Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para outubro, 2011

Antonio Pacheco Ferraz: um piracicabano em Paris

CONVITE – CONVERSA DE BOTECO – 17/OUT/2011 – 20H – LAO BAR BISTRÔ – Rua do Vergueiro, 156 – Centro – Piracicaba

 

“Cheguei em Paris no ano em que Claude Monet morreu. Na época falavam de Picasso, Matisse, Renoir, Cezane. Eu não conhecia nenhum trabalho deles. Eu era um bisonho lá em Paris, um caipira de Piracicaba que estava com o pé numa civilização grande. Não sabia quem era Monet, Manet, Van Gogh.  Para mim o Alípio Dutra era um Deus. De modo que eu era muito bisonho, infantil mesmo. Eu tava sonhando, delirando com aquela cidade luz”.

 

 

auto retrato - pintado em Paris /1928

O SESI/Piracicaba, com apoio da Secretaria Municipal de Ação Cultural, convidou-me para expor um tema que pudesse relacionar arte e vida. De pronto pensei em resgatar a entrevista que realizei com o pintor Antonio Pacheco Ferraz em 1997, na época com 94 anos e pleno de histórias para contar. Durante uma tarde visitei o ateliê o mestre Pacheco e, com um certo tom psicanalítico, fui dando linha para ele narrar sua trajetória como pintor. Naquela ocasião o Brasil recebeu a visita das telas de Claude Monet, pertencente ao acervo do Museu Marmottan de Paris. A exposição das Ninféias de Monet atraiu uma multidão ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiroe ao Museu de Arte de São Paulo. 

procissão na Bretanha, 1976

Aproveitando o cenário, decidi convidar o Pacheco para uma exposição com o propósito de demonstrar sua matriz fundadora no impressionismo. Gentilmente aceitou o convite e, desse modo, tornei-me curador da mostra intitulada: “Antonio Pacheco Ferraz: um piracicabano na Bretanha”. Interessava-me as representações que fez da região norte da França: lugar considerado por ele o mais belo que já tinha visto. Revisitar aquela entrevista editada e publicada na Revista Impulso/UNIMEP nº 24 (http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/impulso24.pdf ) permite reinscrever a memória da viagem a Paris em 1926 – momento de efervecência cultural no mundo das artes parisiense com o lançamento do Primeiro Manifesto do Surrealismo.

Homem Nú - 1928 - Medalha de Bronze no Salão de Belas Artes de Paris

Ao chegar em Paris, a técnica impressionista era a estética hegemônica na Academia de Belas Artes onde Pacheco foi estudar pintura. O tempo da revolução das cores imputada pelos impressionistas na pintura moderna já havia se tornado padrão de formação para os jovens pintores. Uma nova rovolução estava  em curso: a aplicação da estética literária surrealista na produção pictórica. Dois espanhóis estavam detonando as regras de formação: Salvador Dalí e Pablo Picasso. Pacheco não ficou imune aos rumores da revolução surrealista. A tela “O sonho do pintor” de 1971 é uma obra testamento. Nela encontra-se um retrato histórico da síntese que ele realizou entre o impressionismo e o surrealismo. Pacheco banhou-se nestas duas nascentes e foi capaz de realizar uma síntese admirável.

 

o sonho do pintor (em vermelho, seu amigo português, Antonio Pelaio)

 “Esse quadro eu começei fazendo uma paisagem e depois transformei numa homenagem à Bretanha. Eu levei um ano para pintar. Nunca consegui expor. Tenho por ele o maior xodó. Varias vezes tentei tirá-lo daqui para expor mais tenho medo de que sofra alguma avaria. Esse quadro é a síntese da minha vida, é minha história”.

na WEB:

 

http://www.saopaulo.sp.gov.br/patrimonioartistico/sis/leartista.php?id=32

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CONVITE – DIÁLOGO CINEMÁTICO

PROJETO PSICANÁLISE EM EXTENSÃO  – 15ª SESSÃO DO DIÁLOGO CINEMATICO

Filme: Querelle (Alemanha/França, 1982)

Diretor: Rainer Werner Fassbinder

29/outubro/2011 – 15h – entrada franca

Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba – SP

vagas limitadas – inscrição: mmariguela@gmail.com

Mediador:   Maurício José Pinto, graduação em História e  Filosofia pela Universidade Metodista de Piracicaba, membro participante dos grupos de leitura de Freud e Lacan em Piracicaba.

“Em minha opinião, ali não se trata de homicídio e homossexualidade, mas antes de alguém que tenta encontrar sua identidade com todos os meios disponíveis nesta sociedade. Este é propriamente o tema do romance Querelle – pelo menos em minha opinião. Para ser idêntico a si mesmo, Querelle tem que observar tudo o que faz a partir de dois ângulos. Do ângulo apontado pela sociedade como criminoso – portanto oriundo da baixeza – e que não o ajuda em nada, pois ele tem que mistificar a coisa por outro ângulo. Só assim Querelle consegue dar um passo adiante”.    Rainer Werner Fassbinder

Brad Davis deu vida ao Querelle de Genet

Voltar a Querelle através da obra literária de seu autor, Jean Genet, e através da interpretação em película realizada por R.W.Fassbinder pouco antes de morrer, é sempre um desafio: não é uma obra que agrada ao bom senso da moral. Querelle interroga a moral por vincular o ativo ao bem e o passivo ao mal. O bem e o mal são instituídos por Genet como juízo de quantidade. O forte é bom, o fraco é mau.  O forte é livre, o fraco é escravo.

 No ensaio de crítica da obra de Genet (originalmente como introdução às obras completas pela Editora Gallimard), Jean-Paul Sartre pretendeu desvendar o misterioso Genet. Se o destino é determinação externa, influência histórica objetiva ou cadeia causal, seu conceito rechaçaria, de forma lógica, a liberdade. Liberdade é possibilidade de escolha, possibilidade da qual, segundo Sartre, não se pode escapar. Nosso destino é a liberdade: “Somos condenados à liberdade”. Genet, por um ato de escolha, cria-se a si mesmo através de seus personagens: ladrão, adorador do Mal e, por fim, esteta e artista de sua própria experiência existencial.

Sua literatura é permanente celebração do amor homoerótico como estratégia para interrogar a relação entre forças. Querelle é composto por cáften, travestis, adolescentes angelicais, másculos marinheiros, soldados e assaltantes que têm em comum a predileção pelas práticas homoeróticas. Nesse mundo particular, as mulheres são coadjuvantes: senhoras de meia-idade, matronas cafetinas, se comprazem em realizar a fantasia edipiana acolhendo jovens amantes em seu leito. Há uma exceção: a mulher cantante (brilhantemente interpretada por Jeanne Moreau) entoando um lamento: “O homem mata o que ama”. Ela é o laço entre Querelle e seu irmão.

Jean Genet criou um mundo d´deles: “Entre eles, apenas para eles, estabelecia-se um universo (com suas leis e relações secretas, invisíveis) onde a idéia da mulher estava banida.” Trata-se, portanto, de criar a mulher no universo d´eles, definindo o papel passivo e feminino na relação homoerótica. Esse papel, Genet parece resguardar para si mesmo: ao lado dos másculos, violentos e não efeminados, tal como Querelle. Trapaceando com a sorte num lance de dados, Querelle afirma sua liberdade. As posições são definidas pela extensão quantitativa da força: os fracos e dos fortes. Os escravos e os livres.

na WEB:

– homenagem grega ao filme:

http://www.youtube.com/watch?v=rv6o7eRJpDk&feature=related

– um trecho do filme, dublado em itáliano:  

 http://www.youtube.com/watch?v=e_erNCBY55I

– Janne Moreau cantando com ensaio fotografico do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=8gWqqF6j-WI&feature=results_video&playnext=1&list=PL658525E62A40AED4