Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para abril, 2011

Angelim

De Ângelo, angelim se encarnou em majestoso tronco

De Angelim uma árvore se entornou em pedregoso tranco

Angélica aparição de uma sombra acolhedora em silêncio gestos

Angelim, em seu tronco caráter os valores em sólidas raízes

Angelim Pedra – Hymenolobium petraeum

 Anjolino era o nome próprio daquela que Angelim escolhera

esposa, mãe, mulher, companheira, Aparecida dedicou-se à angelitude

Anjolino apareceu na vida de Angelim e geraram a luz

Luiz, o fruto angelizado na seiva do angelim-de-folha-grande

O tempo e o vento levaram Luiz, Angelim e Aparecida Anjolino

A saudade de pedra sustenta,

em colunas retilíneas,

cada frase enunciada com sentenciosidade :

“Fulano é um bom homem, trabalha de sol-a-sol, ganha seu pão com o suor de seu rosto”

museu dos azulejos - Lisboa

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Foucault, leitor de Bachelard

Gaston Bachelard

A epistemologia de Gaston Bachelard (1884-1962) merece ser estudada em nossos dias. Sua singularidade pode ser reconhecida em dois de seus mais importantes leitores: Georges Canguilhem e Michel Foucault. Em torno deles, formou-se a clássica Escola de Epistemologia Francesa. O conceito de corte epistemológico, muitas vezes empregada por Foucault, é um marco decisivo em suas pesquisas arqueológicas.

Na década de 1940, ao ingressar como estudante de filosofia na Escola Normal Superior (ESN), Foucault ficou siderado com La Philososhie du Non de Bachelard. Leu também La Formation de l’Espirit Scientifique e La Psychanalyse du Feu, ambas publicadas em 1938. Em 1952, a amiga Jacqueline Verdeaux convidou Foucault para uma visita à residência de Bachelard: foi o primeiro encontro do leitor com o autor estimado.

Quando da publicação da tese de doutorado de Foucault, Folie et déraison [ “História da Loucura na Idade Clássica], em 1961, Bachelard escreveu uma carta congratulando o nascimento do livro que, segundo ele,  instaurou um corte epistemológico nos estudos históricos sobre a loucura: “Hoje acabei de ler seu grande livro. Os sociólogos vão muito longe para estudar populações estrangeiras. O senhor lhes demonstra que somos um bando de selvagens. O senhor é um verdadeiro explorador. Anotei seu projeto de ir explorar o século XIX.”

Concluindo a missiva, convidou o jovem filósofo, “explorador arqueológico”, para visitá-lo: “Serei obrigado a deixar a maravilhosa Paris, mas venha me visitar em outubro. Quero felicitá-lo de viva-voz, contar e recontar todas as alegrias que senti ao ler suas páginas, em suma, falar-lhe de minha mais sincera estima.” –  poucos meses depois, o químico-filósofo morreu e o abraço ficou na saudade.

As marcas da leitura que Foucault fez de Bachelard podem ser encontrada desde seu primeiro trabalho de tradução, em 1954,  do livro “Sonho e Existência” de L.Binswanger, na qual escreveu a introdução. No mesmo ano, Foucault publicou seu primeiro livro: Maladie mentale et personnalité. O pequeno livro, encomendado por Louis Althusser, [coordenador de uma coleção destinada aos estudantes de psicologia] é um marco interessante para acompanhar as incidências da leitura que fez de Bachelard e o modo como se apropriou do conceito de corte epistemológico para sustentar a seguinte tese: Freud realizou um corte epistemológico no discurso neurológico/psiquiátrico sobre a loucura, instaurando uma descontinuidade na história da cultura contemporânea.

Gaston Bachelard

Em 1962, depois da publicação da “História da Loucura na Idade Clássica” , o pequeno livro foi reeditado e não só mudou de título, Maladie mentale et psychologie, como também passou por uma revisão completa de seu conteúdo. Pierre Marcherey, no artigo “Nas origens da História da Loucura: uma retificação e seus limites” (in: Recordar Foucault – 1984), comparou passo a passo as duas versões para traçar a arqueologia do pensamento de Foucault sobre a loucura como doença mental apontando os deslocamentos realizados entre a edição de 1954 e a de1962.

Michel Foucault

As diferentes posições de Foucault sobre a psicanálise em geral e sobre Freud emparticular é tema recorrente nos trabalhos dos autores que investigam a obra do filósofo francês. Jacques Derrida, por exemplo, analisou o lugarde Freud na obra A História da Loucura, designando a função dobradiça que Freud ocupou na escrita de Foucault: duplo movimento de articulação, alternância de abertura e fechamento: “movimento alternativo ques sucessivamente abre e fecha, aproxima e afasta, repudia ou aceita, exclui ou inclui, desqualifica ou legitima, domina ou liberta” .

Essa designação de Derrida pode ser aplicada ao conjunto da obra de Foucault. Freud ocupou uma função dobradiça nas pesquisas realizadas em torno da arqueologia do saber, da genealogia do poder e da ética. É como função dobradiça que podemos acompanhar a presença de Freud na escrita de Foucault: uma alternância que abre para uma interlocução profícua ao considerá-lo instaurador de discursividade, inaugurando uma nova hermenêutica na cultura ocidental; e ao mesmo tempo, fecha no que diz respeito àquilo que os pós-freudianos da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) fizeram de Freud, sobretudo, transformando a psicanálise numa prática clínica adaptativa à moral vigente.

Convite – Diálogo Cinemático

Projeto Psicanálise em Extensão CONVIDA para 10ª Sessão do Diálogo Cinemático

Happiness (Felicidade) – EUA, 1998. Diretor: Todd Solondz

30/abril/2011 – 15h

Local: Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba – SP

vagas limitadas: 20 – entrada franca – inscrição: mmariguela@gmail.com

 Mediador: Luiz Gonzaga Godoi Trigo, professor titular da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, atuando no curso de Lazer e Turismo e no mestrado de Estudos Culturais. Graduado em filosofia e turismo (PUC-Campinas), doutor em educação (Unicamp, 1996), livre docente em Lazer e Turismo (ECA-USP, 2003), autor de vários livros e artigos sobre entretenimento, cultura, viagens e turismo.

 

sinópse:
A busca da companhia humana, do amor, do sexo, da felicidade, envolve três irmãs e seu entorno em uma série de histórias estranhas e relacionadas. Cada uma delas se defronta com a solidão e seus amigos ou amantes sofrem os impulsos, as frustrações e os medos de um cotidiano insípido. Os desejos perdem sua pureza e terminam em algo bloqueado, ressentido, truncado. As pessoas se perdem nelas mesmas e a busca de um encontro se revela patética, mas pontilhada de esperança e boas intenções. Uma comédia de humor negro similar a tantas histórias contadas pela literatura ou cinema norte-americano. Raymond Carver (Short Cuts), Cormac Mc Carthy (The Road), Thomas Wolfe (The lost boy) ou Tom Wolf (A man in full) são alguns dos escritores que dissecam a alma americana deixando à luz suas entranhas inquietas e incômodas.

na web:

Escena inicial de la película “Happiness” de Todd Solondz. http://www.youtube.com/watch?v=vlLDoxwJpgI&feature=related

Neurose Histérica (1)

“A histeria foi a maneira efetiva pela qual as pessoas se defendiam da demência; a única maneira de não ser demente, num hospital do século XIX, era ser histérico (…) O histérico tem sintomas magníficos, mas, ao mesmo tempo, esquiva a realidade da sua doença; ele se coloca contra a corrente do jogo asilar e, nessa medida, saudemos os histéricos como os verdadeiros militantes da antipsiquiatria”

(Michel Foucault, aula de 23/jan/1974 no curso O Poder Psiquiátrico – Ed. Martins Fontes, p.325)

Em dezembro de 2009, Sir David Goldberg, renomado psiquiatra do King’s College de Londres, esteve no Brasil como convidado do Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Em sua conferência, interrogou seriamente o Manual de Diagnósticos e Estatísticas (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria e o lugar do sofrimento psíquico na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde. Fez a seguinte advertência: “é urgente delimitar o que define a doença mental, e a melhor maneira de fazer isso é rotular apenas coisas para as quais haja evidência de que os tratamentos atuais com psicotrópicos sejam melhores do que placebo”. 

O Dr. Goldberg apontou o excesso de diagnóstico para os transtornos emocionais e categorias subclínicas. Com relação ao DSM, destacou: “há tendência de incluir no manual aquilo que se chama de depressão subclínica, abaixo do limiar para ser considerada transtorno. Eu me oponho a isso rigorosamente porque não gosto de medicalizar estados de tristeza moderada pelos quais todos nós passamos”. 

O Brasil é bicampeão em consumo de psicotrópicos – só perdemos para os americanos. Como sempre, nossos brothers levam sempre o ouro da indústria de psicofármacos. A advertência do nobre psiquiatra inglês precisa ser levada a sério. O excesso de diagnóstico para o sofrimento psíquico (anímico, diriam os clássicos) tem transformado a tristeza e a melancolia em doenças mentais. A promessa de felicidade plena e ininterruptura faturam bilhões de dólares. O problema não é o medicamento: é o seu uso indiscriminado. Qual a relevância de retornar ao clássico diagnóstico de neurose histérica para interrogar o discurso hegemônico do DSM-IV que transformou o sofrimento psíquico em transtorno de humor? Por que não há mais espaço para diagnóstico das psiconeuroses de histeria e obsessão? Doenças psíquicas dizem do estado de abatimento (sem ânimo), irritabilidade, agressividade, destruição física e simbólica de si mesmo e dos outros. O sofrimento psíquico transborda e abunda as relações cotidianas causando um transtorno de humor geral.

Freud pedia encarecidamente aos seus leitores que não cedessem a tentação de buscar uma base anatômica para o aparelho psíquico. O psíquico não é o cérebro. O psiquismo é um aparelho de linguagem: Isso fala! Essa passagem do somático ao psíquico encontra sua matriz nas célebres Lições sobre as Doenças do Sistema Nervoso, ministradas por Jean-Martin Charcot, publicadas em 1873 (o jovem Freud traduziu o livro para o alemão). 

Em janeiro de 1882 foi criada a primeira cátedra de “doenças nervosas” da Europa e o Dr. Charcot, nomeado titular dela. Pela primeira vez na história, a neurologia é reconhecida como disciplina autônoma no reino da fisiologia. No mesmo ano, o médico gaulês apresentou conferência na Academia de Ciências da França destacando os argumentos para conceber os fenômenos histéricos como de origem nervosa. Estava aberta a possibilidade de pensar a histeria como uma neurose de origem traumática. 

A noção de trauma psíquico permitiu isolar um grupo de sintomas designados como histeria. Trauma é a representação contrastante entre o evento físico e sua significação psíquica. Esta posição de Charcot apropria o conceito de neurose (inventado pelo médico escocês W. Cullen, em 1777, para designar as afecções mentais) do campo da doença orgânica para outro campo discursivo, que investiga a gênese do sofrimento psíquico no plano das representações: quais os sentidos que um sujeito atribui para os acontecimentos de sua vida?