Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para agosto, 2012

IGREJAS DE PARIS – Basílica de Saint Denis

As dezenas de igrejas espalhadas pela cidade de Paris demonstram a história da monarquia católica. Como um dos reinos cristão mais importante da Europa, Paris concentra verdadeiros tesouros arquitetônicos desde o gótico medievo, passando pelo renascentismo e barroco clássico até o romantismo do 2º império. Visitar as igrejas é adentrar num território em que o sagrado é o fundamento da política. A história de Paris pode ser narrada por suas igrejas que abrigam sepulturas de reis, rainhas, príncipes e princesas. Abrigam também os restos mortais de escritores, pensadores, artistas que muito colaboraram para ornamentar o ambiente devocional.

Basílica de Saint Denis

O estilo gótico lançou seus marcos fundadores no período medieval e sob a espada de Clóvis derrotou os romanos no final do século V,  instaurando o cristianismo como religião oficial do reino franco. Nas cercanias de um cemitério galo-romano ao norte de Paris foi edificado a primeira igreja sobre o túmulo de St. Denis, o primeiro bispo dos franceses, decapitado pelos romanos no ano 250. A tradição atribui a Santa Genoveva a construção do primeiro santuário em torno de 450.

exemplar gótico de grande esplendor

A atual Basílica de Saint Denis foi edificada a partir deste santuário que rapidamente tornou-se um centro de peregrinação. Ao seu redor foi edificado um monastério beneditino e desde o século VII passou por varias transformações com o impulso inicial do rei Dagoberto que tornou-se o benfeitor e elegeu St. Denis como patrono e protetor dos monarcas. A história da Basílica se funde com a historia da monarquia cristã, abrigando túmulos de praticamente todos os regentes até Luis XVI e Maria Antonieta.

interior da Basílica com rosácea ao fundo

Sob a regência do abade Suger (1122-1151), conselheiro real, a Basílica adquiriu novas técnicas arquitetônicas, rosáceas e abóboda sobre cruzeiro de ogivas. Um esplendor de luz inundou o espaço que consagrou reis e rainhas. Ao mesmo tempo, neste espetáculo luminoso, os restos mortais da monarquia descansam em paz. A abside do abade Suger foi projetada para ostentar as relíquias dos mártires. A ausência de muro concreto entre as capelas centrais e a abside (capela em formato semicircular atras do altar-mor ou nave central) criam um muro de luz contínuo. Dos vitrais do abside somente cinco foram poupados da destruição pelos revolucionários franceses do final do século XVIII. Nesta capela luminosa estão as efígies da monarquia merovíngia – o rei Clóvis e seus filhos  são a gênese do cristianismo na França.

abside do abade Suger

A Basílica abriga atualmente mais de 70 efígies e túmulos, sendo considerada  uma coleção única na Europa. No passeio pela Basílica podemos apreciar os avatares da arte funerária, das efígies do século XII esculpidas  com os  olhos abertos; também  as grandes composições do Renascimento que associavam a morte à esperança da ressurreição. Foi exatamente neste significante que a sensação do expectador repousou: pareceu-me que toda aquela monarquia ali sepultada sob o manto infinito da luz, estão a espera da ressurreição.

túmulo de Henrique II e Catarina de Médicis

Dentre os monumentos funerários, destaque para o túmulo do rei Dagobert I, grande representante da dinastia Merovíngia; e para o templo funerário de Henrique II e Catarina de Médici, representantes da dinastia dos Valois. O tumulo do rei foi edificado em meados do século XIII a pedido dos monges beneditinos que o consideravam seu fundador. Esta situada no lugar onde o soberano foi inumado em 639. Seu corpo foi esculpido com a cabeça virada à direita, como se estivesse a olhar eternamente para as relíquias de St. Denis. As esculturas que adornam o túmulo, ilustram a lenda do eremita João que sonhou com a alma de Dagobert sendo arrancada dos demônios, graças a intervenção dos santos Denis, Maurice e Martin.

símbolo da realeza sepulta

O túmulo templo de Henrique II surgiu da vontade expressa de Catarina de Medici para a memória de seu esposo e em honra os Valois. Foi desenhado por Primticio e esculpido por Germain Pilon entre 1560-1573,  utilizando uma combinação equilibrada entre o mármore e o bronze, este monumento é um exemplar da presença da arte italiana em solo francês. Os anjos, representantes de cada uma das virtudes, adornam este mausoléu de mármores multicoloridos que se intensificam com a luz da rosácea lateral do transepto norte.

rosácea central

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Antígona do Lacan

“Se é que aquilo que ensino tem o valor de um ensinamento, não deixarei depois de mim nenhuma oportunidade para que se possa acrescentar o sufixo ismo. Dizendo de outra maneira, termos que terei sucessivamente esmerado diante de vocês, e o embaraço de vocês felizmente mostra que nenhum deles ainda não lhes pode parecer suficientemente essencial, quer se trate do simbólico, do significante ou do desejo, nenhum desses termos, no fim das contas, jamais poderá servir, pelo meu procedimento, de amuleto intelectual para quem quer que seja” (Jacques Lacan, “O brilho de Antígona” in: Seminário 7).

Antigona derramando terra no corpo de seu irmão Polinice
William Henry Rinehart, 1870.

No Grupo de Estudos em Lacan estamos trabalhando ha tempos com o Seminário 7 – A Ética da Psicanálise. No momento, vamos nos deter na interpretação da clássica tragédia “Antígona” de Sófocles. Desde o início, uma questão tem nos guiado na leitura do Seminário:  o que levou Lacan escolher a heroina filha de Édipo como prototipo da ética exigida ao psicanalista? Lacan escolheu Antígona para demarcar o prototipo do que exigido do psicanalista na condução de um tratamento; situando assim a dimensão trágica da experiência psicanalítica: “Antígona~, disse ele,  é uma tragédia, e a tragédia esta presente no primeiro plano de nossa experiencia, a dos analistas, como é manifesto nas referencias a Freud – impelido pela necessidade dos bens oferecidos por seu conteúdo mítico – encontrou em Édipo, mas também em outras tragédias. E se ele não destacou mais expressamente a de Antígona, não quer dizer que ela não possa ser evidenciada aqui, nesta encruzilhada para onde eu trouxe voces”. Qual a encruzilhada? A função do bem e a função do belo no paradoxo do gozo. O problema da sublimação foi ressignificado por Lacan ao analisar a demanda de felicidade e a promessa analítica: “permitir ao sujeito situar-se numa posição tal que as coisas, misteriosa e quase miraculosamente, aconteçam para ele de uma boa maneira, que ele as aborde pelo lado certo (…) Ousando formular uma satisfação que não é paga com um recalque, o tema colocado no centro, promovido em sua primazia é – o que é o desejo? A propósito disso posso apenas lembrar-lhes o que nessa época articulei – realizar seu desejo coloca-se sempre numa perspectiva de condição absoluta”. É essa condição absoluta que Lacan leu em Antígona.

Duas perspectivas distintas sobre a tragédia: a de Aristóteles, expressa n’A Poética; e a de Nietzsche, formulada n’O Nascimento da Tragédia. Admitir que Antígona é uma tragédia, convém perguntar: o que define e caracteriza uma tragédia? em que ela se distingue da comédia, da epopeia, por exemplo? Neste post vou me deter na interpretação de Aristóteles e na leitura que Lacan realizou da Poética para demarcar sua Antígona.

busto de Aristóteles

Nos capítulos VI, Aristóteles definiu a Tragédia como imitação de uma ação de caráter elevado. No acontecer dramático do herói (ou heroína)  é suscitado o terror e a piedade e como efeito, purifica estas emoções. Se a Tragédia é a imitação de uma ação, quais as causas naturais (“phýsis”) que determinam as ações: pensamento e caráter. A ação dramática vivida por atores que interpretam personagem serve de cenário para contemplar o pensamento e o caráter encenados nas ações representadas. Caráter “é o que nos fazer dizer das personagens que elas têm tal ou tal qualidade; e por pensamento, tudo quanto digam as personagens para demonstrar o quer que seja ou para manifestar sua decisão”. Diante destes argumentos, podemos interrogar sobre o caráter e pensamentos de Antígona.

Definindo o Mito como a alma da tragédia, Aristóteles destacou o elemento mais importante: a trama dos fatos, “pois a Tragédia não e imitação de homens, mas de ações e de vida, de felicidade ou infelicidade, reside na ação, e a própria finalidade da vida é uma ação (ato?), não uma qualidade”. Sem ação não poderia haver Tragédia, pois que nesta “não agem os personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efetuar certas ações”. Se as ações são determinadas pelo caráter e pensamento, o filósofo distingue com precisão as duas causas. Pensamento “é poder dizer sobre tal assunto o que lhe é inerente e a esse convém (…) é aquilo em que a pessoa demonstra que algo é ou não é ou enuncia uma sentença geral”; Caráter “é o que revela certa decisão ou, em caso de dúvida, o fim preterido ou evitado”. Pode-se depreender dessas definições toda uma linha interpretativa da Antígona.

No capítulo IX, Aristóteles retornou a questão da finalidade (o “telos”) destacando os estados afetivos de piedade e terror. A Tragédia não é só imitação de uma ação completa, tal imitação tem como “télos” suscitar o terror e a piedade. Ao suscitar tais emoções, o expectador vivencia uma catarse (“kátharsis”), uma purificação. A palavra catarse, deriva da linguagem da medicina com o significado de purgação. Usado também em experiencias religiosas, “kátharsin” refere-se às cerimônias de purificação a que se submetiam os iniciados. No sentido ético, significa o alívio do ânimo através da expressão das paixões como meio de libertar-se delas. Ao suscitar o terror e a piedade, a Tragédia tinha uma finalidade terapêutica. É curioso lembrar que o método psicanalítico foi inventado pela aplicação do método catártico por Freud em 1895.

O sentido ético da tragedia esta determinado por seu “telos”, sua finalidade. Ao articular a ética da psicanálise com o paradigma Antígona, Lacan reinscreveu a tradição aristotélica num campo clínico bem preciso: o tratamento dos sofrimentos neuróticos e psicóticos, conduzido por um psicanalista. A experiência trágica de uma psicanalise também suscita o temor e a piedade. A dimensão ética da catarse como purificação do ânimo através da libertação do peso das paixões, está presente na experiência clínica da psicanálise. “Não esqueçamos de que o termo catarse permanece singularmente isolado na Poética, onde o recolhemos”. Ao recolher esse termo, Lacan destacou os três níveis de significação da palavra “kátharsin” para ancorar sua interpretação no sentido ético-pedagógico: apaziguamento do ânimo através da liberação do peso das paixões (páthos).

Eudoro de Souza, comentando sua tradução da passagem da Poética em que a palavra “kátharsin” aparece, esclareceu que a mesma pode ser compreendida em quatro maneiras distintas: “catarse (operada por…) sobre tais emoções; catarse (operada) por tais emoções (sobre…); catarse (operada) por tais emoções (sobre elas mesmas); catarse de tais emoções (=expurgação ou eliminação de tais emoções”. As variações não escaparam à atenção de Lacan. Ele traduziu como: “meio que efetua pela piedade e pelo temor a catarse das paixões semelhantes a esta”.

Essa questão é decisiva na interpretação que fez da tragédia Antígona. Por isso, afirmou:  “O que promovemos mais particularmente concernindo ao desejo permite-nos fornecer um elemento novo à compreensão do sentido da tragédia, e isso por essa via exemplar, a função da catarse. Antígona nos faz, com efeito, ver o ponto de vista que define o desejo” (J.Lacan)

Indicações de Leitura:
Aristóteles, Poética. Tradução Eudoro de Souza. Edição Bilíngue. 2ª ed. São Paulo: Ars Poetica, 1993.
Sófocles, Antígona. Tradução Guilherme de Almeida. In: Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 1997.
Kathrin H. Rosenfield. Sófocles & Antígona. Coleção Filosofia Passo-a-passo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
Kathrin H. Rosenfield (org.) Filosofia e Literatura: o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
Albin Lesky, La Tragedia Griega. Barcelona: Editorial Labor, 3ª ed., 1970.
Denise Maurano, Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.