Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA II

2ª Estação: COVILHÃ

Na estação de comboios Santa Apolônia, no bairro de Alfama em Lisboa, seguir os trilhos que conduzem à Serra da Estrela. Margeando o Tejo, o comboio vai cortando plantações displicentes de oliva. A oliveira e a videira são simbólos determinantes na cultura portuguesa e espanhola. Antes da chegada do  inverno as olivas devem ser colhidas e seus galhos maiores devem ser podados. No inverno sul, o único verde predominante são os novos galhos das oliveiras. Alguns pinheiros e castanheiras resistentes colorem também o azul cinzendo dos dias chuvosos.

Estação Sta Apolônia

Covilhã foi escolhida para um Natal com neve. Fundada no século XII, a cidade vertente a 800 metros de altitude no sudoeste da Serra da Estrela foi capital do Reino de Portugal. D.João I conferiu o título de Senhor da Covilhã ao princípe herdeiro, o Infante D.Henrique. Atualmente há mais de 6 mil estudantes na  Universidade da Beira Interior que a cidade abriga. A vida estudantil dá vivacidade a esta cidade em declive. No período do Natal, com o recesso escolar, a cidade parece um fantasma numa encosta da serra. Esperamos a chuva de neve na praça central: não foi desta vez! Para brincar na neve é preciso subir de taxi até o cimo da Serra com 1993 metros de altitude. Lá no alto, D.João IV mandou construir em 1817, uma Torre com 7 metros para alcançar os 2 mil e ser, assim, o ponto mais alto de Portugal. Percorrermos 20 km de encostas e, aos poucos, o branco da neve vai cobrindo a paisagem até dominá-la totalmente – formando um monte de gelo com temperaturas de -10º. Criar um boneco de neve é o primeiro ato para o batismo no branco indecifrável. Uma hora de brincadeiras e o incômodo do frio começa a expulsar em busca de ambiente quente com vinho e chocolate. As vinículas da Serra da Estrela são excelentes. O queijo de ovelha, o presunto serrano e as saborosas azeitonas in natura são aperitivos inesquecíveis.

N.Sra.das Neves, esculpida no caminho da Torre

Com a cidade fechada no Natal e sem ter o que fazer, decidimos visitar duas vilas próximas: Sortelha e Belmonte. Guiados pelo patrício Antonio, um simpático e falante taxista portugues, passeamos pelas ruelas Sortelha: uma aldeia medieval toda cercada por alta muralha de pedras. O castelo Fortaleza tem o formato de um anel, donde derivada do latim sortilha. Nas casas de pedras construídas em declive encontrei uma senhora de 86 anos toda vestida de preto – em estado de luto permanente. Nascida nesta vila de pedra, Dª Filomena lá espera a morte chegar. Resignada a viver no casebre na crosta da muralha, ela tece fios de capim formando cestinhas que são oferecidas aos turistas. Reza seu rosário de lamentações e súplicas à Virgem das Neves: um dos múltiplos nomes de Maria, a mãe de Jesus. A pequena capela dedicada à Virgem das Neves é o único trajeto dessa portuguesa resistente.

Torre do Castelo Sortilha

 Belmonte foi a segunda paragem do passeio: uma aldeia medieval berço de Pedro Álvarez de Cabral. Na casa em que  nosso descobridor nasceu, há uma escultura e museu para rememorar os filhos de Belmonte que foram recrutados pelo Infante D.Henrique para trabalharem na Escola de Sagres e iniciarem o período das grandes navegações. Foram os filhos de Belmonte que realizaram a passagem do Cabo Bojador, em 1434, marcando o início do reconhecimento da costa ocidental da África.

estátuta de Cabral em Belmonte

3ª Estação: PORTO

Desde a estação de autocarro de Covilhã seguimos pela rodovia que contorna a Serra da Estrela em direção ao Porto.  Associado ao típico vinho produzido nas margens do rio Douro, Porto é uma cidade perdida num tempo pretérito. A parte antiga da cidade demonstra sua importância histórica na consolidação da monarquia portuguesa. Com edifícios de estilos diferenciados, a cidade resplandece no românico da Catedral da Sé, no gótico da Igreja de São Francisco, no renascentismo da Igreja da Misericórdia e no neoclássico do Palácio da Bolsa. As casas sobrados, coladas uma nas outras, decoradas com fachadas de azulejo, portam as marcas de um tempo longínquo. O estado de abandono dos imóveis centrais transparece na quatidade de placas anunciando a venda ou locação. Perguntei ao taxista [em geral gentil e gostam de conversar com brasileiros] sobre o estado de abandono da cidade. Ele foi básico, como bom portugues: “nos últimos anos a população foi reduzida em 50%”. Isso era visível!

centro do Porto

Ir ao Porto é atrevessar a pé a ponte Luis I, projetada pela equipe de Gustav  Eiffel no século XIX, para um passeio pela orla D’ouro em Vila Nova de Gaia. Do outro lado do rio, visitar uma das casas produtoras do vinho do porto e conhecer o processo de produção e comercialização do símbolo máximo da cidade: o vinho. Toneis de carvalho françês abrigam o sumo das uvas produzidas no Vale do Douro. Um tipo espécifico de solo é a situação ideal para criar videiras produtoras do néctar de Dionísio. Após o saber, o sabor: provar os diferentes tipos de vinho do porto. O sol vai deitando-se sobre as águas do caudaloso rio e, num passe de mágica, as casas do cais do Porto vão refltindo nas águas diferentes tonalidades. Parecia um quadro impressionista na fugacidade da luz.

Douro visto da Torre dos Clérigos

4ª Estação: COIMBRA

Da bela estação de comboios de São Bento [decorada com 20 mil azulejos formando painéis figurativos que narram a consolidação da monarquia portuguesa pela submissão dos Mouros] partimos para o acadêmico ambiente de Coimbra. A cidade e o turismo órbitam a Universidade. No século XVI, D.João III decidiu transferir a sede da Universidade de Lisboa para Coimbra. Banhada pelo Rio Mondego, o burgo que se construiu ao redor do castelo é um cenário encantador: um labirinto gostoso para andar sem rumo e nem direção. Parar numa lojinha aqui, numa florista alí, acolá uma quitanda. Na hora da fome, um saboroso “bacalhau lagareiro” acompanhado por uma jarra de vinho da casa. Bem alimentado, subir as encostas do morro que levam ao campus da Universidade.

por do sol na Sé Velha

Atravessando o Arco de Almedina chega-se à Sé Velha, um templo construido entre 1162 e 1184, marca do estilo românico. Pelo caminho encontrará a escultura da Triana, a musa inspiradora dos poetas e músicos. Aos  pés da Triana, os estudantes depositam suas esperanças de uma carreira promissora. Uma das experiências estéticas mais marcante foi a visita à luxuriosa Biblioteca Joanina. Revestida de ouro, suas paredes abrigam mais de 200 mil exemplares de livros, em sua maioria em primeira edição. A arca do tesouro está guardada na Biblioteca Joanina.

Conhecida como Casa da Livraria, recebeu os primeiros exemplares em 1750. A construção do edifício no início do século XVIII foi projetada para ser a casa de livros. As paredes possuem 2 metros e 11 centímetros de espessura. A porta deste cofre é feita em madeira de teca, o que permite uma temperatura constante de 18º a 20º C. As estantes são feitas de madeira de carvalho dificultando a penetração de cupins e traças. Além disso tudo, os livros contam com a proteção de um esquadrão de morceguinhos que devoram todo e qualquer tipo de inseto, realizando assim um controle biológico a proteger os preciosos exemplares da coleção que data dos séculos XVI a XVIII – representando assim a história do livro na Europa. Um exemplar exposto é o original estatuto da Universidade de Coimbra, redigido pelo Marquês de Pombal. Para brindar, um trio de jovens alunos do curso de música, apresentavam sonatas e canções no coração da Biblioteca. Sentei-me ao chão, sonhando com a possiblidade de manusear as raridades que aquele brilhante teto abriga.

anoitecer no Largo da Portagem - Coimbra

5ª Estação: LISBOA

Retorno a Lisboa com o trêm de alta velocidade. Com tempo maior  para passeios, defimos prioridades. O que visitar e quando? Começamos pelos mais tradicionais: Mosteiro dos Jerônimos, o jardim em frente com o magnífico momumento Padrão do Descobrimento, inaugurado em 1960 para as celebrações do 5º centenário de morte do Infante D. Henrique, o grande idealizador das navegações portuguesas. Na proa de uma grande caravela, a estátua do Infante é ladeada por figuras da familia real, freis dominicano e franciscano, escritores e navegadores responsáveis pela cronologia dos descobrimentos portugueses, desde 1427 a 1525. Mais adiante, a Torre de Belém, a ultima visão que os navegadores tinham de Portugal quando partiam pelo Atlântico. Na Torre há uma capela onde os desbravadores do além mar buscavam a proteção de N.Sra. da Boa Viagem. Para terminar o passeio por essas bandas, um café com pastel de Belém na fabrica onde é produzido esta iguaria luzitana. Peça logo uns 3 para sentir essa delícia dos céus.

mosteiro visto do padrão dos descobrimentos

A Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional ficam no campus da Cidade Universitária  e são atrações para os que gostam de livros. Exposições temporárias e temáticas são um atrativo interessante para conhecer a cultura portuguesa. Encontramos uma que rememora o centenário da fundação da República em Portugal. Com o título “Res/publica: cidadania e representação política em Portugal”, a Bilioteca Nacional mostrou exemplares da Constituição Politica e a reprodução deste período na imprensa. Fotos, noticias de jornais e charges bem humorada contavam a histótia do processo de escolha do governo pelo processo eleitoral.

O tema da exposição era um bom exemplo para ler a situação política portuguesa na atualidade. Vivendo uma crise econômica, os lisboetas criticam a adesão de Portugal à Comunidade Européia. No processo de escolha presidencial neste janeiro de 2011, os portugueses estavam espantados com o nível da campanha presidencial. O debate girava em torno do pedido de socorro ao FMI para ajudar a equilibrar as contas públicas. A dívida interna chegou em níveis de falência do Estado. O noticiário dizia que Portugal era a bola da vez na crise que esta a consumir a economia do Euro.

Torre de Belém numa tarde chuvosa

O Museu Nacional dos Azulejos é parada obrigatória para um turista. Criado em 1980 no Convento da Madre de Deus – fundado em 1509 pela rainha D. Leonor como abrigo para as discípulas de Santa Clara. As monjas clarissas viviam num claustro maneirista do século XVI com uma imponente capela que sintetiza em sua decoração, o azulejo até o meio das paredes e a parte superior com representações pictóricas esplendorosas. A capela de Santo Antonio, com rica decoração barroca setecentista é uma alucinação visual. Nas paredes um emaranhado formando relicários com pedaços de ossos e outros objetos pessoais.

 A coleção abarca a produção azulejar desde a 2ª metade do século XV até a contemporaneidade. Marca indeléval da presença dos mouros na Península Ibérica, os azulejos chegaram a Portugal no século XV proveninetes de Sevilha e Valência. O azulejo com a esfera amilar, emblema de D.Manuel I, foi um marco da importância dos azulejos na decoração dos palácios dos reis e fachadas urbanas. O painel “Nossa Senhora da Vida ” de 1580 demonstra a policromia que o azulejo permite. No século XVIII , por influencia holandesa, o azul predomina nas representaçõs iconográficas da vida dos nobres em caçadas, danças, vasos de flores. Também encontra-se cenas de batalhas marítimas e campestres realizadas no reinado de D.João V. No restaurante do museu foram reaplicados azulejos de uma cozinha do século XIX para demonstrar a função do azulejo como valorização dos espaços cotidianos.

Atena azulejada

Outro passeio encantador parte do Terreiro do Paço, lugar onde o comércio marítimo portugues acontecia. As caravelas aportavam no Terreiro com as mercadorias oriundas do Brasil, das colônias na Africa e dos mercadores na Índia. Passando o Portal, seguir pela Rua Augusta em direção ao Chiado. No caminho, numa marisqueira disponível, apreciar o sabor da Sapateira – uma espécie de caranguejo gigante. Da Baixa, subir pelo elevador até o Chiado e de lá contemplar a cidade baixa com sua história em cada fachada. O bairro Chiado é um centro de atração social frequentado por artistas e escritores.  O bairro leva o nome de um poeta português do século XVI. No largo encontra-se o café “A Braileira” frequentado pelo poeta Fernando Pessoa. Dizem que foi nas mesas deste café que o poeta escreveu grande parte de sua obra. Ao lado se encontra a Basílica dos Mártires, edificada em 1147 logo após D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, ter conquistado Lisboa  expulsando os mouros. O templo foi dedicado a N.Sra dos Mártires em memória dos soldados que morreram em combate. Com o terremoto de 1755, o templo foi totalmente destruido. Reerguida em 1784, a obra atual contou com o trabalhos de artífices e pintores escolhidos diretamente pelo Marquês de Pombal, utilizando os melhores materiais disponíveis na época: pedra, mármores, madeiras e ferragens.

uma rua no Chiado

A modernidade urbanística de Lisboa pode ser vista no bairro Oriente. O Parque das Nações reurbanizou a margem do Tejo para a Expo 98 com construções planejadas contando com um conjunto de edificios de arquitetura arrojada, um Ocenário de grandes proporções [com mais de 15 mil espécies dos cinco oceanos e o maior da Europa] e um shopping center abarrotado, o Centro Comercial Vasco da Gama. No shopping pode-se saborear um delicioso “Bacalhau ao Murro” no Restaurante Portugália com  bonita vista do parque. Em contraste, um passeio no Castelo São Jorge para ver as ruínas da presença dos mouros em solo português.

Castelo São Jorge

cores do inverno no Parque das Nações

2 Comentários»

  Carminha wrote @

Saberoso/saboroso relato de viagem! É um prazer passar pelas palavras e sentir o seu entusiasmo pelo contato com nossas origens.
E o que você achou do português de Portugal???

  marciomariguela wrote @

Carminha,

onde mais estranhamento encontrei na lingua foi nos cardápios, que eles chamam de carta. Estar na mesma lingua em linguas diferentes: a unidade da lingua é convencional e arbitrária. O limite de minha linguagem denotam o limite do meu mundo – bem disse Wittgenstein. Adorei a sonoridade dos protugueses: é melancólico até a medula. O fado, com sua viola específica, demonstra isso na perfeição. abçs


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: