Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

ÓCIO EM PARIS

O cultivo do ócio é um exercicio de liberdade. Viver no ócio não quer dizer ficar sem fazer nada. Praticar o ócio é fazer nada útil, que tem utilidade visando um fim determinado. O ócio requer uma suspensão temporária das atividades laborais rotineiras: 2ª, 3ª, 4ª…. Quando se esta no ócio, o tempo flui sem a marcação cronológica. É acordar e se perguntar: O que vou fazer hoje? Nada de útil.

“Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda  fins, propósitos e intenções. A beleza das ruínas? O não servirem mais para nada. A doçura do passado? o recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem pode ser – o absurdo, meu amor, o absurdo”. (Bernardo Soares,  “O livro do desassossego”)

Torre Eiffel

Fazer turismo é praticar o ócio. Para tanto, não pode ser um pacote coordenado por um agente de viagem. O viajante deve ser autônomo o bastante para tomar as decisões de onde e como ir de um lugar ao outro. O que vai visitar, o que deseja conhecer empiricamente e o que minimamente já sabe através de leituras e pesquisa na internet. Ajuda muito se o ócio é praticado num local já conhecido. As coordenadas geográficas básicas são importantes para não ter o tempo subtraído do cultivo do ócio. Saber o que evitar e algumas noções sobre a logística dos meios de transporte são ferramentas fundamentais para mover-se num flanar sem direção.

Sena visto da Rue du Théâtre

No Houaiss Eletrônico, o vocábulo ócio é designado semanticamente como cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar. É também um espaço de tempo em que se descansa, falta de ocupação. Por derivação, sentido figurado, ócio é trabalho leve e agradável. Nesta trama de significação, vagar é o sentido apropriado para designar uma viagem a Paris. Vagar, vagabundear, flanar, perambular. Andar ao leu com uma  certa curiosidade infantil de tudo tocar, sentir, cheirar. Deixar os olhos serem conduzidos e condutores. Cultivar o ócio em Paris é deixar-se seduzir pelas encruzilhadas de suas ruas, pela  história destas cercanias em torno de um caudaloso e belo rio.

Pont Neuf com a île de la Cité ao fundo

Paris é para ser degustada passo-a-passo. Uma Igreja aqui, um museu ou palácio ali, um jardim e praça acolá. Entre um e outro, comer croissant, baguete e tomar agua perrier. Entrar em Paris é atravessar o portão e adentrar num espaço onde a história da cultura ocidental se inscreve em cada pedaço que a visão consegue capturar. Desde o século III a.C, a tribo celta dos parísios fixaram residencia na île de la cité que emergiu triunfante nas águas do Sena.

Opera Garnier

salão de estar do palácio da música – obra prima do 2º Império

Conquistada pelos romanos que ali fundaram a Lutécia: sede do império ao norte da Europa. O mito cristão fundador é personificado por São Denis, o primeiro bispo de Paris,  cultuado como protetor dos monarcas. No século III foi decapitado pelos romanos e, mesmo assim, carregou sua cabeça por 10 km: de Montmartre até o portão da cidade, hoje conhecida como Porta de São Denis. Há também a proteção feminina: Santa Genoveva salvou Paris de Átila, o Huno em 451.

portão do castelo de Versailles

Clóvis, rei dos francos, fez de Paris a capital de seu reino em 508. Em todo período medieval, os francos asseguram as construções de monastérios e um reino cristão foi sedimentando a cultura monárquica que fundou sua descendência em Luis IX no século XIII até a decapitação de Luis XVI no final do século XVIII pelos Revolucionários Republicanos.

Conciergerie na île de la Cité

Em 1868, Paul Lafargue casou-se com Laura, a filha caçula de Karl Marx. Nascido em Cuba, Paul era filho de um francês e de uma judia. Enviado a Paris para estudar medicina, tornou-se um apaixonado militante socialista. Na época, os trabalhadores nas oficinas parisienses trabalhavam em média 13 horas por dia, e o pior, ainda estavam convencidos de que o trabalho em si mesmo era uma atividade dignificante para si e benéfica para o progresso social. Com a latinidade nas veias, Paul confrontou o sogro de forma viceral ao publicar em Paris o ensaio O Direito a Preguiça, em 1880.

entrada do palácio de Versailles

Lafargue  levantou seu brado contra a visão hegemônica da santificação do trabalho, promovida por escritores de direita e de esquerda, por economistas liberais e socialistas tapados. Para ele, o trabalho dignifica o humano no limite imposto pelo ócio e o lazer. Quando não há mais condições de praticar o ócio e dedicar-se ao lazer, o trabalho tornou-se um valor em si e ao mesmo tempo, ferramenta para o trabalhador ser reconhecido como consumidor. Trabalhar para consumir é uma atividade alienada pois o trabalho visa um fim: obter bens, mercadorias marcadas por signos de status e poder.

pedinte nas proximidades da Galeria Lafayette,
o templo do consumo

O panfleto revolucionário de Laforgue foi redigido num tempo em que a burguesia industrial levava a exploração do trabalhador ao máximo na construção do modelo capitalista. O sucesso deste texto em Paris é inflamante na medida em que interrogou o contexto histórico no período do 2º Império, governado por Napoleão III. Fundamentalmente é essa Paris de Laforgue que os turistas mais veem.

Avenida Champs Élysées

As transformações no espaço publico para acolher efetivamente os ideais da burguesia dominante é a Paris do primeiro plano de percepção estética. Escavando os substratos dos planos subjacentes, o visitante pode vestir a fantasia de um arqueólogo e descobrir os feitos do 1º Império de Napoleão Bonaparte, os vestígios da monarquia cristã devota de São Denis, Santa Genoveva e São Luis, o rei que se tornou santo.

Anúncios

3 Comentários»

  Mauricio Faria wrote @

Olá Marcio, tudo em paz?
Recebi seu contato através do Eric Passone e gostaria de parabenizá-lo por esse belíssimo texto.
Me fez recordar minhas andanças por Paris e também aprender um pouco mais sobre a história dos lugares que visitei.
Com o tempo irei ler seus outros textos.
Boa semana.

[]´s

  marciomariguela wrote @

olá Mauricio,
grato pela visita e comentário.
abraço,

  Felipe de Oliveira wrote @

Incrivel como uma simples crônica me fez refletir profundamente sobre os valores da vida. “Trabalhar para consumir é alienação”, perfeito, uma das críticas mais construtivistas e simples que tive o prazer de observar. Me faz lembrar a charge do índio…
Parabéns Mariguela, excelente texto.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: