Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para Livros

Livros Licenciosos

 

livro editado em Lisboa pela Tinta-da-China – março/2011

O historiador americano Robert Darton realizou inusitada pesquisa: Os best-sellers proibidos na França pré-revolucionária (Cia das Letras, 1998). Na 1ª parte, relacionou a literatura proibida «os livros licenciosos, libertinos e luxuriosos» e o mercado literário.

Na descrição material dos best-sellers afirmou: “nossa excursão pelos caminhos editoriais do século XVIII nos levou a uma conclusão particular: a literatura ilegal constituia mundo à parte, um ramo especial do setor livreiro, delimitado por práticas bem estabelecidas e organizado em torno de uma noção funcional de ´filosófico´”.  Filosófico é a designação comum para os livros dedicados ao cultivo dos prazeres sensíveis: comer, beber, trepar/transar.

Inserindo esta noção funcional no contexto da história dos sistemas de pensamentos, podemos ver bem qual é o fundamento teórico desta literatura proibida: o sensualismo frances e, em especial, a obra O Tratado das Sensações do abade Étienne de Condillac, publicada em 1754.

Analisando o comércio ilegal desta literatura “filosófica”, Darton demonstrou que o gosto pelo proibido se traduziu em livros que circulavam como mercadoria nas atividades comerciais em geral . Utilizando o único arquivo disponível, pertencente a “Société Typographique de Neuchâtel” – editora atacadista localizada na fronteira da França, analisou aspectos curiosos do comércio dos livros licenciosos.

A posição geográfica da editora era fundametal, segundo Darton, para  imprimir os “livros filosóficos” e despachá-los pelos rios Reno e Ródono, abastecendo assim o comércio livreiro das grandes cidades européis. Na lista de clientes da “Société Typographique de Neuchâtel” constam grandes livreiros atacadistas de São Petersburgo a Nápoles, de Buapeste a Dublin. Passando pelos reinos católicos da Espanha e Portugal.

Licencioso adjetiva aquele que “abusa da liberdade, que agride as normas e convenções sociais; desregrado, indisciplinado; que agride a decência; a que falta restrições morais ou legais; que desconsidera as proibições sexuais; marcado pelo desregramento moral”. Como substantivo masculino, licencioso designa “aquele que revela desregramento em seus atos, escritos e palavras; depravado, libertino” (in: Houaiss Eletrônico).

fax símile da edição do século 19

Em Portugal também havia consumidores de livros  licenciosos, libertinos e luxuriosos. Na reprodução acima podemos identificar que um dos clássicos da licenciosidade portuguesa poderia ter sido impresso em Paris. No entanto, como é próprio deste livro-arquivo, O Pauzinho do Matrimônio deixa uma pista que subverte a censura e, ao que tudo indica, foi impresso na cidade do Porto em Portugal.

Ironicamente, o endereço da editora é a chave deste ato subversivo:

69 -Rue de la Pudicité -69

4881

A palavra “pudicité” era utilizada na literatura licenciosa para designar a pudicícia: a qualidade o casto, do que pratica a castidade e defende a pureza. Também define a característica do que é pudico e recatado. O livro define, assim, seu destinatário: os pudicíssimos.

Quanto ao número 69, passo a palavra ao O Pauzinho do Matrimônio. Almanaque perpétuo. Nova edição aumentada com uma substanciosa A arte de gozar e fazer gozar. Várias poesias e descobertas importantes

Sem autoria identificada, este clássico portugues apresenta um Aviso Importante: “Não fica reservado nenhum direito de propriedade literária ou artística do pauzinho. Pode ser pois reproduzido em qualquer parte e muito principalmente no Brasil”.

De publicação Anônima, O Pauzinho adverte o leitor sobre sua pertença: “escola ultra-avançada em questões de propriedade, os editores aconselham às pessoas que puderem apanhar este livro por qualquer meio, compra, achado ou empréstimo (exceptua-se a palmação) que lhe chamem seu para todos os efeitos e não restituam para efeito algum”.

No preâmbulo da substanciosa inclusão, encontra-se uma descrição  que sintetiza o conjunto dos elementos deste livro-arquivo. “Para que este livro se não conserve de todo futil e possa aproveitar à educação, damos aqui alguns preceitos, que importa seguir quando se trata do que o homem tem de mais grato: os prazeres da luxúria”.

Dedicados ao trabalho educativo de formar cidadãos livres para o cultivo dos prazeres luxuriantes, o ensaio “A Arte de Gozar…”  é composto de 8 capítulos: Do beijo e da apalpadela; Da punheta; Da Bimbadela; Da foda; Da chupadela ou bauché; Da lamdedela ou minete; Da enrabadela; Outras formas de esporrar. 

O capítulo 6 se inicia com a seguinte advertência: “Não é mineteiro quem quer: é preciso ter instintos finos e, como em tudo o que toca a luxúria, ser delicado e jeitoso”.

Descrevendo em minúcias os movimentos necessários para a prática cunilíngua, o Almanaque sentencia: “é delicioso para a mulher, e não é raro que o homem só com isto se venha com prazer infinito. Aconselho-te, porém a que não deixes aguar a triste; volta-te de modo que lhe deixes abocar-te o caralho e assim desenharão o nº 69 ou o nº 8, que é o símbolo do infinito, isto é, o símbolo do prazer que dois amantes por tal arte gozam”.

vejam Pedro Mexia, escritor portugues, lendo o capítulo 2 – Da punheta:

 http://www.youtube.com/watch?v=Q0L7jl7qiqQ

 A edição do Pauzinho publicada pela Tinta-da-China de Lisboa inclui as hiláriantes ilustrações de Rafael Bordado Pinheiro, consagrado caricaturista português que trabalhou na imprensa brasileira no final do século XIX. 

O Pauzinho faz parte da  Coleção Livros Licenciosos, onde aparecem também os seguintes títulos:

Entre Lençóis – Episódios para Educação e Recreio de Pessoas Casadoiras, de Candido de Figueiredo, seguido de Proezas de Frade ou Mistérios do Confessionário, de um autor desconhecido.

O Vício em Lisboa – Antigo e Moderno, de Fernando Schwalbach, seguido de Regulamento Policial das Meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa em 1 de Dezembro de 1865.

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AS VIAGENS DE FREUD

As cidades de Freud: itinerários, emblemas e horizontes de um viajante
Autor: Giancarlo Ricci
Jorge Zahar Editor, 2005

Sinopse:
Seguir Freud em suas freqüentes viagens, recolhendo uma vasta documentação extraída de suas cartas e obras. Essa é a proposta inicial do livro, sua saborosa camada externa. Percorremos, através do olhar e do filtro das preocupações profissionais e pessoais de Freud, mais de 40 cidades. Sua curiosidade pelo homem e pela cultura e sua atenta observação de paisagens exteriores e interiores da humanidade fazem dele um agudo intérprete de nosso tempo. Com base nos escritos do mestre de Viena, Giancarlo Ricci levantou os pontos mais emblemáticos do itinerário freudiano – da Freiberg natal a Londres, a cidade do exílio e do fim. Ao seguir seus passos, o autor evidencia como Freud testemunhou e sobretudo forjou a modernidade, deixando para trás o século XIX e interrogando o mal-estar de nossa época.

Comentários:
Durante dias, nos intervalos de minhas atividades cotidianas, viagei na cartografia desenhada pelo psicanalista italiano Giancarlo Ricci, seguindo o itinerário de Freud em suas viagens desde os tempos de colegial até o final de sua vida. Com vasta pesquisa nas correspondências de Freud, o autor reconstruiu passo a passo as cidades que Freud visitou e o registrou que o mesmo fez. São ao todo quarenta cidades listas em ordem cronológica que servem como pretexto para uma análise minuciosa e de grande literalidade cruzando as impressões de Freud com o trabalho progressivo de suas pesquisas e formação cultural. No prefácio, escrito por Carlo Sini, da Universidade Federal de Milão, se encontra uma chave para a leitura desse livro singular pela temática e pelo caráter documental – o modo como interroga o oficio, a arte inventada por Freud: "no livro encontramos testemunhos freudianos dos quais emerge a sua recusa de uma profissionalização e sobretudo de uma medicalização da psicanálise, que seriam o equivalente à sua normalização liquidatória. A psicanálise é a arte da palavra. Sua arte é sob certos aspectos arqueológica: justo em Roma, Freud olha para a cidade, surpreendentemente, com um olhar que hoje diríamos wittgensteiniano, isto é, como uma estratificação de épocas, de práticas, de sentidos, de tópicas. Também o analista deve traçar mapas de territórios sepultos, desconhecidos e esquecidos, buscando indícios na superfície. Para tanto, precisa aprender a compreender a lingua do inconsciente e seus dialetos, ou melhor, seus hieroglifos e suas escrituras indissincráticas, movendo-se e tropeçando como Édipo entre enigmas e signos do destino (…) Freud entendeu muito bem: a prática psicanalítica tem muito em comum com o exercício da poesia".