Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Foucault, leitor de Bachelard

Gaston Bachelard

A epistemologia de Gaston Bachelard (1884-1962) merece ser estudada em nossos dias. Sua singularidade pode ser reconhecida em dois de seus mais importantes leitores: Georges Canguilhem e Michel Foucault. Em torno deles, formou-se a clássica Escola de Epistemologia Francesa. O conceito de corte epistemológico, muitas vezes empregada por Foucault, é um marco decisivo em suas pesquisas arqueológicas.

Na década de 1940, ao ingressar como estudante de filosofia na Escola Normal Superior (ESN), Foucault ficou siderado com La Philososhie du Non de Bachelard. Leu também La Formation de l’Espirit Scientifique e La Psychanalyse du Feu, ambas publicadas em 1938. Em 1952, a amiga Jacqueline Verdeaux convidou Foucault para uma visita à residência de Bachelard: foi o primeiro encontro do leitor com o autor estimado.

Quando da publicação da tese de doutorado de Foucault, Folie et déraison [ “História da Loucura na Idade Clássica], em 1961, Bachelard escreveu uma carta congratulando o nascimento do livro que, segundo ele,  instaurou um corte epistemológico nos estudos históricos sobre a loucura: “Hoje acabei de ler seu grande livro. Os sociólogos vão muito longe para estudar populações estrangeiras. O senhor lhes demonstra que somos um bando de selvagens. O senhor é um verdadeiro explorador. Anotei seu projeto de ir explorar o século XIX.”

Concluindo a missiva, convidou o jovem filósofo, “explorador arqueológico”, para visitá-lo: “Serei obrigado a deixar a maravilhosa Paris, mas venha me visitar em outubro. Quero felicitá-lo de viva-voz, contar e recontar todas as alegrias que senti ao ler suas páginas, em suma, falar-lhe de minha mais sincera estima.” –  poucos meses depois, o químico-filósofo morreu e o abraço ficou na saudade.

As marcas da leitura que Foucault fez de Bachelard podem ser encontrada desde seu primeiro trabalho de tradução, em 1954,  do livro “Sonho e Existência” de L.Binswanger, na qual escreveu a introdução. No mesmo ano, Foucault publicou seu primeiro livro: Maladie mentale et personnalité. O pequeno livro, encomendado por Louis Althusser, [coordenador de uma coleção destinada aos estudantes de psicologia] é um marco interessante para acompanhar as incidências da leitura que fez de Bachelard e o modo como se apropriou do conceito de corte epistemológico para sustentar a seguinte tese: Freud realizou um corte epistemológico no discurso neurológico/psiquiátrico sobre a loucura, instaurando uma descontinuidade na história da cultura contemporânea.

Gaston Bachelard

Em 1962, depois da publicação da “História da Loucura na Idade Clássica” , o pequeno livro foi reeditado e não só mudou de título, Maladie mentale et psychologie, como também passou por uma revisão completa de seu conteúdo. Pierre Marcherey, no artigo “Nas origens da História da Loucura: uma retificação e seus limites” (in: Recordar Foucault – 1984), comparou passo a passo as duas versões para traçar a arqueologia do pensamento de Foucault sobre a loucura como doença mental apontando os deslocamentos realizados entre a edição de 1954 e a de1962.

Michel Foucault

As diferentes posições de Foucault sobre a psicanálise em geral e sobre Freud emparticular é tema recorrente nos trabalhos dos autores que investigam a obra do filósofo francês. Jacques Derrida, por exemplo, analisou o lugarde Freud na obra A História da Loucura, designando a função dobradiça que Freud ocupou na escrita de Foucault: duplo movimento de articulação, alternância de abertura e fechamento: “movimento alternativo ques sucessivamente abre e fecha, aproxima e afasta, repudia ou aceita, exclui ou inclui, desqualifica ou legitima, domina ou liberta” .

Essa designação de Derrida pode ser aplicada ao conjunto da obra de Foucault. Freud ocupou uma função dobradiça nas pesquisas realizadas em torno da arqueologia do saber, da genealogia do poder e da ética. É como função dobradiça que podemos acompanhar a presença de Freud na escrita de Foucault: uma alternância que abre para uma interlocução profícua ao considerá-lo instaurador de discursividade, inaugurando uma nova hermenêutica na cultura ocidental; e ao mesmo tempo, fecha no que diz respeito àquilo que os pós-freudianos da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) fizeram de Freud, sobretudo, transformando a psicanálise numa prática clínica adaptativa à moral vigente.

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