Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Neurose Histérica (1)

“A histeria foi a maneira efetiva pela qual as pessoas se defendiam da demência; a única maneira de não ser demente, num hospital do século XIX, era ser histérico (…) O histérico tem sintomas magníficos, mas, ao mesmo tempo, esquiva a realidade da sua doença; ele se coloca contra a corrente do jogo asilar e, nessa medida, saudemos os histéricos como os verdadeiros militantes da antipsiquiatria”

(Michel Foucault, aula de 23/jan/1974 no curso O Poder Psiquiátrico – Ed. Martins Fontes, p.325)

Em dezembro de 2009, Sir David Goldberg, renomado psiquiatra do King’s College de Londres, esteve no Brasil como convidado do Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Em sua conferência, interrogou seriamente o Manual de Diagnósticos e Estatísticas (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria e o lugar do sofrimento psíquico na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde. Fez a seguinte advertência: “é urgente delimitar o que define a doença mental, e a melhor maneira de fazer isso é rotular apenas coisas para as quais haja evidência de que os tratamentos atuais com psicotrópicos sejam melhores do que placebo”. 

O Dr. Goldberg apontou o excesso de diagnóstico para os transtornos emocionais e categorias subclínicas. Com relação ao DSM, destacou: “há tendência de incluir no manual aquilo que se chama de depressão subclínica, abaixo do limiar para ser considerada transtorno. Eu me oponho a isso rigorosamente porque não gosto de medicalizar estados de tristeza moderada pelos quais todos nós passamos”. 

O Brasil é bicampeão em consumo de psicotrópicos – só perdemos para os americanos. Como sempre, nossos brothers levam sempre o ouro da indústria de psicofármacos. A advertência do nobre psiquiatra inglês precisa ser levada a sério. O excesso de diagnóstico para o sofrimento psíquico (anímico, diriam os clássicos) tem transformado a tristeza e a melancolia em doenças mentais. A promessa de felicidade plena e ininterruptura faturam bilhões de dólares. O problema não é o medicamento: é o seu uso indiscriminado. Qual a relevância de retornar ao clássico diagnóstico de neurose histérica para interrogar o discurso hegemônico do DSM-IV que transformou o sofrimento psíquico em transtorno de humor? Por que não há mais espaço para diagnóstico das psiconeuroses de histeria e obsessão? Doenças psíquicas dizem do estado de abatimento (sem ânimo), irritabilidade, agressividade, destruição física e simbólica de si mesmo e dos outros. O sofrimento psíquico transborda e abunda as relações cotidianas causando um transtorno de humor geral.

Freud pedia encarecidamente aos seus leitores que não cedessem a tentação de buscar uma base anatômica para o aparelho psíquico. O psíquico não é o cérebro. O psiquismo é um aparelho de linguagem: Isso fala! Essa passagem do somático ao psíquico encontra sua matriz nas célebres Lições sobre as Doenças do Sistema Nervoso, ministradas por Jean-Martin Charcot, publicadas em 1873 (o jovem Freud traduziu o livro para o alemão). 

Em janeiro de 1882 foi criada a primeira cátedra de “doenças nervosas” da Europa e o Dr. Charcot, nomeado titular dela. Pela primeira vez na história, a neurologia é reconhecida como disciplina autônoma no reino da fisiologia. No mesmo ano, o médico gaulês apresentou conferência na Academia de Ciências da França destacando os argumentos para conceber os fenômenos histéricos como de origem nervosa. Estava aberta a possibilidade de pensar a histeria como uma neurose de origem traumática. 

A noção de trauma psíquico permitiu isolar um grupo de sintomas designados como histeria. Trauma é a representação contrastante entre o evento físico e sua significação psíquica. Esta posição de Charcot apropria o conceito de neurose (inventado pelo médico escocês W. Cullen, em 1777, para designar as afecções mentais) do campo da doença orgânica para outro campo discursivo, que investiga a gênese do sofrimento psíquico no plano das representações: quais os sentidos que um sujeito atribui para os acontecimentos de sua vida?

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1 Comentário»

  Rodrigo Augusto Suárez Abreu wrote @

Olá Márcio,

Não sei se você já leu essa entrevista mas eu me lembrei dela quando, em seu artigo “Neurose Histérica”, você citou o psiquiatra Dr. David Goldberg do King’s College de Londres. A entrevista a qual me refiro é a que foi publicada na revista ISTOÉ do dia 26/maio/2010 com o também psiquiatra mineiro, Dr. Miguel Chalub, de 70 anos e professor da UFRJ e UERJ.

Se você não leu, mando abaixo o link com toda a entrevista.

Um grande abraço,

Rodrigo

http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/74405_O+HOMEM+NAO+ACEITA+MAIS+FICAR+TRISTE+?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

obs.: note que, na foto dele, há na estante (livros verdes) as obras completas de Freud edição Amorrortu…rs


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