreu a rendição e que, neste mesmo lugar, Cristovão Colombo recebeu a ordem real para embarcar para a América. As paredes do Alhambra são testemunhas de verdadeiros acontecimentos.

interior do Palacio Carlos V

Em 1526, Carlos V visitou Alhambra depois de casar-se com Isabel de Portugal. Lá decidiu construir um palácio e, deste lugar, comandou toda região andaluza. O Palácio Carlos V é um exemplo singular do Renascimento Espanhol. Atualmente, o palácio abriga o Museu de Belas Artes com um acervo significativo desde o século XV ao XVIII.  No salão de exposições temporárias,  pudemos apreciar as telas de Henri Matisse após sua primeira visita ao Alhambra em 1910.

patio de arrayanes - Alhambra

A Alhambra visitada por Matisse estava se organizando para ser um pólo de atração turística. Em 1870, La Alhambra foi declarada Monumento Nacional e, em 1984, La Alhambra y El Generalife foi considerada como Patrimônio Mundial pelo Comitê de Patrimônio Mundial da UNESCO. O grande trabalho de restauração ocorreu entre 1923-1936, coordenado pelo arquiteto Leopoldo Torres Balbás. A Alhambra de Matisse estava povoada pela leitura de “Contos de Alhambra”, escritos por Washington Irving – americano que se hospedou no Palácio  em 1829 e lá encontrou inspiração para seus contos.

cartaz da exposição

Nas telas, Bodegón Sevilla I e Bodegón Sevilha II, expostas pela primeira vez, Matisse expressou o feliz encontro com Alhambra. O catálogo da exposição considerou este encontro decisivo para uma nova perspectiva que o pintor adotou em suas telas: apreciar a realidade exclusivamente no visual. Para Matisse, a cor e a forma são recursos que convocam a uma nova realidade artística mais decorativa e autônoma, cuja razão de ser não é o modelo de representação tradicional, mas sim tudo que o possa incluir, tal como um tapete oriental. De Granada o pintor partiu para o Marrocos e ficou encantando com as odaliscas: fez várias interpretações pictóricas com este tema, tendo como elemento decorativo, as parades de Alhambra.

Alcazaba

Alcazaba é a fortificação militar de Alhambra e, portanto, o primeiro a ser construída. A Torre da Vela, a Praça das Armas e a Torre das Homenagens demonstram a forma triangular da edificação árabe. Generalife, na parte mais alta da colina, foi projetado para o rei se retirar do palácio e não ser importunado. Vários jardins e um pequeno palácio com um “Mirador Romántico”: de onde se tem a mais bela vista de toda a cidade. Lugar onde o rei contemplava suas terras e súditos. Lugar do ócio e aventuras românticas.

nave central da Catedral de Granada

O início da construção, em 1523, da Catedral de Granada marca a extensão da Capela Real, edificada entre 1506-1521. A Capela abriga o cenotáfio dos Reis Católicos Fernando de Aragão e Isabel de Costela, responsáveis pela unificação dos povos da Espanha sob monarquia única, enlaçando a Espanha com Portugal, Inglaterra e Áustria, no enlace matrimonial de seu filho e suas filhas. A Rainha Isabel era devota fervorosa e promoveu uma ampla reforma na Igreja Espanhola impulsionando o processo de catequização dos povos ameríndicos das colônias conquistadas.

acervo do Museu do Prado

la virgem y las ánimas del purgatório (1517) - Pedro Machuca

Admiradora da arte pictórica flamenga, D. Isabel colecionou um tesouro artístico ímpar dos séculos XIV e XV exposto na sacristia da Capela Real. A coroa da Rainha e a Espada do Rei fazem parte do conjunto de peças de ourivesaria que compõem o acervo. Uma tela despertou em mim certo estranhamento: a Virgem Maria está amamentando o menino Jesus com o seio desnudo; o garoto interrompe o deleite, vira em torção e fixa o expectador com um olhar intrigado. Este, por sua vez, não sabe se olha o belo peito da mãe ou para o rosto inquiridor do filho que foi interrompido em seu ato. Só depois, no Museu do Prado, fiquei sabendo da devoção dos espanhóis a “Virgem de la leche”. Tema pictórico predominante no período da Contra Reforma, a imagem de Maria amamentando seu Filho tornou-se ícone simbólico do vínculo da maternagem e desse modo, o imaginário familiar cristão foi sedimentando a cultura espanhola. No Museu de Arte de São Paulo, temos uma versão do tema na tela “A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração” de Giampietrino, filho da Lombardia no início do século XVI.  

"A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração"

Indicações de vídeos:

1) visadas de Alhambra com perspectiva nos elementos árabes da arquitetura e decoração [atente para as letras árabes inscritas nas paredes e no belíssimo solo musical]:

 http://www.youtube.com/watch?v=zxMi5gh7wrc&feature=related

2) passeio pela Catedral de Granada com canto gregoriano ao fundo:

 http://www.youtube.com/watch?v=6G51nH49dUs&feature=related

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PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA IV

6ª Estação: SEVILHA – ESPANHA

Meu imaginário de Sevilha estava inundado de uma expectativa desejante. Cenário de referências estéticas determinantes, Sevilha é um porto no rio Gualdaquivir irradiando cultura por toda a península andaluza. Escolhemos um palacete restaurado como hospedaria, localizado ao lado da Catedral. Partimos do aeroporto de Lisboa e atravessamos o sul da Espanha pelas nuvens até escala de duas horas no aeroporto de Barcelona: deslumbrante! De lá, um teco-teco da Spanair nos levou a Sevilha. Mesmo lesados pelo taxista conseguimos chegar ao Hotel Petit Palace Marques de Santa Ana [recomendávell]. Impressionados pelo labiríntico das ruas, conseguimos estabelecer algumas coordenadas geográficas.

detalhe do palácio na Praça da Espanha

 Pela manhã, um passeio de coche para conhecer os principais pontos de visitação permitiu estabelecer escolhas [uma infecção de garganta limitou; um feriado inesperado, limitou mais ainda]. Sevilha estava fervilhando. As praças, as ruas sinuosas, as casas de tapas… todos os espaços estavam tomados por uma multidão de todas as idades. Nunca vi tamanha concentração de carrinhos de bebês por metro quadro. Famílias inteiras vagueavam pelos espaços, dia e noite, sem parar. Só então viemos a descobrir: estávamos numa grande festa familiar, “A Cabalgata de los Reyes Magos”. No dia 05 de Janeiro às 13h a cidade fechou suas portas para assistir a Cabalgata de Reyes Del Ateneo.

carro alegórico na Cavalgada dos Reis

O cortejo partiu da Universidad de Sevilha, situada no prédio da antiga Fabrica Real de Tabaco [cenário legendário da ópera Carmem, de Bizet]. Percorreu várias regiões históricas, atravessando a Puente de Isabel II, seguindo para Triana [localizada na outra margem do rio Galdaquivir]. Retornando pela Puente de los Remedios até finalizar na Universidade. É um grande espetáculo tradicional de união familiar: crianças enfeitadas sobre carros alegóricos atiram caramelos e guloseimas sobre o publico assistente. Bandas musicais [estilo fanfarra], formadas por escolares, animavam as caravanas que antecipavam a passagem do trono de Melchior, Baltazar e Gaspar – os Reis Magos seguidores da estrela brilhante.

fim do desfile - tapete de caramelos pisoteados

Um tapete de caramelos, pisoteados por cavaleiros e carros alegóricos fica como rastro e resto desta festa infantil. Crianças com sacolas repletas de doces que deverão ir para o lixo no dia seguinte. Aos o desfile, os núcleos familiares retornam aos seus lares para trocar presentes e saborear a “torta de los reyes”: vendida aos milhares em toda casa de doces. A epifania, festejada no suposto dia em que os Reis Magos encontraram com o menino Jesus, é um aspecto interessante para marcar a presença determinante da cultura árabe na Andaluzia. Os beduínos que desfilavam no cortejo faziam parte do esquadrão de proteção a cada um dos Reis. Seus trajes e a cor da pele demonstravam suas origens:  magos do oriente.  São eles que trouxeram os presentes para do Deus menino: incenso, ouro e mirra. Presentes que os espanhóis receberam, atualmente, naquela manhã de inverno, com manchete no maior matutino do País: “Os Reis Magos são chineses: a China anunciou que vai comprar parte da dívida interna”.  Um bom presente no momento de crise econômica!

Gualdaquivir, visto da Torre do Ouro

06 de Janeiro é feriado religioso: no dia dos Reis Magos também se comemora Nuestra Señora de los Reyes, patrona de Sevilha e da Arquidiocese. Em meio a isso tudo, conseguimos visitar apenas a Catedral, com sua magnífica torre La Giralda; a Plaza de Toros de La Real Maestranza; a Torre del Oro [que abriga o Museu Naval] e, a exuberante Plaza de España. Sevilha é um espetáculo, uma cidade monumental: seu patrimônio histórico sobreviveu icólume as guerras mundiais. Sua história remete aos Imperadores Trajano e Adriano em seus propósitos expansionistas. A cidade murada seguia o padrão das construções romanas: ruas com casas chamadas “domus”, residências de uma família. Com o controle das navegações pelo mediterrâneo, os impérios árabes-muculmanos foram se estabelecendo na Península Ibérica. Córdoba e Sevilha foram grandes centros de irradiação da cultura e comércio árabe. Artigos de luxo (tapetes, veludos, sedas, porcelanas, moveis, jóias, perfumes , etc) transportados em embarcações e caravanas partiam de Sevilha para abastecer o norte da Europa.

O rio Guadalquivir sempre foi o verdadeiro motor de Sevilha. O primitivo rio Tartessos, que os romanos chamaram Betis e os árabes wadi al-kabir (“rio grande”), de onde procede seu nome actual, nasce a 1600 metros de altura, na Serra de Cazorla, na província de Jaén, e percorre 590 km de terras andaluzas até chegar à costa atlântica. Este rio acolhe ao único porto fluvial de Espanha, situado a 80 quilómetros do Atlântico e muito próximo do Mediterrâneo, abrangendo uma superfície de três milhões de metros quadrados

Torre del Oro

A Torre del Ouro, construída no século XIII como abrigo militar de defesa é um marco para interpretar a história desta cidade medieval, edificada nas margens do  Gualdaquivir. Numa conferência em 1970, na Universidade de Keio (Japão), Michel Foucault citou o trabalho do historiador Pierre Chaunu, “Séville et Atlantique”, compêndio em 12 volumes publicados no final de 1950, para destacar a importância dos arquivos do Porto de Sevilha. Assumindo a perspectiva de uma “história serial”, Foucault afirmou: “A história não é, portanto, uma duração; é uma multiplicidade de tempos que se emaranham e se envolvem uns nos outros. É preciso, portanto, substituir a velha noção de tempo pela noção de duração múltipla (…) É preciso multiplicar os tipos de acontecimentos como se multiplica os tipos de duração. Eis a mutação que está em vias de produzir atualmente nas disciplinas da história” (in: “Retornar à História” – Coleção Ditos e Escritos II – Forense Universitária, 2000). A Torre pode considerada um exemplo disso que Foucault chamou de “duração múltipla”. Do árabe “Bury al Dahab” (Torre Dourada) em referência a sua parte superior revestida de azulejos dourados que refletiam o Sol e, desse modo, poderia ser vislumbrada a quilômetros de distância. Também designa o ouro das Américas que eram descarregado aqui.

La Giralda

La Giralda, erigida como minarete para a mesquita muçulmana, foi construída entre 1184 a 1198 por Ahmed Ben Baso [autor de outros minaretes idênticos construídos no norte da África]. O corpo da torre é de ladrilho e, desde 93 metros de altura, pode-se apreciar uma vista panorâmica de Servilha, subindo 35 rampas [não há escadaria] que foram construídas para que o almuédano, encarregado de convocar os fiéis para a oração, pudesse subir a cavalo.  Em 1558, com Sevilha dominada pelos reis católicos e com o enriquecimento impulsionado pelo ouro das Américas, as autoridades eclesiásticas decidiram edificar um novo arremate para que La Giralda simbolizasse o poder cristão. Substituiram as esferas de bronze por um novo campanário coroado por uma estátua de bronze em forma de cata-vento [“giraldilho”, de onde provém o nome da torre].

Pátio das Laranjas - Catedral de Sevilha

Nas capelas laterais encontram-se um dos maiores tesouros artísticos. Oitenta vidraças flamencas do século XVI ornamentam em reflexos multicores os objetos de decoração de cada capela. A Capela Real é dedicada em louvor e veneração a Nuestra Señora de los Reys. A Catedral abriga o mausoléu [construído em 1890] com partes do corpo de Cristovão Colombo que foi transladado de Cuba. Quatro heraldos, representando os reinos de Castilla, Léon, Aragón y Navarra, carregam nos ombros o esquife do grande herói espanhol, o descobridor da América. Há várias reproduções pictóricas de duas belas jovens virgens que foram martirizadas no século III pelo prefeito romano de Sevilha por terem se recusado a participar das celebrações à deusa Vênus. As jovens irmãs, Justa e Rufina, foram santificadas e veneradas como padroeiras da cidade. Nas telas são sempre representadas juntas com traços de rara beleza. Santa Justa e Santa Rufina são aclamadas patronas dos ceramistas e sempre estão com peças de barro produzidas por seu pai e que elas vendiam nas feiras.

Sta Justa e Sta Rufina (1666) - óleo sobre tela de Bartolomé Murilo

esquife de Cristovão Colombo na Catedral

A Plaza de Toros de La Real Maestranza é o cenário recorrente no imaginário sobre Sevilha. Os torneios ocorrem no início do verão e continuam com a tradição – apesar dos politicamente corretos da atualidade. A arena com arcos abriga até 14 mil espectadores iniciou sua construção em 1761. Antes do século XIX, não havia a figura do toureiro, o matador. Aos poucos o cavaleiro dispensou seu instrumento e resolveu enfrentar o touro com seu balé de sedução. Os ornamentos na vestimenta, a capa e espada servirão ao matador para exercitar sua arte: a touromaquia. Enquanto ouvia as explicações da simpática guia de visitação, lembrava das cenas da ópera Carmem, a cigana sedutora. De igual modo, a cena do livro A História do Olho, de Georges Bataille, ressurgiu com intensidade diante da arena: “Granero distinguia-se de outros matadores pelo fato de não ter, de forma alguma, a aparência de um carniceiro, mas antes a de um príncipe encantado, muito viril, perfeitamente esbelto (…) A capa de um vermelho vivo, a espada brilhando ao sol, diante do touro agonizante cujo pêlo continua fumegando, deixando escorrer sangue e suor, completam a metaformose e realçam o aspecto fascinante do jogo.” (Cosac & Naify, 2003).

vista aérea da Plaza de Toros

fragmento da arena de toros

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA III

Ainda em Lisboa… dois passeios

1º) Religioso: visitar a Basílica de Nossa Senhora de Fátima. Na estação de autocarro (ônibus) do metro Jardim Zoológico seguir para o município de Fátima. A rodovia moderna vai margeando uma encosta pedregosa com pinheiros e castanheiros resistentes. O vilarejo – hoje cidade – se criou no entorno da Capelinha das Aparições. Na Cova da Iria, na região de Ourém, nos dias 13 dos meses de maio, junho, julho, setembro e outubro de 1917, três crianças, pastores de ovelhas, viram e ouviram a mãe de Jesus. Dois anos depois faleceu uma delas: Francisco Marto. No mesmo ano, iniciam a construção da Capelinha. Na ano seguinte, faleceu a segunda criança: Jacinta Marto, num Hospital de Lisboa [o corpo dos irmãos Marto estão sepultados na Basílica].

Em 1930 através da Carta Pastoral “A Divina Providência”, o Bispo de Leiria declara “dignas de crédito as visões das crianças na Cova da Iria” e permite oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima. Em 1942, o Papa Pio XII, falando em português pela rádio, consagra o Mundo ao Imaculado Coração de Maria, com menção velada a Rússia, segundo o pedido de Nossa Senhora: rezar o terço para nos proteger do comunismo, representado como ateímo materialista. No mesmo ano, o movimento feminino portugues ofereceu à imagem de N. Sra. de Fátima, uma coroa de ouro e pedras preciosas, confeccionada com jóias arrecadadas  numa campanha nacional em ação de graças por Portugal não ter entrado na 2ª Guerra Mundial. Atualmente, a coroa tem incrustada a bala que atingiu o Papa João Paulo II. O Pontífice ofereceu a bala que lhe trespassou o corpo no atentado de que foi vítima em Roma, a 13 de Maio de 1981, em sinal de agradecimento à Virgem, por lhe ter salvo a vida (in: http://www.santuario-fatima.pt/portal/). Sr. Norberto, garçon no Hotel Príncipe [onde ficamos hospedados] quando soube de nosso passeio por Fátima, contou-me – com um tom de raíva – o fato de sua sogra, camponesa portuguesa, ter doado todas as joias de herança familiar na campanha para ourivesaria da clássica coroa da santa.

O Santuário de Fátima é um centro de peregrinação composto pela Capelinha das Aparições, local onde as crianças disseram que viram, e ouviram, a imagem e a mensagem de Maria, a mãe do filho de Deus;  a Basílica,  construída no período de extensão devocional; e um novo templo, a Igreja da Santíssima Trindade, com arquitetura moderna, de grande proporções, para abrigar os fiéis em períodos de festas religiosas. Um comércio local, bem organizado, oferece pratos da cozinha típica e objetos ligados ao culto e devoção.

Uma curiosidade: no Alcorão Sagrado, a palavra Al Fátiha significa “A Abertura”. É a primeira palavra a anunciar a 1ª Surata, revelada em Makka, composta de 7 versículos que sintetizam os seguidores de Allah, o Clemente, o Misericordioso (vide a tradução do Alcorão publicada na Coleção Folha – Livros que mudaram o mundo, volume 19, 2010). Outra interpretação posssível: Al Fátiha designa também A Mulher, aquela que contém uma abertura por onde a vida renasce. Também abertura é a Cova da Iria, lugar onde as crianças pastores viram e ouviram a Virgem de Nazaré.

por do sol no pátio da Basílica

Reproduzo nota de atualidade:  (in: http://www.cm-leiria.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=27511)

“A Câmara Municipal de Leiria associa-se ao “Dia de Luto Municipal”, através do hastear da bandeira municipal a meia adriça, pela catástrofe que fustigou o Brasil, na sequência de uma proposta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses – ANMP. Este acto simbólico constitui a manifestação do poder local português, em respeito e solidariedade pela tragédia que se abateu sobre o povo e as instituições brasileiras, sobretudo a todos os que mais afectados foram, na região serrana do Rio de Janeiro. De acordo com a circular da ANMP, “apesar de fisicamente distantes, confirmamos, assim, uma presença solidária, activa, representada no luto municipal que iremos respeitar no Portugal inteiro.  Leiria, 21 de Janeiro de 2011”

2º) Profano:  ouvir fado numa taberna no bairro Alfama. Locallizado no cais do Tejo, Alfama é uma das marcas mais significativas da presença dos árabes em solo português. O seu nome deriva do árabe “al-hamma” que significa banhos ou fontes. Lugar de refúgio dos marginalia e marinheiros, o bairro mais antigo de Lisboa passou por um processo de resgate e hoje é um dos lugares mais animados das noites lisboetas. Há dois passeios: o diurno e o noturno. O diurno permite perder-se nas ruas estreitas a formar um labirinto multicolorido em fachadas de azulejos a subir nas encostas do morro. Vasos floridos e roupas estendidas nas janelas anunciam as vidas que habitam este cenário onírico. O passeio noturno deve restringir-se à área onde se localizam as tabernas com shows de fado. Como os espaços são muito pequenos é preciso reservar lugar. Cuide-se para não cair nas ciladas a capturar euros de turistas desavisados: prometem um show e querem vender um jantar caro e com a rapidez de um rodízio.

O fado é a alma portuguesa: melancólico até a medula! Ao mesmo tempo, sutil em sua alegria descuidada. A guitarra portuguesa dialoga [ia dizer acasala] com a voz feminina. Ouvimos uma exuberante negra das colônias portuguesa na África cantando clássicos do fado. Sua voz, harmonicamente sintonizada com as guitarras, levou-me a pensar no caráter intraduzível da palavra saudade. O fado é o canto da saudade: o amor que fica.

fado na Taberna del Rey - Alfama

Assistam o belo vídeo no link abaixo com voz da imortal Amália Rodrigues cantando “Lisboa Antiga”: 

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA II

2ª Estação: COVILHÃ

Na estação de comboios Santa Apolônia, no bairro de Alfama em Lisboa, seguir os trilhos que conduzem à Serra da Estrela. Margeando o Tejo, o comboio vai cortando plantações displicentes de oliva. A oliveira e a videira são simbólos determinantes na cultura portuguesa e espanhola. Antes da chegada do  inverno as olivas devem ser colhidas e seus galhos maiores devem ser podados. No inverno sul, o único verde predominante são os novos galhos das oliveiras. Alguns pinheiros e castanheiras resistentes colorem também o azul cinzendo dos dias chuvosos.

Estação Sta Apolônia

Covilhã foi escolhida para um Natal com neve. Fundada no século XII, a cidade vertente a 800 metros de altitude no sudoeste da Serra da Estrela foi capital do Reino de Portugal. D.João I conferiu o título de Senhor da Covilhã ao princípe herdeiro, o Infante D.Henrique. Atualmente há mais de 6 mil estudantes na  Universidade da Beira Interior que a cidade abriga. A vida estudantil dá vivacidade a esta cidade em declive. No período do Natal, com o recesso escolar, a cidade parece um fantasma numa encosta da serra. Esperamos a chuva de neve na praça central: não foi desta vez! Para brincar na neve é preciso subir de taxi até o cimo da Serra com 1993 metros de altitude. Lá no alto, D.João IV mandou construir em 1817, uma Torre com 7 metros para alcançar os 2 mil e ser, assim, o ponto mais alto de Portugal. Percorrermos 20 km de encostas e, aos poucos, o branco da neve vai cobrindo a paisagem até dominá-la totalmente – formando um monte de gelo com temperaturas de -10º. Criar um boneco de neve é o primeiro ato para o batismo no branco indecifrável. Uma hora de brincadeiras e o incômodo do frio começa a expulsar em busca de ambiente quente com vinho e chocolate. As vinículas da Serra da Estrela são excelentes. O queijo de ovelha, o presunto serrano e as saborosas azeitonas in natura são aperitivos inesquecíveis.

N.Sra.das Neves, esculpida no caminho da Torre

Com a cidade fechada no Natal e sem ter o que fazer, decidimos visitar duas vilas próximas: Sortelha e Belmonte. Guiados pelo patrício Antonio, um simpático e falante taxista portugues, passeamos pelas ruelas Sortelha: uma aldeia medieval toda cercada por alta muralha de pedras. O castelo Fortaleza tem o formato de um anel, donde derivada do latim sortilha. Nas casas de pedras construídas em declive encontrei uma senhora de 86 anos toda vestida de preto – em estado de luto permanente. Nascida nesta vila de pedra, Dª Filomena lá espera a morte chegar. Resignada a viver no casebre na crosta da muralha, ela tece fios de capim formando cestinhas que são oferecidas aos turistas. Reza seu rosário de lamentações e súplicas à Virgem das Neves: um dos múltiplos nomes de Maria, a mãe de Jesus. A pequena capela dedicada à Virgem das Neves é o único trajeto dessa portuguesa resistente.

Torre do Castelo Sortilha

 Belmonte foi a segunda paragem do passeio: uma aldeia medieval berço de Pedro Álvarez de Cabral. Na casa em que  nosso descobridor nasceu, há uma escultura e museu para rememorar os filhos de Belmonte que foram recrutados pelo Infante D.Henrique para trabalharem na Escola de Sagres e iniciarem o período das grandes navegações. Foram os filhos de Belmonte que realizaram a passagem do Cabo Bojador, em 1434, marcando o início do reconhecimento da costa ocidental da África.

estátuta de Cabral em Belmonte

3ª Estação: PORTO

Desde a estação de autocarro de Covilhã seguimos pela rodovia que contorna a Serra da Estrela em direção ao Porto.  Associado ao típico vinho produzido nas margens do rio Douro, Porto é uma cidade perdida num tempo pretérito. A parte antiga da cidade demonstra sua importância histórica na consolidação da monarquia portuguesa. Com edifícios de estilos diferenciados, a cidade resplandece no românico da Catedral da Sé, no gótico da Igreja de São Francisco, no renascentismo da Igreja da Misericórdia e no neoclássico do Palácio da Bolsa. As casas sobrados, coladas uma nas outras, decoradas com fachadas de azulejo, portam as marcas de um tempo longínquo. O estado de abandono dos imóveis centrais transparece na quatidade de placas anunciando a venda ou locação. Perguntei ao taxista [em geral gentil e gostam de conversar com brasileiros] sobre o estado de abandono da cidade. Ele foi básico, como bom portugues: “nos últimos anos a população foi reduzida em 50%”. Isso era visível!

centro do Porto

Ir ao Porto é atrevessar a pé a ponte Luis I, projetada pela equipe de Gustav  Eiffel no século XIX, para um passeio pela orla D’ouro em Vila Nova de Gaia. Do outro lado do rio, visitar uma das casas produtoras do vinho do porto e conhecer o processo de produção e comercialização do símbolo máximo da cidade: o vinho. Toneis de carvalho françês abrigam o sumo das uvas produzidas no Vale do Douro. Um tipo espécifico de solo é a situação ideal para criar videiras produtoras do néctar de Dionísio. Após o saber, o sabor: provar os diferentes tipos de vinho do porto. O sol vai deitando-se sobre as águas do caudaloso rio e, num passe de mágica, as casas do cais do Porto vão refltindo nas águas diferentes tonalidades. Parecia um quadro impressionista na fugacidade da luz.

Douro visto da Torre dos Clérigos

4ª Estação: COIMBRA

Da bela estação de comboios de São Bento [decorada com 20 mil azulejos formando painéis figurativos que narram a consolidação da monarquia portuguesa pela submissão dos Mouros] partimos para o acadêmico ambiente de Coimbra. A cidade e o turismo órbitam a Universidade. No século XVI, D.João III decidiu transferir a sede da Universidade de Lisboa para Coimbra. Banhada pelo Rio Mondego, o burgo que se construiu ao redor do castelo é um cenário encantador: um labirinto gostoso para andar sem rumo e nem direção. Parar numa lojinha aqui, numa florista alí, acolá uma quitanda. Na hora da fome, um saboroso “bacalhau lagareiro” acompanhado por uma jarra de vinho da casa. Bem alimentado, subir as encostas do morro que levam ao campus da Universidade.

por do sol na Sé Velha

Atravessando o Arco de Almedina chega-se à Sé Velha, um templo construido entre 1162 e 1184, marca do estilo românico. Pelo caminho encontrará a escultura da Triana, a musa inspiradora dos poetas e músicos. Aos  pés da Triana, os estudantes depositam suas esperanças de uma carreira promissora. Uma das experiências estéticas mais marcante foi a visita à luxuriosa Biblioteca Joanina. Revestida de ouro, suas paredes abrigam mais de 200 mil exemplares de livros, em sua maioria em primeira edição. A arca do tesouro está guardada na Biblioteca Joanina.

Conhecida como Casa da Livraria, recebeu os primeiros exemplares em 1750. A construção do edifício no início do século XVIII foi projetada para ser a casa de livros. As paredes possuem 2 metros e 11 centímetros de espessura. A porta deste cofre é feita em madeira de teca, o que permite uma temperatura constante de 18º a 20º C. As estantes são feitas de madeira de carvalho dificultando a penetração de cupins e traças. Além disso tudo, os livros contam com a proteção de um esquadrão de morceguinhos que devoram todo e qualquer tipo de inseto, realizando assim um controle biológico a proteger os preciosos exemplares da coleção que data dos séculos XVI a XVIII – representando assim a história do livro na Europa. Um exemplar exposto é o original estatuto da Universidade de Coimbra, redigido pelo Marquês de Pombal. Para brindar, um trio de jovens alunos do curso de música, apresentavam sonatas e canções no coração da Biblioteca. Sentei-me ao chão, sonhando com a possiblidade de manusear as raridades que aquele brilhante teto abriga.

anoitecer no Largo da Portagem - Coimbra

5ª Estação: LISBOA

Retorno a Lisboa com o trêm de alta velocidade. Com tempo maior  para passeios, defimos prioridades. O que visitar e quando? Começamos pelos mais tradicionais: Mosteiro dos Jerônimos, o jardim em frente com o magnífico momumento Padrão do Descobrimento, inaugurado em 1960 para as celebrações do 5º centenário de morte do Infante D. Henrique, o grande idealizador das navegações portuguesas. Na proa de uma grande caravela, a estátua do Infante é ladeada por figuras da familia real, freis dominicano e franciscano, escritores e navegadores responsáveis pela cronologia dos descobrimentos portugueses, desde 1427 a 1525. Mais adiante, a Torre de Belém, a ultima visão que os navegadores tinham de Portugal quando partiam pelo Atlântico. Na Torre há uma capela onde os desbravadores do além mar buscavam a proteção de N.Sra. da Boa Viagem. Para terminar o passeio por essas bandas, um café com pastel de Belém na fabrica onde é produzido esta iguaria luzitana. Peça logo uns 3 para sentir essa delícia dos céus.

mosteiro visto do padrão dos descobrimentos

A Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional ficam no campus da Cidade Universitária  e são atrações para os que gostam de livros. Exposições temporárias e temáticas são um atrativo interessante para conhecer a cultura portuguesa. Encontramos uma que rememora o centenário da fundação da República em Portugal. Com o título “Res/publica: cidadania e representação política em Portugal”, a Bilioteca Nacional mostrou exemplares da Constituição Politica e a reprodução deste período na imprensa. Fotos, noticias de jornais e charges bem humorada contavam a histótia do processo de escolha do governo pelo processo eleitoral.

O tema da exposição era um bom exemplo para ler a situação política portuguesa na atualidade. Vivendo uma crise econômica, os lisboetas criticam a adesão de Portugal à Comunidade Européia. No processo de escolha presidencial neste janeiro de 2011, os portugueses estavam espantados com o nível da campanha presidencial. O debate girava em torno do pedido de socorro ao FMI para ajudar a equilibrar as contas públicas. A dívida interna chegou em níveis de falência do Estado. O noticiário dizia que Portugal era a bola da vez na crise que esta a consumir a economia do Euro.

Torre de Belém numa tarde chuvosa

O Museu Nacional dos Azulejos é parada obrigatória para um turista. Criado em 1980 no Convento da Madre de Deus – fundado em 1509 pela rainha D. Leonor como abrigo para as discípulas de Santa Clara. As monjas clarissas viviam num claustro maneirista do século XVI com uma imponente capela que sintetiza em sua decoração, o azulejo até o meio das paredes e a parte superior com representações pictóricas esplendorosas. A capela de Santo Antonio, com rica decoração barroca setecentista é uma alucinação visual. Nas paredes um emaranhado formando relicários com pedaços de ossos e outros objetos pessoais.

 A coleção abarca a produção azulejar desde a 2ª metade do século XV até a contemporaneidade. Marca indeléval da presença dos mouros na Península Ibérica, os azulejos chegaram a Portugal no século XV proveninetes de Sevilha e Valência. O azulejo com a esfera amilar, emblema de D.Manuel I, foi um marco da importância dos azulejos na decoração dos palácios dos reis e fachadas urbanas. O painel “Nossa Senhora da Vida ” de 1580 demonstra a policromia que o azulejo permite. No século XVIII , por influencia holandesa, o azul predomina nas representaçõs iconográficas da vida dos nobres em caçadas, danças, vasos de flores. Também encontra-se cenas de batalhas marítimas e campestres realizadas no reinado de D.João V. No restaurante do museu foram reaplicados azulejos de uma cozinha do século XIX para demonstrar a função do azulejo como valorização dos espaços cotidianos.

Atena azulejada

Outro passeio encantador parte do Terreiro do Paço, lugar onde o comércio marítimo portugues acontecia. As caravelas aportavam no Terreiro com as mercadorias oriundas do Brasil, das colônias na Africa e dos mercadores na Índia. Passando o Portal, seguir pela Rua Augusta em direção ao Chiado. No caminho, numa marisqueira disponível, apreciar o sabor da Sapateira – uma espécie de caranguejo gigante. Da Baixa, subir pelo elevador até o Chiado e de lá contemplar a cidade baixa com sua história em cada fachada. O bairro Chiado é um centro de atração social frequentado por artistas e escritores.  O bairro leva o nome de um poeta português do século XVI. No largo encontra-se o café “A Braileira” frequentado pelo poeta Fernando Pessoa. Dizem que foi nas mesas deste café que o poeta escreveu grande parte de sua obra. Ao lado se encontra a Basílica dos Mártires, edificada em 1147 logo após D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, ter conquistado Lisboa  expulsando os mouros. O templo foi dedicado a N.Sra dos Mártires em memória dos soldados que morreram em combate. Com o terremoto de 1755, o templo foi totalmente destruido. Reerguida em 1784, a obra atual contou com o trabalhos de artífices e pintores escolhidos diretamente pelo Marquês de Pombal, utilizando os melhores materiais disponíveis na época: pedra, mármores, madeiras e ferragens.

uma rua no Chiado

A modernidade urbanística de Lisboa pode ser vista no bairro Oriente. O Parque das Nações reurbanizou a margem do Tejo para a Expo 98 com construções planejadas contando com um conjunto de edificios de arquitetura arrojada, um Ocenário de grandes proporções [com mais de 15 mil espécies dos cinco oceanos e o maior da Europa] e um shopping center abarrotado, o Centro Comercial Vasco da Gama. No shopping pode-se saborear um delicioso “Bacalhau ao Murro” no Restaurante Portugália com  bonita vista do parque. Em contraste, um passeio no Castelo São Jorge para ver as ruínas da presença dos mouros em solo português.

Castelo São Jorge

cores do inverno no Parque das Nações