Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para janeiro, 2012

Curso de Extensão em Psicanálise – Freud, leitor de Nietzsche III

Curso de Extensão em Psicanálise – Freud, leitor de Nietzsche (III)

Ministrado por: Marcio Mariguela, psicanalista e professor de filosofia na UNIMEP

Cronograma: 25/02; 24/03; 14/04; 26/05; 23/06

Horario: 9 as 12h – Vagas Limitadas: 20 – inscrições: mmariguela@gmail.com

Valor: R$ 200,00 – Certificado de Participação

Local: Clinica de Psicanálise de Piracicaba- -Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto

 

 Justificativa: A numeração designa série. Houve dois tempos em que demonstrei a leitura realizada por Freud da obra nietzchiana. No primeiro, centrei o conceito “super-homem” numa irônica citação de Freud à Nietzsche no capítulo X “A massa e a horda primeva” do livro Psicologia das Massas e Analise do Eu de 1921: “No princípio da história humana ele (o pai da horda) era o super-homem, que Nietzsche aguardava apenas no futuro”. Demonstrei que a referência aqui é o livro Assim Falou Zaratustra. No segundo tempo, investigamos a nota de rodapé no livro O Eu e o Isso de 1923, onde Freud alinhou o conceito “inconsciente” na 2ª tópica do aparelho psíquico, ao sentido que o mesmo conceito possui na obra de Nietzsche. Neste caso, definimos alguns aforismos de A Gaia Ciência para levantar hipóteses interpretativas da conjunção de sentido entre ambos.

Neste terceiro tempo, vamos investigar a inclusão de dois parágrafos na edição de 1919 da Interpretação dos Sonhos. Freud reeditou várias vezes sua obra fundadora da psicanálise e, em cada uma delas, acrescentou notas e parágrafos que permitem acompanhar a demarche de sua prática clínica e elaborações teóricas. Freud constatou que a terapia psicanalítica revelou “pela primeira vez que por trás dos sonhos se ocultavam um sentido e um valor psíquico”. Naquele tempo (1900) Freud disse que estava “inteiramente desprepado para descobrir que esse sentido era de caráter tão uniforme”. No item B “Regressão” do célebre capítulo VII “Psicologia dos processos oníricos”, encontra-se os elementos fundamentais para avaliar o “carater uniforme” do sentido do sonho. Se o aparelho psíquico funciona em três registros distintos (Isso, Eu e Supereu), toda percepção consciente esta determinada por traços minêmicos constituitivos na história do bicho falante em sua condição ontogenética e filogenética.

No final do item B (parágrafos de 1919), Freud afirmou que “o sonhar é, em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, moções pulsionais que a dominaram e dos modos de expressão de que ele dispunha nessa época. Por trás dessa infância do indivíduo (ontogênese) é-nos prometida uma imagem da infância filogenética”. Neste ponto, o nome de Nietzsche é invocado: “Podemos calcular quão apropriada é a asserção de Nietzsche de que, nos sonhos, ´acha-se em ação alguma primitiva relíquia da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta´; e podemos esperar que a análise dos sonhos nos conduza a um conhecimento da herança arcaíca do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato”. O aforismo 12 “Sonho e Cultura” do Humano, Demasiado Humano – citado entre aspas -demonstra que Freud leu esse livro de Nietzsche, publicado em 1878. Vamos reconstruir os argumentos de ítem B do capítulo VII tramando com os aforismos do  capítulo 1  “Das coisas primeiras e últimas” do livro de Nietzsche.

Bibliografia:

FREUD, Sigmund A Interpretação dos Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Volume V. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich Humano, Demasiado Humano. Tradução: Paulo César Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

ASSOUN, Paul-Laurent Freud & Nietzsche: semelhanças e dessemelhanças. São Paulo: Brasiliense, 1989.

MONZANI, Luiz Roberto Freud, o movimento de um pensamento. Capítulo 2 “A Máquina de Sonhar”. Campinas: Unicamp, 2ª edição, 1989