Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Passeio pela Península Ibérica V

7ª Estação: GRANADA – ESPANHA

Partimos de Sevilha pela bela Estação Santa Justa, conduzidos por um agradável taxista espanhol [coisa rara!] que dizia de seu desejo: conhecer o Brasil de verdade e “não aqueles pacotes de Resort que as agencias daqui oferecem”.  O veloz, moderno e bem confortável, trem foi cortando o sul da Espanha em meio a plantações disciplinadas de oliveiras. Num percurso de 3 horas até Granada, a verde oliva predominava em relevos totalmente cultiváveis. Ainda era possível ver os últimos momentos da colheita: os azeites da Andaluzia são muito apreciados.

caquis nos jardins de Alhambra

 Chegamos a Granada no meio do feriado “de los reyes” com um único propósito: visitar o Palácio Alhambra e a Catedral com seu entorno que eram moradias e comércio árabe. Nesta cidade pode-se ter a exata proporção da presença da realeza. La Alhambra: um palácio mágico, sublime e encantador. Por razões de preservação do patrimônio, há limite de vagas para a visitação. Compre seu bilhete com antecedência (http://alhambra-patronato.es), assegurando assim sua viagem pelo túnel do tempo preservado na inscrição de letras árabes.

arabescos no Alhambra

No século VIII o Mar Mediterrâneo estava sob controle dos árabes muçulmanos. Dominando todo o norte da África, atravessaram o estreito de Gibraltar e conquistaram os principais rios no sul da Europa. Em 1238, Muhammad I. Al-Ahmar, fundador da dinastia Nazari, instalou sua corte na “Colina de la Sabika”, iniciando a edificação dos palácios que compõem  La Alhambra: O Palacio del Mexuar, o Palacio de Comares e o Palacio de los Leones. Os sucessores da dinastia Nazari reinaram até 02 de janeiro de 1492: o dia da rendição. “Los Reyes Católicos”, Isabel I de Castilha e Fernando II de Aragón assumiram o poder, impondo a unificação da Espanha. Allambra tornou-se sede do poder aristocrático cristão. Os árabes foram mortos, expulsos ou subjugados pela conversão ao cristianismo. A Andaluzia tornou-se as terras dos reis católicos. Versículos o Alcorão Sagrado, poemas e preceitos ficaram inscritos no estuque, eternizando a rica presença dos árabes na constituição histórica da cultura Européia que colonizou as Américas.

luminosa harmonia

Transformada em Casa Real e sede da Capitania Geral do Reino de Granada, La Alhambra passou por reformas e ampliação. Capturados pela beleza harmônica entre os arabescos em estuque e os azulejos, os Reis Católicos souberam preservar a riqueza deste patrimônio árabe. Conta-se, por exemplo, que foi na Sala de los Reyes que ocorreu a rendição e que, neste mesmo lugar, Cristovão Colombo recebeu a ordem real para embarcar para a América. As paredes do Alhambra são testemunhas de verdadeiros acontecimentos.

interior do Palacio Carlos V

Em 1526, Carlos V visitou Alhambra depois de casar-se com Isabel de Portugal. Lá decidiu construir um palácio e, deste lugar, comandou toda região andaluza. O Palácio Carlos V é um exemplo singular do Renascimento Espanhol. Atualmente, o palácio abriga o Museu de Belas Artes com um acervo significativo desde o século XV ao XVIII.  No salão de exposições temporárias,  pudemos apreciar as telas de Henri Matisse após sua primeira visita ao Alhambra em 1910.

patio de arrayanes - Alhambra

A Alhambra visitada por Matisse estava se organizando para ser um pólo de atração turística. Em 1870, La Alhambra foi declarada Monumento Nacional e, em 1984, La Alhambra y El Generalife foi considerada como Patrimônio Mundial pelo Comitê de Patrimônio Mundial da UNESCO. O grande trabalho de restauração ocorreu entre 1923-1936, coordenado pelo arquiteto Leopoldo Torres Balbás. A Alhambra de Matisse estava povoada pela leitura de “Contos de Alhambra”, escritos por Washington Irving – americano que se hospedou no Palácio  em 1829 e lá encontrou inspiração para seus contos.

cartaz da exposição

Nas telas, Bodegón Sevilla I e Bodegón Sevilha II, expostas pela primeira vez, Matisse expressou o feliz encontro com Alhambra. O catálogo da exposição considerou este encontro decisivo para uma nova perspectiva que o pintor adotou em suas telas: apreciar a realidade exclusivamente no visual. Para Matisse, a cor e a forma são recursos que convocam a uma nova realidade artística mais decorativa e autônoma, cuja razão de ser não é o modelo de representação tradicional, mas sim tudo que o possa incluir, tal como um tapete oriental. De Granada o pintor partiu para o Marrocos e ficou encantando com as odaliscas: fez várias interpretações pictóricas com este tema, tendo como elemento decorativo, as parades de Alhambra.

Alcazaba

Alcazaba é a fortificação militar de Alhambra e, portanto, o primeiro a ser construída. A Torre da Vela, a Praça das Armas e a Torre das Homenagens demonstram a forma triangular da edificação árabe. Generalife, na parte mais alta da colina, foi projetado para o rei se retirar do palácio e não ser importunado. Vários jardins e um pequeno palácio com um “Mirador Romántico”: de onde se tem a mais bela vista de toda a cidade. Lugar onde o rei contemplava suas terras e súditos. Lugar do ócio e aventuras românticas.

nave central da Catedral de Granada

O início da construção, em 1523, da Catedral de Granada marca a extensão da Capela Real, edificada entre 1506-1521. A Capela abriga o cenotáfio dos Reis Católicos Fernando de Aragão e Isabel de Costela, responsáveis pela unificação dos povos da Espanha sob monarquia única, enlaçando a Espanha com Portugal, Inglaterra e Áustria, no enlace matrimonial de seu filho e suas filhas. A Rainha Isabel era devota fervorosa e promoveu uma ampla reforma na Igreja Espanhola impulsionando o processo de catequização dos povos ameríndicos das colônias conquistadas.

acervo do Museu do Prado

la virgem y las ánimas del purgatório (1517) - Pedro Machuca

Admiradora da arte pictórica flamenga, D. Isabel colecionou um tesouro artístico ímpar dos séculos XIV e XV exposto na sacristia da Capela Real. A coroa da Rainha e a Espada do Rei fazem parte do conjunto de peças de ourivesaria que compõem o acervo. Uma tela despertou em mim certo estranhamento: a Virgem Maria está amamentando o menino Jesus com o seio desnudo; o garoto interrompe o deleite, vira em torção e fixa o expectador com um olhar intrigado. Este, por sua vez, não sabe se olha o belo peito da mãe ou para o rosto inquiridor do filho que foi interrompido em seu ato. Só depois, no Museu do Prado, fiquei sabendo da devoção dos espanhóis a “Virgem de la leche”. Tema pictórico predominante no período da Contra Reforma, a imagem de Maria amamentando seu Filho tornou-se ícone simbólico do vínculo da maternagem e desse modo, o imaginário familiar cristão foi sedimentando a cultura espanhola. No Museu de Arte de São Paulo, temos uma versão do tema na tela “A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração” de Giampietrino, filho da Lombardia no início do século XVI.  

"A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração"

Indicações de vídeos:

1) visadas de Alhambra com perspectiva nos elementos árabes da arquitetura e decoração [atente para as letras árabes inscritas nas paredes e no belíssimo solo musical]:

 http://www.youtube.com/watch?v=zxMi5gh7wrc&feature=related

2) passeio pela Catedral de Granada com canto gregoriano ao fundo:

 http://www.youtube.com/watch?v=6G51nH49dUs&feature=related

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