Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para Psicanálise

Antígona do Lacan

“Se é que aquilo que ensino tem o valor de um ensinamento, não deixarei depois de mim nenhuma oportunidade para que se possa acrescentar o sufixo ismo. Dizendo de outra maneira, termos que terei sucessivamente esmerado diante de vocês, e o embaraço de vocês felizmente mostra que nenhum deles ainda não lhes pode parecer suficientemente essencial, quer se trate do simbólico, do significante ou do desejo, nenhum desses termos, no fim das contas, jamais poderá servir, pelo meu procedimento, de amuleto intelectual para quem quer que seja” (Jacques Lacan, “O brilho de Antígona” in: Seminário 7).

Antigona derramando terra no corpo de seu irmão Polinice
William Henry Rinehart, 1870.

No Grupo de Estudos em Lacan estamos trabalhando ha tempos com o Seminário 7 – A Ética da Psicanálise. No momento, vamos nos deter na interpretação da clássica tragédia “Antígona” de Sófocles. Desde o início, uma questão tem nos guiado na leitura do Seminário:  o que levou Lacan escolher a heroina filha de Édipo como prototipo da ética exigida ao psicanalista? Lacan escolheu Antígona para demarcar o prototipo do que exigido do psicanalista na condução de um tratamento; situando assim a dimensão trágica da experiência psicanalítica: “Antígona~, disse ele,  é uma tragédia, e a tragédia esta presente no primeiro plano de nossa experiencia, a dos analistas, como é manifesto nas referencias a Freud – impelido pela necessidade dos bens oferecidos por seu conteúdo mítico – encontrou em Édipo, mas também em outras tragédias. E se ele não destacou mais expressamente a de Antígona, não quer dizer que ela não possa ser evidenciada aqui, nesta encruzilhada para onde eu trouxe voces”. Qual a encruzilhada? A função do bem e a função do belo no paradoxo do gozo. O problema da sublimação foi ressignificado por Lacan ao analisar a demanda de felicidade e a promessa analítica: “permitir ao sujeito situar-se numa posição tal que as coisas, misteriosa e quase miraculosamente, aconteçam para ele de uma boa maneira, que ele as aborde pelo lado certo (…) Ousando formular uma satisfação que não é paga com um recalque, o tema colocado no centro, promovido em sua primazia é – o que é o desejo? A propósito disso posso apenas lembrar-lhes o que nessa época articulei – realizar seu desejo coloca-se sempre numa perspectiva de condição absoluta”. É essa condição absoluta que Lacan leu em Antígona.

Duas perspectivas distintas sobre a tragédia: a de Aristóteles, expressa n’A Poética; e a de Nietzsche, formulada n’O Nascimento da Tragédia. Admitir que Antígona é uma tragédia, convém perguntar: o que define e caracteriza uma tragédia? em que ela se distingue da comédia, da epopeia, por exemplo? Neste post vou me deter na interpretação de Aristóteles e na leitura que Lacan realizou da Poética para demarcar sua Antígona.

busto de Aristóteles

Nos capítulos VI, Aristóteles definiu a Tragédia como imitação de uma ação de caráter elevado. No acontecer dramático do herói (ou heroína)  é suscitado o terror e a piedade e como efeito, purifica estas emoções. Se a Tragédia é a imitação de uma ação, quais as causas naturais (“phýsis”) que determinam as ações: pensamento e caráter. A ação dramática vivida por atores que interpretam personagem serve de cenário para contemplar o pensamento e o caráter encenados nas ações representadas. Caráter “é o que nos fazer dizer das personagens que elas têm tal ou tal qualidade; e por pensamento, tudo quanto digam as personagens para demonstrar o quer que seja ou para manifestar sua decisão”. Diante destes argumentos, podemos interrogar sobre o caráter e pensamentos de Antígona.

Definindo o Mito como a alma da tragédia, Aristóteles destacou o elemento mais importante: a trama dos fatos, “pois a Tragédia não e imitação de homens, mas de ações e de vida, de felicidade ou infelicidade, reside na ação, e a própria finalidade da vida é uma ação (ato?), não uma qualidade”. Sem ação não poderia haver Tragédia, pois que nesta “não agem os personagens para imitar caracteres, mas assumem caracteres para efetuar certas ações”. Se as ações são determinadas pelo caráter e pensamento, o filósofo distingue com precisão as duas causas. Pensamento “é poder dizer sobre tal assunto o que lhe é inerente e a esse convém (…) é aquilo em que a pessoa demonstra que algo é ou não é ou enuncia uma sentença geral”; Caráter “é o que revela certa decisão ou, em caso de dúvida, o fim preterido ou evitado”. Pode-se depreender dessas definições toda uma linha interpretativa da Antígona.

No capítulo IX, Aristóteles retornou a questão da finalidade (o “telos”) destacando os estados afetivos de piedade e terror. A Tragédia não é só imitação de uma ação completa, tal imitação tem como “télos” suscitar o terror e a piedade. Ao suscitar tais emoções, o expectador vivencia uma catarse (“kátharsis”), uma purificação. A palavra catarse, deriva da linguagem da medicina com o significado de purgação. Usado também em experiencias religiosas, “kátharsin” refere-se às cerimônias de purificação a que se submetiam os iniciados. No sentido ético, significa o alívio do ânimo através da expressão das paixões como meio de libertar-se delas. Ao suscitar o terror e a piedade, a Tragédia tinha uma finalidade terapêutica. É curioso lembrar que o método psicanalítico foi inventado pela aplicação do método catártico por Freud em 1895.

O sentido ético da tragedia esta determinado por seu “telos”, sua finalidade. Ao articular a ética da psicanálise com o paradigma Antígona, Lacan reinscreveu a tradição aristotélica num campo clínico bem preciso: o tratamento dos sofrimentos neuróticos e psicóticos, conduzido por um psicanalista. A experiência trágica de uma psicanalise também suscita o temor e a piedade. A dimensão ética da catarse como purificação do ânimo através da libertação do peso das paixões, está presente na experiência clínica da psicanálise. “Não esqueçamos de que o termo catarse permanece singularmente isolado na Poética, onde o recolhemos”. Ao recolher esse termo, Lacan destacou os três níveis de significação da palavra “kátharsin” para ancorar sua interpretação no sentido ético-pedagógico: apaziguamento do ânimo através da liberação do peso das paixões (páthos).

Eudoro de Souza, comentando sua tradução da passagem da Poética em que a palavra “kátharsin” aparece, esclareceu que a mesma pode ser compreendida em quatro maneiras distintas: “catarse (operada por…) sobre tais emoções; catarse (operada) por tais emoções (sobre…); catarse (operada) por tais emoções (sobre elas mesmas); catarse de tais emoções (=expurgação ou eliminação de tais emoções”. As variações não escaparam à atenção de Lacan. Ele traduziu como: “meio que efetua pela piedade e pelo temor a catarse das paixões semelhantes a esta”.

Essa questão é decisiva na interpretação que fez da tragédia Antígona. Por isso, afirmou:  “O que promovemos mais particularmente concernindo ao desejo permite-nos fornecer um elemento novo à compreensão do sentido da tragédia, e isso por essa via exemplar, a função da catarse. Antígona nos faz, com efeito, ver o ponto de vista que define o desejo” (J.Lacan)

Indicações de Leitura:
Aristóteles, Poética. Tradução Eudoro de Souza. Edição Bilíngue. 2ª ed. São Paulo: Ars Poetica, 1993.
Sófocles, Antígona. Tradução Guilherme de Almeida. In: Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 1997.
Kathrin H. Rosenfield. Sófocles & Antígona. Coleção Filosofia Passo-a-passo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
Kathrin H. Rosenfield (org.) Filosofia e Literatura: o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
Albin Lesky, La Tragedia Griega. Barcelona: Editorial Labor, 3ª ed., 1970.
Denise Maurano, Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.

O retorno a Freud de Jacques Lacan: homenagem aos 110 anos de nascimento

Lacan com Freud

Na história da psicanálise e da cultura contemporânea, Jacques Lacan ocupa um lugar de rara singularidade. Formado em psiquiatria realizou sua residência médica na Delegacia de Polícia de Paris – para onde eram encaminhados os psicóticos que passavam ao ato de violências e crimes. Foi lá que encontrou Marguerite Anzieu. Transformada no caso Aimée, Lacan publicou sua tese em psiquiatria em 1932: Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade (Editora Forense Universitária).  Com o propósito de render homenagem às comemorações dos 110 anos do nascimento de Lacan, relembro seu encontro com  Aimée, a sua amada.

A jovem mulher deixou sua cidade natal, onde era casada e tinha um filho pequeno, para seguir a carreira de escritora em Paris. Na pobre bagagem carregava dois romances escritos nos intervalos de suas atividades como atendente do serviço de correio. A desejosa escritora almejava o sucesso de público. De tanto prezar seus escritos, Marguerite foi procurar um editor que pudesse acolher seu desejo e tornar público assim suas histórias de amor.

Na penúria de sua vida, almejava o reconhecimento de seus talentos e atributos de escritora, mulher de letras. Nas diversas tentativas de se fazer publicável encontrou recusa e humilhação. Abatida em seu projeto apanhou uma faca de caça na pensão onde morava e foi para a porta dos fundos do teatro esperar a famosa atriz Huguette Duflos. Aproximou-se e perguntou se ela era mesmo Duflos. Após ouvir a confirmação, lançou-se sobre ela com a arma em punho e com o olhar injetado de ódio.

Do atentado, a vítima saiu com dois tendões da mão seccionados por tentar se defender. Dominada pelos presentes, Marguerite é conduzida à delegacia policial. Convocada a explicar seu ato, responde que há muitos anos Duflos estava fazendo escândalos contra ela e que pretendia roubar seu filho. Depois de dois meses na prisão foi transferida para a clínica do Hospital Sainte-Anne. O relatório de perícia médico-legal fez constar que a paciente sofria de delírio sistematizado de perseguição à base de interpretações com tendências megalomaníacas e substrato erotomaníaco.

Jacques Lacan ficou siderado e passou ocupar a função de analista para interpretar o drama delirante dessa mulher de letras. Antes de sua transferência para Paris, Aimée havia sido internada na casa de saúde Épinay-sur-Seine, em 1924, a pedido de seu marido René Anzieu, lá permanecendo por seis meses. Lacan citou o laudo de internação que descrevia o quadro sintomatológico: “Fundo de debilidade mental, idéias delirantes de perseguição e de ciúme, ilusões, interpretações, propósitos ambiciosos, alucinações mórbidas, exaltação, incoerência de quando em quando. Ela acreditava que zombavam dela, que era insultada, que lhe reprovavam a conduta: queria fugir para os Estados Unidos”.

A seguir, citou as palavras da própria paciente, extraídas do laudo. Dentre elas, destaco: “Antes de qualquer coisa que querem de mim? Que eu construa para vocês grandes frases, que eu me permita ler com vocês esse cântico: Ouçam do alto do céu, o grito da Pátria, católicos e franceses sempre”. Construtora de grandes frases, Aimée encenava em delírios o drama constitutivo de sua psicose paranóica.

O caso Aimée foi a porta para Jacques Lacan adentrar no território da psicanálise. O artigo “O Problema Econômico do Masoquismo”, publicado por Freud em 1923, serviu de instrumento para Lacan apreender a psicose paranóica de sua Aimeé. Entrando na psicanálise pela psicose, Lacan revolucionou a prática psiquiátrica e abriu a perspectiva de uma clínica da neurose que pudesse reinscrever a lâmina cortante da verdade freudiana: os sintomas de sofrimento psíquico são estruturas de linguagem. Os sintomas são um modo de o sujeito enunciar sua verdade. Os sintomas falam e é preciso ouvir a verdade do que dizem.

Dessa premissa fundamental, extraiu as conseqüências de uma ética da psicanálise que não cessa de interrogar a clínica do sofrimento psíquico. De igual modo, o retorno a Freud foi a estratégia de Lacan para realizar uma ruptura radical  com as práticas moralizantes que submeteram a formação do psicanalista a um conjunto de enunciados com propósitos adaptativos e normalizadores.

Elisabeth Roudinesco

Elisabeth Roudinesco, com sua propriedade arquivista, publicou Lacan, a despeito de tudo e de todos (Zahar, 2011) para fazer “um balanço, não apenas da herança desse mestre paradoxoal, mas também da maneira pela qual meu trabalho foi comentado dentro e fora da comunidade psicanalítica”. Seu trabalho no caso é a monumental História da Psicanálise na França (em dois volumes publicado pela Zahar na década de 1980) e a intrigante biografia Jacques Lacan, esboço de uma vida , história de um sistema de pensamento (Companhia das Letras).

Trinta anos depois da morte de Lacan, o ensaio de memória de Roudinesco cartografou os principais embates na história da psicanálise contemporanea para concluir: “Cumpre, nos dias de hoje, instaurar uma nova prática do tratamento, uma nova psicanálise, mais aberta e mais à escuta do mal-estar contemporâneo, da miséria, dos novos direitos das minorias e dos progressos da ciência. Retorno a Freud, sim, releitura infiel de Lacan, certamente, mas longe de qualquer ortodoxia ou qualquer nostalgia de um passado morto. Além disso, inspiremo-nos na pertinência da interpretação de Antígona, na qual Lacan fazia de uma reflexão sobre o genocídio a condição de um renascimento da psicanálise. O gesto permanece válido hoje: a psicanálise não saberia ser outra coisa senão uma investida da civilização contra a barbárie” (p.134).

publicado em 2007 na França
Nesta singela homenagem ao nascimento de Lacan, indico aos leitores do blog o livro Trabalhando com Lacan como o registro testemunhal daqueles que conviveram com Lacan em situações de análise intencional, da prática de supervisão e como participantes dos Seminários proferidos de 1953 a 1979. Organizado por dois respeitáveis seguidores do ensino de Lacan, o livro recolhe discursos que não cessam de interrogar o fundamento ético do princípio estabelecido por Lacan para a formação do psicanalista: “o analista só se autoriza por si mesmo”.
 
Como disse Safouan, “conhece-se o ‘medo’, para utilizar o termo de Niels Bohr, que suscitou no seio da comunidade psicanalítica esse aforismo de Lacan. Mas, em vez de nos deixarmos invadir pela angústia, melhor nela nos apoiarmos para fazer esta pergunta que ele nos deixou: como uma análise que se dirige não ao Eu enceguecido pel miragem de sua autonomia, mas ao lugar de onde o desejo, indestrutível, faz o Aqueronte se curvar, prepara (a análise) o terreno para essa autorização?”  (p.11).
 
na web:
 
documentário “Jacques Lacan: a psicanálise reinventada”, escrito por Elisabeth Roudinesco e dirigido por Elisabeth Kapnist ( dublado em espanhol, disponível em 7 partes no youtube)

 http://www.youtube.com/watch?v=SsML-riI84A&feature=BFa&list=PL1EA97EBD2E57B833&lf=results_video

Neurose Histérica (1)

“A histeria foi a maneira efetiva pela qual as pessoas se defendiam da demência; a única maneira de não ser demente, num hospital do século XIX, era ser histérico (…) O histérico tem sintomas magníficos, mas, ao mesmo tempo, esquiva a realidade da sua doença; ele se coloca contra a corrente do jogo asilar e, nessa medida, saudemos os histéricos como os verdadeiros militantes da antipsiquiatria”

(Michel Foucault, aula de 23/jan/1974 no curso O Poder Psiquiátrico – Ed. Martins Fontes, p.325)

Em dezembro de 2009, Sir David Goldberg, renomado psiquiatra do King’s College de Londres, esteve no Brasil como convidado do Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Em sua conferência, interrogou seriamente o Manual de Diagnósticos e Estatísticas (DSM) da Associação Americana de Psiquiatria e o lugar do sofrimento psíquico na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde. Fez a seguinte advertência: “é urgente delimitar o que define a doença mental, e a melhor maneira de fazer isso é rotular apenas coisas para as quais haja evidência de que os tratamentos atuais com psicotrópicos sejam melhores do que placebo”. 

O Dr. Goldberg apontou o excesso de diagnóstico para os transtornos emocionais e categorias subclínicas. Com relação ao DSM, destacou: “há tendência de incluir no manual aquilo que se chama de depressão subclínica, abaixo do limiar para ser considerada transtorno. Eu me oponho a isso rigorosamente porque não gosto de medicalizar estados de tristeza moderada pelos quais todos nós passamos”. 

O Brasil é bicampeão em consumo de psicotrópicos – só perdemos para os americanos. Como sempre, nossos brothers levam sempre o ouro da indústria de psicofármacos. A advertência do nobre psiquiatra inglês precisa ser levada a sério. O excesso de diagnóstico para o sofrimento psíquico (anímico, diriam os clássicos) tem transformado a tristeza e a melancolia em doenças mentais. A promessa de felicidade plena e ininterruptura faturam bilhões de dólares. O problema não é o medicamento: é o seu uso indiscriminado. Qual a relevância de retornar ao clássico diagnóstico de neurose histérica para interrogar o discurso hegemônico do DSM-IV que transformou o sofrimento psíquico em transtorno de humor? Por que não há mais espaço para diagnóstico das psiconeuroses de histeria e obsessão? Doenças psíquicas dizem do estado de abatimento (sem ânimo), irritabilidade, agressividade, destruição física e simbólica de si mesmo e dos outros. O sofrimento psíquico transborda e abunda as relações cotidianas causando um transtorno de humor geral.

Freud pedia encarecidamente aos seus leitores que não cedessem a tentação de buscar uma base anatômica para o aparelho psíquico. O psíquico não é o cérebro. O psiquismo é um aparelho de linguagem: Isso fala! Essa passagem do somático ao psíquico encontra sua matriz nas célebres Lições sobre as Doenças do Sistema Nervoso, ministradas por Jean-Martin Charcot, publicadas em 1873 (o jovem Freud traduziu o livro para o alemão). 

Em janeiro de 1882 foi criada a primeira cátedra de “doenças nervosas” da Europa e o Dr. Charcot, nomeado titular dela. Pela primeira vez na história, a neurologia é reconhecida como disciplina autônoma no reino da fisiologia. No mesmo ano, o médico gaulês apresentou conferência na Academia de Ciências da França destacando os argumentos para conceber os fenômenos histéricos como de origem nervosa. Estava aberta a possibilidade de pensar a histeria como uma neurose de origem traumática. 

A noção de trauma psíquico permitiu isolar um grupo de sintomas designados como histeria. Trauma é a representação contrastante entre o evento físico e sua significação psíquica. Esta posição de Charcot apropria o conceito de neurose (inventado pelo médico escocês W. Cullen, em 1777, para designar as afecções mentais) do campo da doença orgânica para outro campo discursivo, que investiga a gênese do sofrimento psíquico no plano das representações: quais os sentidos que um sujeito atribui para os acontecimentos de sua vida?

Esquecendo se recorda: Freud e o nome Signorelli

Freud iniciou seu livro Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana analisando um fenômeno corriqueiro: o esquecimento de nome próprio. Para empreender a análise usou como exemplo um ato de esquecimento do nome do pintor Luca Signorelli que ocorreu consigo numa viagem de coche entre Ragusa e a uma cidade vizinha na Herzegovina. Durante a viagem, conversando sobre fotografias com um advogado de Berlim que o acompanhava, Freud recomendou ao interlocutor que visitasse a bela Catedral de Orvieto para contemplar os afrescos do ciclo do fim do mundo e do juízo final pintados por…. “O nome do pintor me escapava e não houve jeito de lembrá-lo. Forcei a memória, passei em revista a todos os detalhes dos dias em Orvieto e pude constatar que nenhum deles se atenuava ou se apagara. Conseguia, aliás, representar as imagens de forma mais viva do que normalmente consigo”.

Catedral de Orvieto

As imagens mais vivas que impregnavam o esquecimento do nome do pintor estavam associadas à visão da cena “A ressurreição da carne” pintada por Signorelli para compor o tema do Juízo Final na capela de San Brizio. A catedral de Orvieto, na região da Úmbria / Itália,  é uma construção em estilo gótico iniciada em 1347 sob a responsabilidade do arquiteto Andrea Pisano, que faleceu dois anos depois, transferindo a responsabilidade para o seu filho Nino Pisano (pintor e escultor da fase gótica italiana). Toda a fachada apresenta um fundo de mosaicos dourados. Seu interior, com três naves e uma planta cruciforme, é decorado com mármores brancos e pretos com impactante efeito plástico. Este cenário abriga uma coleção dos clássicos mestres do renascimento italiano, dentre eles, Fra Angelico e Luca Signorelli. A catedral sobreviveu às trágicas guerras permanecendo intocável através dos tempos.

Os Condenados - Signorelli

As cenas narrando os temas do Apocalipse e do Juízo Final compõem o ciclo de afrescos [com tamanho de aproximadamente 6 metros cada um] intitulados:”A História do Anti-Cristo”, “O Fim do mundo”, “A ressurreição da carne , “Os Condenados”, “Os Eleitos”, “O Paradiso” e “O Inferno”. Signorelli edificou sua obra sob o signo da força e do movimento revelando-se um dos mais brilhantes anatomistas de sua época. Pintou a figura humana como entidade arquitetónica expressando uma dramaticidade sem igual. Michelangelo inspirou-se nestas cenas retratadas por Signorelli para compor sua versão do Juízo Final no altar mor da capela Sistina.

A Ressurreição da Carne - Signorelli

“A ressurreição da carne” é o significante que inscreve o conflito psíquico vivido por Freud quando de sua visita a Orvieto. Antes de partir, escreveu para seu amigo Fliess: “Hoje, ao meio dia, partirei com Martha para o Adriático; se vamos ficar em Ragusa, Grado, ou algum outro lugar, será decidido no caminho”. Citou um proverbio para dizer de sua situação: “A maneira de enriquecer é vender a última camisa”. Estava abatido por não encontrar um substrato anatômico para sua escuta clínica dos sintomas histéricos: “o segredo dessa inquietação é a histeria. Na inatividade daqui e na ausência de qualquer novidade fascinante, todo esse negócio [a teoria da sedução] passou a me oprimir pesadamente a alma. Agora, meu trabalho me parece ter muito menos valor e minha desorientação parece completa”. Citando outro provérbio [“quem procura acha, frequentemente, muito mais do que deseja”] constatou: “A consciência é apenas um órgoão sensorial; todo conteúdo psíquico é apenas representação; todos os processos psíquicos são inconscientes”.

A retornar da viagem à Itália, escreveu a Fliess dizendo: “voltei há apenas três dias e todo mau humor de estar em Viena já se abateu sobre mim. É um perfeito martírio viver aqui, e isso não é clima em que possa sobreviver a esperança de se concluir coisa alguma”. Rebateu os argumentos de Fliess afirmando não ter a intenção de deixar “a psicologia suspensa no ar, sem uma base orgânica”. No entanto, não encontrava um modo de ajustar a escuta clínica com os pressupostos da neuro-fisiologia: “não sei como prosseguir, de modo que preciso comportar-me como se apenas o psicológico estivesse em exame. Por que não consigo encaixá-los [o orgânico e o psíquico] é algo que nem sequer começei a imaginar”.

Os Eleitos - Signorelli

Essa carta de 22/09/1898 é a mesma em que aparece o segundo exemplo de análise do esquecimento de nome próprio e envolvia a viagem a Orvieto e a cena da “ressurreição da carne” de Signorelli. Esta análise  foi publicada no mesmo ano como num pequeno ensaio, “O mecanismo psíquico do esquecimento”. Na carta registrou que o esquecimento do nome Signorelli estava ligado ao contexto da conversa com o companheiro de viagem: “Na conversa, que despertou lembranças que obviamente causaram o recalcamento, falamos sobre a morte e a sexualidade”. Os temas da conversa fora atravessados pela imagem dos corpos esculpidos/pintados por Signorelli. “Como posso tornar isso crivel aos olhos de outrem?”,  perguntou Freud diante de seu embaraço em encaixar o somático e o psíquico e justificar assim o recalcamento: o fato de não haver representação psíquica para a morte e a sexualidade.

 Indicações:

Correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904). Editado por Jeffrey Moussaieff Masson. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1986.

http://www.bellaumbria.net/Orvieto/cappella_san_brizio_eng.htm

http://www.pitoresco.com.br/italiana/signorelli.htm

http://www.tempofreudiano.com.br/artigos/detalhe.asp?cod=48

FREUD, GRODDECK E NIETZSCHE: ENTORNO dISSO

No tempo em que construía o segundo modelo de funcionamento do aparelho psíquico, Freud leu O Livro dIsso escrito por Georg Walther Groddeck em 1921. Neste opúsculo epistolar [inicialmente nomeado, “Cartas a uma amiga sobre a psicanálise], Groddeck deixou claro sua fonte inspiradora: “Quanto a minhas cartas, vou dar-lhe a chave para o deciframento delas: tudo o que lhe parecer razoável ou apenas um pouco insólito provém diretamente do professor Freud, de Viena, e de seus discípulos; o que lhe parecer totalmente fora de propósito é de minha paternidade” (p. 17). Freud não poderia ter recebido reconhecimento maior de alguém que antecipou, em muito, sua invenção: os fundamentos da clínica psicanalítica. Na carta 2, Groddeck afirmou seus princípios na direção do tratamento que realizava no sanatório de Banden-Banden na Alemanha desde 1895: “Acredito que o homem é vivido por algo desconhecido. Existe nele um Isso, uma espécie de fenômeno que comanda tudo que ele faz e tudo o que lhe acontece. A frase ‘Eu vivo…’ é verdadeira apenas em parte; ela expressa apenas uma pequena parte desse verdade fundamental: o ser humano é vivido pelo Isso. É desse Isso que falarei em minhas cartas” (p.9).

O título das cartas faz um jogo metonímico, por um deslocamento homofônico, relacionando livro com livrar. Desse modo, o livro dIsso é um ensinamento para se livrar dIsso. Groddeck estava convencido que “desse Isso conhecemos apenas aquilo que está em nosso consciente. A maior parte do Isso – e de longe a maior parte! – constitui um setor em princípio inacessível (…) É que o Isso é bem estranho [e inquietante], e não leva em consideração a ciência anátomo-fisiológica; ele refaz por si mesmo o feito de Zeus, segundo a velha  lenda ateniense, e dá a luz pela cabeça” (pp. 9 e 14). Como então se livrar dIsso? Engajar-se na produção de novas significações simbólicas através de um permanente cuidado de si. Livrar dIsso é ouvir/significar o que Isso quer dizer: o sintoma fala, o sonho fala, o ato é falho.

Freud soube retribuir a generosidade de seu amigo Groddeck ao indicar um novo estatuto para o inconsciente na 2ª tópica. No livro O Eu e o Id [Isso] publicado em 1923, citou textualmente O Livro dIsso: “penso que não devemos hesitar em atribuir o devido valor a essa concepção de Groddeck [‘nós somos vividos por forças desconhecias e incontroláveis’] e dar-lhe um lugar no conjunto da ciência. Proponho, assim, denominarmos este ente que provém do sistema pré-consciente de o Eu [das Ich] e, seguindo Groddeck, aquele outro psíquico, no qual o Eu se prolonga e que se comporta de forma inconsciente, de o Id (o Isso) [das Es]” (p.37).  Ao atribuir esse crédito, Freud inseriu uma nota de rodapé indicando um parentesco semântico curioso entre Groddeck e Nietzsche. E, mais interessante ainda é o modo como Freud se insere nesta linhagem de sentido para o inconsciente. 

Um breve exercício de comparação entre três traduções distintas desta nota permite depreender o entorno, o contorno da interlocução possível entre Freud e Nietzsche mediado por Groddeck:

1) Standard Brasileira das Obras Completas: “O próprio Groddeck, indubitavelmente, seguiu o exemplo de Nietzsche, que utilizava habitualmente este termo gramatical [das Es] para tudo que é impessoal em nossa natureza e, por assim dizer, sujeito à lei natural” (p.37)

2) Obras Psicológicas: “Groddeck parece ter seguido o exemplo de Nietzsche, onde esta expressão gramatical [das Es] é usada para o impessoal e para designar aquilo que é, por assim  dizer, expressa as imposições da natureza no nosso ser” (p. 82 – há um equívoco na tradução coordenada por Luiz Alberto Hanns; como está, parece que a nota é do editor inglês e não do Freud).

3) Obras Completas: “Groddeck sigue el ejemplo de Nietzsche, el cual usa frecuentemente este término [das Es] como expresión de lo que en nuestro ser hay de impersonal” (p.2707).

O reconhecimento da presença de Nietzsche em Groddeck demonstra que Freud conhecia as posições de Nietzsche sobre o inconsciente. E mais, demonstra também que Nietzsche foi um leitor dos livros publicados pelo pai de Groddeck, o médico alemão Karl Groddeck. Vejam que estranha relação: Groddeck (pai) – Nietzsche – Groddeck (filho) – Freud.

Indicações bibliográficas:

FREUD, Sigmund “O Ego e o Id” In: Edição Standard  Brasileira das Obras Completas, volume XIX. Tradução José Otávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, S. “O Eu e o Id” In: Escritos sobre psicologia do inconsciente. Volume III – Coordenação geral da tradução Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2007.

FREUD, S. “El Yo y el Ello” In: Obras Completas – Tomo III – Tradução de Luis Lopes-Ballesteros y de Torres. Espanha: Ediotrial Biblioteca Nueva, 1973.

GRODDECK, Georg O Livro dIsso. Tradução José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 3ªed., 1991.

 http://bibliotecadelpsicoanalista.blogspot.com/2009/09/entre-los-psicoanalistas-georg-groddeck.html

 http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs25/aclinicanaconfluencia.htm

http://www.youtube.com/watch?v=orFP8GIvaJo  [breve apresentação de uma proposta de trabalho que foi interrompida na Unimep e, de algum modo, deslocada para os objetivos do curso “Freud, Leitor de Nietzsche” que terá início no próximo dia 16/08/2010]

CURSO DE EXTENSÃO EM PSICANÁLISE

FREUD, LEITOR DE NIETZSCHE

Período: 16 e 30/08  –  20/09   –   04 e 25/10   –   29/11   –   13/12   –  Horário: 19:30 as 21:30

Custo: R$ 210,00 (em 3 parcelas)

Local: Clínica de Psicanálise –  Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba/SP.

Vagas limitadas: 15    

Inscrição: mmariguela@gmail.com

Coordenação: Márcio Mariguela 

Sigmund Freud em 1938

1. Objetivo: As aulas deste módulo de ensino e transmissão da psicanálise propõem uma interlocução entre pontos específicos da obra de Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche: 

– em nota de rodapé no livro O Ego e o Id [das Ich und das Es], publicado em 1923, Freud destacou que usaria o pronome es para designar o inconsciente na segunda tópica do funcionamento do aparelho psíquico. Desse modo, manteria o mesmo sentido gramatical utilizado por Nietzsche para tudo o que é impessoal em nossa condição de animal falante.

– nos aforismos: 8 “Virtudes Inconscientes”; 333 “O que significa conhecer”; 354 “Do gênio da espécie”, publicados em 1882 no livro A Gaia Ciência, Nietzsche utiliza o pronome es (pessoal do gênero neutro) para designar o inconsciente como tudo o que é impessoal em nós, aquilo que nos é mais estranho e por isso mesmo o mais familiar.     

Friedrich Nietzsche

2- Justificativas

Diferentes autores elegeram a relação Freud-Nietzsche como tema de investigação. Paul-Laurent Assoun, por exemplo, comentou a estranha contemporaneidade entre Freud e Nietzsche, citando a ata da Sessão de 01 de Abril de 1908 da Sociedade Psicanalítica de Viena em que Freud afirmou não conhecer a obra de Nietzsche, que nunca conseguiu estudá-lo, e não conseguia passar além de meia página nas tentativas de lê-lo. Citou também duas outras ocasiões em que Freud disse ter recusado o grande prazer proporcionado pela leitura de Nietzsche e ter evitado, por muito tempo, o contato com sua escrita

Michel Foucault também se interrogou sobre a estranha contemporaneidade entre Freud e Nietzsche. Na conferência de 1964, alinhou Nietzsche, Freud e Marx para analisar as rupturas que cada um, a seu modo, realizou na hermenêutica moderna: “No primeiro volume do Capital, textos como o A Genealogia da Moral e a A Interpretação dos Sonhos, situam-nos de novo diante de técnicas interpretativas. E o efeito do seu impacto, o gênero de ferida que estas obras produziram no pensamento ocidental, deve-se provavelmente ao fato de terem significado para nós o que o mesmo Marx qualificou de ‘hieroglíficos’. O que nos coloca numa posição incômoda, já que estas técnicas de interpretação nos dizem respeito, e que nós, como intérpretes, temos que interpretar-nos a partir destas técnicas”.

Esta referência ao argumento de Foucault define também a perspectiva adotada para o desenvolvimento das aulas: Nietzsche ocupa a função autor na obra de Freud. Na literalidade é possível traçar – ou mesmo cartografar – um campo de investigação: o lugar do estranho, da outra cena, do impessoal para designar o inconsciente. Dele se ocupou Nietzsche e, como leitor de A Gaia Ciência, Freud deu ao inconsciente um novo estatuto: estabelecendo assim, uma ruptura e descontinuidade com a função que o mesmo ocupava na primeira tópica do aparelho psíquico: desde a Interpretação dos Sonhos em 1900 até o Mais-Além do Princípio do Prazer, publicado em1920.

 3 – Bibliografia Básica:

FREUD, Sigmund “O Eu e o Id” In: Escritos sobre psicologia do inconsciente. Volume III. Coordenação geral da tradução Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2007.

FREUD, Sigmund “O Inquietante” In: Coleção Obras Completas. Tradução Paulo César Souza. volume 14. São Paulo: Cia das Letras, 2010. 

FREUD, Sigmund “Conferência XXI – Dissecção da personalidade psíquica”. In: Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise – Coleção Standard das Obras Completas, vol. XXII, Rio de Janeiro: Imago, 1994. 

NIETZSCHE, Friedrich A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

ASSOUN, Paul-Laurent Freud & Nietzsche: semelhanças e dessemelhanças. São Paulo: Brasiliense, 1989.

FOUCAULT, Michel “Nietzsche, Freud e Marx” In: Ditos & Escritos II – Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

GAY, Peter Freud, uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

LEFRANC, Jean Compreender Nietzsche. Petrópolis-RJ: Vozes, 2005.

MARIGUELA, M. “A função autor na instauração da discursividade” In: Psicanálise e Surrealismo: Lacan o passador de Politzer. Piracicaba:  Jacintha Editores, 2007.

MARIGUELA, M. “Freud, Nietzshe y la genealogía de la civilización” In: Delito y Sociedad – Revista de Ciências Sociales – Año 18, nº 27.       Argentina, 2009.

 MARIGUELA, M. “Freud e Nietzsche: ontogênese e filogênese” In: Impulso – Revista de Ciências Sociais e Humanas, volume 12, nº 28,   Piracicaba: Editora Unimep, 2001. [artigos disponíveis em: www.marciomariguela.com.br/artigos/revistas]

Grupo de Estudos: Leituras de Freud

Jacques Lacan, psicanalista francês, iniciou na década de 1950 um movimento retorno a Freud, defendendo a ética da psicanálise contra os apologistas da moral do ressentimento. Lacan tornou-se assim um dos autores mais inventivos na história da psicanálise. Amado e odiado com igual intensidade, seus “Escritos” e “Seminários” marcaram decisivamente a cultura contemporânea. Fundador de Escola soube incorporar em sua prática clínica toda a tradição filosófica do Ocidente, restaurando a lâmina cortante da verdade freudiana. Interrogando os psicanalistas de seu tempo, os convocou a responderem sobre o lugar que ocupam no tratamento do sofrimento psíquico e na extensão política de seu discurso e prática clínica.

Lacan com Freud

O retorno a Freud implicou a re-inscrição de um discurso num domínio novo, pois como afirmou Michel Foucault na conferência “O que é um autor?” de 1969: “retorna-se ao que está marcado pelo vazio, pela ausência, pela lacuna no texto. Retorna-se a um certo vazio que o esquecimento evitou ou mascarou, que recobriu com uma falsa ou má plenitude e o retorno deve redescobrir essa lacuna e essa falta” . Daí esse perpétuo jogo que caracteriza esses retornos à instauração discursiva: “jogo que consiste em dizer por um lado: isso aí estava, bastaria ler, tudo se encontra aí; e, inversamente: não, não esta nesta palavra aqui, nem naquela ali, nenhuma das palavras visíveis e legíveis diz do que se trata agora”.

Presente na conferência de Foucault, Jacques Lacan tomou a palavra ao final para expressar sua gratidão afirmando: “o retorno a Freud foi uma espécie de bandeira que levei em punho na conquista do campo freudiano; nesse aspecto, só posso agradecer-lhe: você correspondeu inteiramente à minha expectativa. A propósito de Freud, evocando especialmente o que significa o retorno a, tudo o que você disse me parece, pelo menos do ponto de vista em que eu pude nele contribuir, perfeitamente pertinente”.

O movimento de retorno a Freud foi instaurado pela retomada de três livros fundadores: “A Interpretação dos Sonhos”, “Sobre a Psicopatologia do Cotidiano” e “O chiste e suas relações com o inconsciente”. Nelas Lacan encontrou as indicações precisas para cartografar o campo psicanalítico. A proposta do Grupo de Estudos, nomeado no plural, “Leituras de Freud” tem como objetivo seguir os trilhamentos do movimento de retorno a Freud resgatando um trabalho de leitura dos livros escolhidos por Lacan. Vamos iniciar com “Sobre a Psicopatologia do Cotidiano”, publicado em 1901.

Jacques Lacan

O Grupo de Estudos está inserido no projeto Psicanálise em Extensão e terá início no mês de agosto de 2010 com encontros quinzenais sempre na 2ªfeira das 19h30m as 21h30m. Os encontros ocorrerão na Clínica de Psicanálise situada na Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba-SP. Os interessados deverão enviar email para mmariguela@gmail.com e agendar uma entrevista. Há 15 vagas disponíveis.

A luta antimanicomial e experiência da loucura

(versão na íntegra do artigo publicado em 22/06 no Jornal de Piracicaba)

Numa entrevista ao jornal Corriere della Sera, em 11/set./1981, quando da morte do psicanalista Jacques Lacan, Michel Foucault afirmou: “ser psicanalista para Lacan supunha uma ruptura violenta com tudo o que tendia a fazer depender a psicanálise da psiquiatria, ou fazer dela um capítulo sofisticado da psicologia. Ele queria subtrair a psicanálise da proximidade da medicina e das instituições médicas, que considerava perigosa. Ele buscava na psicanálise não um processo de normalização dos comportamentos, mas uma teoria do sujeito”.

Lembrei-me dessa entrevista enquanto pesquisava na internet as notícias das diversas atividades realizadas em todo Brasil pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no Dia Nacional de Luta Antimanicomial, celebrado na última terça-feira (18/maio). A data foi escolhida em 1987 em Bauru, São Paulo, onde ocorreu o Congresso de Trabalhadores de Serviços de Saúde Mental. As atividades serviram para chamar a atenção da sociedade para as diferentes práticas de acolhimento às pessoas abatidas pelo sofrimento psíquico. O evento merece todo o respeito e apoio num momento em que ocorrem as plenárias municipais e estaduais para escolherem os delegados que participarão, com direito a voz e voto, da IV Conferência Nacional de Saúde Mental.

No site do Ministério da Saúde, a Política Nacional de Saúde Mental, apoiada na Lei 10.216/02, é apresentada com o seguinte objetivo: “busca consolidar um modelo de atenção à saúde mental aberto e de base comunitária. Isto é, que garante a livre circulação das pessoas com transtornos mentais pelos serviços, comunidade e cidade, e oferece cuidados com base nos recursos que a comunidade oferece. Este modelo conta com uma rede de serviços e equipamentos variados, tais como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), os Centros de Convivência e Cultura e os leitos de atenção integral (em Hospitais Gerais, nos CAPS III). O Programa de Volta para Casa, que oferece bolsas para egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos, também faz parte desta Política”.

Os serviços de saúde pública voltado ao atendimento “de pessoas com transtornos mentais” partem de determinadas circunstâncias históricas que envolvem aspectos políticos e epistemológicos (a construção de um saber sobre a loucura). A construção de diagnóstico e o tratamento da experiência da loucura dependem de uma definição básica: a loucura é uma doença mental. O próprio conceito de “transtorno mental” para designar as pessoas abatidas pelo sofrimento psíquico já está contido nessa premissa básica. Mas desde quando a experiência da loucura foi designada como doença mental?

A criação dessa data comemorativa deu visibilidade ao Movimento da Luta Antimanicomial que, por sua vez, seguia os trilhamentos do movimento da antipsiquiatria instaurado pelos surrealistas na França e o pela Reforma Psiquiátrica, surgido na Itália nos anos 70. As condições de confinamento asilar dos manicômios psiquiátricos foram denunciadas ao longo de décadas e travou-se uma luta contínua para libertar os loucos da condição subanimal em que viviam. O Museu da Loucura em Barbacena (MG) nos dá um exemplo da situação retratando quem eram os loucos internados nos manicômios (www.youtube.com/watch?v=-2O0WlW5pFc).

As práticas de internamento da loucura possuem uma história. Até 1650, a cultura ocidental foi estranhamente hospitaleira à experiência da loucura. A partir daí ocorreu brusca mudança: o mundo da loucura vai se tornar o mundo da exclusão. Por toda a Europa, a prática do internamento era uma medida de assistência social, sem vocação médica alguma. Na França, por exemplo, cada grande cidade terá seu Hospital Geral, para onde são encaminhamos os loucos, os pobres inválidos, os velhos na miséria, os mendigos, os desempregados, os usuários de ópio, os portadores de doenças venéreas e demais rebotalhos sociais. O internamento não visava ao tratamento específico dos loucos. Seu propósito, até a Revolução Francesa, era reestruturar o espaço social: fazer uma higienização das ruas e praças, recolhendo todos os desvalidos e encaminhando-os à internação no Hospital Geral. O modelo republicano implantado libertou os pobres e desvalidos do internamento, reservando o espaço apenas para os loucos: os herdeiros naturais do internamento.

Foucault em seu livro-acontecimento História da Loucura na Idade Clássica (Ed. Perspectiva), delineou a constituição histórica da loucura como doença mental, afirmando que, antes do século 19, a experiência da loucura era bastante polimorfa, tendo sido com o advento das práticas de internamento no Hospital Geral que a categoria de doença mental começou a ser construída para diagnosticar os loucos e aplicar técnicas corretivas de tratamento: “numa época relativamente recente o Ocidente concedeu um status de doença mental à loucura e as práticas de internamento adquiriram uma nova significação tornando-se medida de caráter médico”. É nesse contexto que a psiquiatria será inventada e uma psicopatologia, construída.

A atualidade da luta antimanicomial está diretamente ligada às reivindicações por políticas públicas que possam acolher em tratamento e cuidados aqueles afetados pela experiência da loucura. Ocorre que a loucura perdeu seu diagnóstico diferencial ao ser subjulgada pela categoria de doença mental. Os protocolos e consensos na comunidade científica definem a experiência da loucura como doença mental e determinam políticas públicas de atendimento em saúde mental. Os diagnósticos da loucura, feitos com base no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM IV) e na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 10), dominam hegemonicamente os discursos e práticas de atenção à saúde mental e pouco contribuem para um avanço significativo no tratamento da experiência da loucura.

Como os trabalhadores do campo da saúde mental podem se desvencilhar dessa armadilha construída historicamente que captura os discursos e práticas de resistências? Como os cuidadores, que acolhem os abatidos pelo sofrimento psíquico, podem restituir a experiência da loucura como um modo de enunciação da verdade do sujeito, como um grito de desespero e demanda de amparo?

FREUD E O MOISÉS DE MICHELANGELO

No outono de 1913, Sigmund Freud passou várias tardes diante da monumental figura de Moisés, esculpido no mármore por Michelangelo como ornamento para túmulo do Papa Julio II. Diante do patriarca hebreu, Freud tomou uma difícil decisão que determinou os rumos da história da psicanálise: expulsou Carl Gustav Jung do movimento psicanalítico e assumiu a condição de criador e inventor da prática clínica e da teoria do inconsciente. Dois artigos demonstram esta decisão: “Moisés de Michelangelo”, publicado anonimamente, e “História do Movimento Psicanalítico”, ambos publicados em 1914.

Sigmund Freud e Carl Gustav Jung

Desde os tempos de juventude, Freud nutria o desejo de visitar Roma. No livro As Cidades de Freud (Jorge Zahar Editor), o psicanalista italiano Giancarlo Ricci narrou os itinerários das viagens de Freud a partir de um meticuloso trabalho de pesquisa no conjunto das cartas escritas pelo inventor da psicanálise: “por muitos anos, Freud aproxima-se, ronda, pensa em dar o passo decisivo, mas depois adia. Estuda os mapas toponomásticos da cidade eterna até a noite, lê livros de arqueologia e de história. Mas espera e adia, quase como se Roma constituísse o umbigo de sua aventura. O que o faz hesitar? Só depois da morte do pai, em 1896, ousa finalmente ir a Roma, símbolo e pretexto de vários desejos ardentemente acalentados. Durante sete anos suas viagens à Itália resultam labirínticas: Veneza, Pádua, Florença, Pisa, Livorno, Siena, Orvieto, Trento, Milão”.  Chegou finalmente em Roma em setembro de 1901, depois de publicar sua obra fundadora, A Interpretação dos Sonhos: “meu desejo de ir a Roma é profundamente neurótico”, escreveu ao amigo Fliess. Roma é para ele o emblema da audácia, uma etapa absolutamente decisiva em sua vida. Retornou a Roma vária outras vezes, sempre que precisa tomar uma decisão importante.

Moisés

Freud disse em carta à sua esposa Martha: “Visito diariamente o Moisés e acho que poderia escrever umas poucas palavras sobre ele”. O que mais o intrigava era exatamente o fato do quanto essa obra o intrigava: “ao longo de três semanas solitárias de setembro, detive-me diariamente na igreja diante da estátua, estudei-a, medi-a, sondei-a, até que me veio a compreensão que só ousei expressar no papel anonimamente”.  

Nos primeiros parágrafos do artigo, “Moisés de Michelangelo” , Freud observou: “as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura e ,com menos, freqüência, a pintura. Isto já me levou a passar um longo tempo contemplando-as, tentando apreendê-las á minha própria maneira, isto é, explicar a mim mesmo a que se deve o seu efeito (…) Uma inclinação psíquica em mim, racionalista ou talvez analítica, revolta-se contra o fato de  comover-me com uma coisa sem saber porque sou assim afetado e o que é que me afeta”

 O Moisés de Michelangelo tornou-se objeto de admiração estética ao longo dos séculos. É considerado um dos marcos da arte renascentista. Os traços heróicos do patriarca serviram a muitos debates sobre a intencionalidade do criador. A cena bíblica (Ex 32, 1-24) escolhida  para esculpir o Moisés é  um referencial interpretativo para diferentes autores. Freud também se sentiu comovido pela monumental escultura de Michelangelo. Desde a primeira visita a Roma, ficou fascinado com a obra. Nenhuma outra obra de arte jamais o impressionara tanto. Nunca deixou de considerá-la atordoante e magnífica.

Moisés arremessando as Tábuas da Lei

 Se o objetivo da interpretação psicanalítica era buscar o desejo do artista através da obra, o artigo “Moisés de Michelangelo”,  apresentou a seguinte questão: qual o momento na vida de Moisés que Michelangelo reproduziu no mármore? No livro do Êxodo encontra-se a resposta:  “Foi a descida do Monte Sinai, onde Moisés recebera de Deus as Tábuas, o momento em que o povo havia naquele meio-tempo feito para si um bezerro de ouro e estava dançando em torno dele e rejubilando-se. Esse é o espetáculo que evoca os sentimentos representados em seu semblante – sentimentos que no instante seguinte se transformará em ação violenta. Michelangelo escolheu esse último  momento de hesitação, de calma antes da tempestade, para representar o homem Moisés. No instante seguinte, Moisés se erguerá – seu pé esquerdo já se alçou do solo – arremessará as Tábuas por terra e desencadeará sua cólera sobre o povo infiel”

detalhe do olhar

O conflito entre a calma exterior e a emoção interior pode ser analisado pelos olhos (perplexidade), pela postura da mão direita (ira reprimida) e a posição do pé (ação projetada) que indica o instante em que Moisés vai lançar ao chão as Tábuas da lei recebida no monte Sinai. O patriarca hebreu foi esculpido no instante  que antecede ao ato de levantar-se de arremessar as Tábuas. A cena escolhida por Michelangelo simbolizava a própria situação vivida por Freud neste período: o conflito com Jung. O estado emocional de Freud encontrou na obra de Michelangelo seu significante: irado, levantou-se para denunciar as apropriações indevidas que Jung fez de sua criação: a psicanálise. Contra o afastamento dos seguidores de sua descoberta original, Freud assume a defesa de sua obra e ataca com cólera seus desertores.

Freud iniciou seu relato na “História do Movimento Psicanalítico” anunciando: ” a psicanálise é criação minha; durante mais de dez anos fui a única pessoa que se interessou por ela, e todo o desagrado que o novo fenômeno despertou em meus contemporâneos desabou sobre a minha cabeça em forma de críticas. Embora de muito tempo para cá eu tenha deixado de ser o único psicanalista existente, acho  justo continuar afirmando que ainda hoje ninguém pode saber melhor  do que eu o que é psicanálise, em que ela difere de outras formas de investigação da vida mental. O que deve precisamente ser denominado de psicanálise e o que seria melhor chamar de outro nome qualquer”. Nesta  airmação podemos reconhecer as mesmas feições do patriarca Moisés, esculpido por Michelangelo

O primeiro encontro de Freud com o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung ocorreu em  Viena em fevereiro de 1907. Nele, Freud depositou a esperança de ter um herdeiro para dar continuidade da causa. No entanto, as posições teóricas de Jung o afastavam cada vez mais da premissa freudiana: a sexualidade como fator etiológico das neuroses.

A presença de Jung no movimento psicanalítico crescia. Ele acompanhou Freud aos Estados Unidos em 1909, onde  expôs pela primeira vez na academia os resultados de seu trabalho. No segundo congresso da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), realizado em março de 1910, Freud declarou que Zurique era a terra prometida da psicanálise e decidiu confiar a um não-judeu, ou seja, a Jung, a direção da organização. Como presidente da IPA, Jung organizou o terceiro e o quarto congresso. Neste último, realizado em Munique em setembro de 1913, os partidários de Freud exigiam que Jung renunciasse a suas funções.

Freud então viagou para Roma a fim de buscar o significante de sua decisão e na volta escreveu a primeira “História do Movimento Psicanalítico” anunciando que a psicanálise era uma invenção sua e somente ele poderia dizer o que era ou não próprio ao campo daquilo que ele inaugurou.

Psiquê e o complexo de castração

Este foi o título escolhido para a aula de 12 de abril de 1961 do Seminário, livro 8 – a transferência (Jorge Zahar Editor) ministrado por Jacques Lacan nas dependências do hospital Saint-Anne em Paris.  Na abertura dessa aula, Lacan contou uma experiência de olhar para onde nunca se olha. Narrou que estava visitando o museu da Galeria Borghèse e, num relance, viu um quadro de Jacopo Zucchi que nunca tinha ouvido falar: “trata-se de um quadro que se chama “Psiche sorprende Amore”, isto é, Eros. É a cena clássica de Psiquê elevando sua pequena lâmpada sobre Eros, que é, já algum tempo, seu amante noturno, nunca visto” (p.220).

O que mais chamou a atenção de Lacan foi que jamais tinha visto uma representação de Psiquê armada com um pequeno trinchante [ faca grande usada para trinchar a carne]: uma cimitarra [espada de lâmina curva mais larga na extremidade livre, com gume no lado convexo, usada por certos povos orientais (árabes, turcos, persas) especialmente pelos guerreiros muçulmanos]

Esta imagem de Psiquê armada foi destacada por Lacan em comparação com o buquê de flores sobre o “falo de Eros”.

Jacopo Zucchi

Bela metáfora para encantar seus ouvintes e levá-los ao cerne do problema proposto: “o que a experiência analítica nos revela é que, mais precioso que o próprio desejo, é guardar o seu símbolo, que é o falo. Eis o problema que nos é proposto. Espero que tenham notado bem, no quadro, as flores que estão ali diante do sexo de Eros. Elas são, justamente, marcadas por uma tal abundância apenas para que não se possa ver que, por detrás, não há nada. Não há lugar, literalmente, para o menor sexo. Aquilo que Psiquê está ali a ponto de cortar, já desapareceu diante dela” (p.229).

Para Lacan, o paradoxo do complexo de castração está concentrado nessa imagem construida pelo pintor itáliano: “o orgão só é trazido e abordado se transformado em significante, e para ser transformado em significante ele é cortado” (p.229).

As flores sobre o falo de Eros já o inscreve como signo da ausência, de uma ausência presentificada: “o que lhes ensinei é o seguinte:  se phi, o falo como significante, tem um lugar, é, muito precisamente, o de suplência no ponto onde, no Outro, desaparece a significância – onde o Outro é constituido por haver, em algum lugar, um significante que falta” (p.230)

Na aula seguinte, Lacan destacou o ato de Psiquê: “satisfeita, ela se interroga sobre com que está lidando, e é este instante preciso, privilegiado, que o artista reteve, talvez muito além daquilo que ele próprio poderia articular quanto a isso num discurso (…) O artista, nessa imagem, captou aquilo a que chamei, da última vez, o momento de aparição, do nascimento , da Psiquê, essa espécie de troca de poderes que faz com ela ganhe corpo. Vai se suceder todo o cortejo de desgraças que serão as suas antes que ela feche o seu circuito, e reencontre então aquilo que, naquele instante, vai desaparecer para ela no instante seguinte, o que ela quis desvelar e capturar, a figura do desejo” (p.236).