Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para Poesia

meio século

I

uma conta a mais na contagem do conto

de conta em conta, o tempo se conta na carne trêmula

numa contagem sem conto, o tempo desconta no espírito enrijecido

não mais que um conto para contar o desconto pelas sandices emudecidas

em que conta é posssivel contar o incontável?

se todas as contas ficam pelo meio, nos entremeios o conto se conta

II

as contas de um colar de pérolas determinam o valor em quantidade

as contas de uma guia de preto velho determinam o valor em qualidade

as cotas de uma empresa é quantidade

as cotas de ocio roubada do tempo veloz é qualidade

as contas para pagar é o preço de carne ofertado no mercado

as contas a receber é a esperança lançada no além tempo

Como pode um conto contar uma vida? Um conto de réis, Cem conto?

o valor é uma contagem: quanto vale uma vida? Escravo bom é escrevo vivo!

para quem se libertou, a contagem de seu valor é um ato de autonomia

a vida vale o tanto que se é capaz de fazer valer

III

valorar é uma ato supremo de liberdade. Cada coisa tem o valor que dou a ela!

escravidão é submeter-se ao valor das coisas pelo mercado.

um por de sol no outono vale mais do que o ouro

as lágrimas de plenitude vale mais do que um diamante

o vermelho rubro da flor vale mais que rubi

quem estabelece o valor? quem valora? Essa é a questão!

IV

o valor da existencia é a inscrição de uma diferença com a potencia de invenção

inventar o valor para contar o tempo que flui sem valor e direção

na contagem do tempo o valor da vida vai solidificando o passado

lugar por onde se passou vira chão para ir e vir sem melancolia

lembranças sorridentes de uma contagem sem fim

 

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Animais Loucos

                  Luana Bonini Mariguela

Uma efefanta  tomou fanta 

comeu uma planta 

e se cobriu com a manta.

A leoa

tava numa boa

viu uma canoa

com uma pessoa.

O jacaré

tem chulé

e um boné

por isso é mané.

A girafa

toma água na garrafa

toma skol

diante do sol.

A formiga

tem lombriga

brigou com sua amiga

e furou sua barriga.

A andorinha

come farinha

viu uma galinha

e é bonitinha.

Angelim

De Ângelo, angelim se encarnou em majestoso tronco

De Angelim uma árvore se entornou em pedregoso tranco

Angélica aparição de uma sombra acolhedora em silêncio gestos

Angelim, em seu tronco caráter os valores em sólidas raízes

Angelim Pedra – Hymenolobium petraeum

 Anjolino era o nome próprio daquela que Angelim escolhera

esposa, mãe, mulher, companheira, Aparecida dedicou-se à angelitude

Anjolino apareceu na vida de Angelim e geraram a luz

Luiz, o fruto angelizado na seiva do angelim-de-folha-grande

O tempo e o vento levaram Luiz, Angelim e Aparecida Anjolino

A saudade de pedra sustenta,

em colunas retilíneas,

cada frase enunciada com sentenciosidade :

“Fulano é um bom homem, trabalha de sol-a-sol, ganha seu pão com o suor de seu rosto”

museu dos azulejos - Lisboa

PAIS E FILHOS

Com as extremidades de sua rude
mão de operário da metalurgia,
o pai toca a fronte do filho inerte.

Seu frágil corpo enuncia:
chegou antes da hora

Entre os fios da tecnologia
sua vida expira no respiro

O ar que falta ao filho,
sufoca o pai entre lágrimas e esperança.

O pai diante do corpo inerte do filho:
o artista diante da obra inacabada.

Falo

o sexo fala
a falta do falo

o sexo fala
na falha do falo

o sexo falha
na fala do falo

o sexo falta
no falo que fala

o sexo falo
na falta da fala

PAIXÃO

Alma errante na dor
Corpo berrante no amor
Espírito marcante no pavor
Matéria ausente no valor

No grito do crucificado
o perdão anunciado:
“Pai, eles não sabem o que fazem”

Por não saber,
a paixão encontra seu devir
nas marcas de sangue
que escorre pela face

PEDAÇOS

Um pedaço de história, um traço, um risco no tempo

Um pedaço do que já não sou lançado na web

Um pedaço do que sonho depositado aos pés de Kronos

Um pedaço do que acredito enviado nas asas do desejo

Mil pedaços estilhaçados de um espelho voraz

Milhões de estrelas indicando o caminho

Zilhões de estrelas marinhas com os braços abertos