Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para Psicanálise

Koyré, guia de Lacan

 

No escrito  “A ciência e a verdade”, Jacques Lacan disse que Alexandre Koyré era seu guia na empreitada de inscrever o objeto da psicanálise e dar um passo adiante no movimento de retorno a Freud.  O texto foi publicado como aula estenografada da abertura do Seminário O Objeto da Psicanálise, em 1965-1966.  Apareceu no primeiro número dos Cahier pour l’Analyse  em janeiro de 1966 – periódico do Circulo de Espistemologia da Escola Normal Superior –  e foi incluido como último texto do conjuntos dos Escritos (Jorge Zahar Editor), publicados em 1966.

Guia é uma palavra bonita para designar, pela nomeação, o campo da investigação epistemológica no qual Lacan cerziu [do verbo cerzir: coser, remendar com pontos miúdos, quase imperceptíveis; juntar (algo) sob núcleo comum; reunir, combinar, incorporar] o objeto da psicanálise.

No HOUAISS ELETRÔNICO encontramos, dentre outros, os seguintes sentidos para o verbete Guia:

–  ato ou efeito de guiar;  documento com que se recebem mercadorias ou encomendas ou que as acompanha para poderem transitar livremente;  formulário com que se fazem recolhimentos às repartições arrecadadoras do Estado; autorização, permissão; dispositivo (como régua, linha, aro, presilha, esquadro) que serve para orientar ou regular o movimento de uma ferramenta, de uma máquina ou da mão; pessoa que acompanha ou dirige outra(s) para mostrar-lhe(s) o caminho; ­ aquele ou aquilo que serve de diretriz, de modelo; que inspira uma pessoa.

Também na rubrica do vocábulo militar, guia  designa, em operações aeroterrestres, a equipe lançada num objetivo para instalar e acionar os meios de sinalização, bem como guiar os aviões para as áreas de lançamento ou de pouso.

Na umbanda, religião regional do Brasil, guia  é cada um dos seres espirituais, já em elevado nível de evolução que orientam, através dos médiuns, os que os consultam quanto ao seu caminho ao aperfeiçoamento, funcionando tb. como entidades protetoras dos médiuns e de seus terreiros

“Koyré é nosso guia aqui, e sabemos que ele é ainda desconhecido”

Alexandre Koyré (1892-1964) é um dos mais respeitados historiadores das ciências. Em seus estudos sobre Galileu, iniciados por volta de 1935, mostrou que o movimento da revolução científica, que levou à destruição do cosmos medieval, era a princípio inspirada por uma oposição entre o platonismo e o aristotelismo a propósito do papel desempenhado pelas matemáticas para a compreensão do mundo. Para os platônicos, dos quais Galileu fazia parte, as matemáticas comandavam o universo, ao passo que para os aristotélicos, que representavam a antiga escolástica, era a física, como ciência do real, que ocupava esses lugares superiores, independentes das matemáticas ocupadas com objetos abstratos. Koyré teorizou o sujeito da ciência moderna, que tendo perdido a referência de um cosmo ordenado por Deus, terá de buscar em si mesmo um ponto fixo a partir do qual possa garantir a certeza: o cogito cartesiano.

Entre 1951 e 1953, Koyré ministrou um conjunto de conferências na Johns Hopkins University (USA), com o objetivo de definir os modelos estruturais da antiga e da nova concepção de mundo e determinar as mudanças acarretadas pela revolução do século XVII. As conferências foram publicadas em Do mundo fechado ao universo infinito (Editora Forense Universitária). Dois argumentos centrais sustentam as teses do autor: a destruição do cosmo pela matematização do espaço e a invenção do Universo como espaço infinito.

1º) “a substituição da concepção de mundo como um todo finito e bem ordenado, no qual a estrutura espacial materializava uma hierarquia de perfeição e valor, por um universo indefinido, ou mesmo infinito, não mais unido por subordinação natural, mas identificado e unido por seus componentes supremos básicos”.

2º) “a substituição da concepção aristotélica do espaço, um conjunto diferenciado de lugares intramundos, pela concepção da geometria euclidiana -uma extensão essencialmente infinita e homogênea-, a partir de então considerada como idêntica ao espaço real do mundo”.

 Decorre daí uma conclusão: “a substituição do cosmo finito e hierarquicamente ordenado do pensamento Antigo e medieval por um universo infinito e homogênio implica e impõe a reformulação dos princípios básicos da razão filosófica e científica, bem como a reformulação de noções fundamentais, como a de movimento, de espaço, do saber, do ser” (in: Estudos de História do Pensamento Científico, p.10)

Em 1951, Koyré escreveu um Curriculum Vitae definindo seus princípios orientadores: “Desde o início de minhas pesquisas, fui inspirado pela convicção da unidade do pensamento humano, particularmente em suas formas mais elevadas. Pareceu-me impossível seprar, em compartimentos estanques, a história do pensamento filosófico e a história do pensamento religioso, do qual o primeiro sempre se serve , quer para nele inspirar-se, quer para refutá-lo. (…) Mas era preciso ir mais longe. Tive de convencer-me, rapidamente, de que era analogicamente impossível negligenciar o estudo da estrutura do pensamento científico  (in: Estudos de História do Pensamento Científico, p.10, grifo meu).

 Eis aí um dos aspectos fundamentais que legitima a afirmação de Lacan: “Koyré é nosso guia aqui, e sabemos que ele é ainda desconhecido”. No momento em que inaugura seu Seminário para demarcar, pela invenção, o objeto da psicanálise, Lacan anunciou seu guia. Um bom motivo para ler Koyré, um pensador que ainda hoje é pouco conhecido na história da filosofia contemporânea.

Jacques Lacan

Alexandre Koyré

FREUD COMENTA A INVENÇÃO DA PSICANÁLISE

Imagem e voz de Sigmund Freud é um recurso disponível para conhecer aquele que instaurou uma discursividade na cultura contemporânea ao impor a descontinuidade com as técnicas de interpretação existentes. Depois de Freud, o sofrimento psiquico pôde ser ouvido como
criptograma: uma mensagem cifrada que demanda decifração.

OUTRA EDIÇÃO DE FREUD

Desde janeiro de 2010, da obra de Sigmund Freud, tornou-se de domínio público. Isso significa que outras editoras brasileiras poderão lançar no mercado editorial novas traduções dos escritos do inventor da psicanálise. Até então, a Editora Imago detinha os direitos autorais no Brasil e a tradução disponível foi realizada a partir da tradução inglesa da Coleção Standart. Nossa versão de Freud era batizada pela psiquiatria anglo-saxonica. A mesma editora se antecipou e lançou também uma nova edição traduzida diretamente do alemão com trabalho coordenado pelo psicanalista Luiz Hans. Além da edição lançada pela Companhia das Letras comentada aqui no blog temos também o projeto da Editora LP&M voltada aos livros de Freud que tratam da cultura e da religião e outros que atendem a demanda dos estudantes de graduação.

Realizada por Renato Zwick, bacharel em filosofia e tradutor de Nietzche, Rilke e Thomas Mann, o projeto sairá pela a Coleção L&PM Pocket. Os dois primeiros títulos lançados são O futuro de uma ilusão e O mal-estar na cultura. Para novembro, Zwick trabalha em A interpretação dos sonhos. Em entrevista para o site da L&PM
(http://www.lpm-editores.com.br), ele comenta as dificuldades de ser tradutor, e os desafios e as escolhas que precisou fazer ao se dedicar à obra de Freud. Reproduzo abaixo parte da entrevista:

L&PM: Quais foram os principais desafios de verter Freud para o português direto do alemão, e como você os resolveu?
Zwick: Os desafios de traduzir Freud não são maiores ou menores do que aqueles de traduzir Nietzsche ou Rilke, por exemplo. É verdade que, comparada a de outros pensadores que também escreveram em alemão (Kant ou Hegel, digamos), a prosa de Freud tende a ser mais clara e mais fluida, o que facilita imensamente a tradução. Mas os grandes problemas são aqueles aparentemente insignificantes. Certas vírgulas me deram um trabalho inacreditável.

L&PM: As traduções consagradas criaram uma espécie de vocabulário oficial de Freud. Na sua tradução, porém, você propõe traduzir o termo por “impulso” e não por “pulsão”, palavra consagrada no jargão psicanalítico. E você também optou por “eu”, “isso” e “supereu” em vez de “ego”, “id” e “superego”. Quais os critérios que o levaram a tais escolhas?
Zwick: Em A questão da análise leiga, Freud afirma que preferiu designar as instâncias psíquicas inferidas pela psicanálise com meros pronomes em vez de apelar para sonoros nomes gregos. Parece-me que o uso de “eu”, “isso” e “supereu” tem em português a mesma naturalidade de Ich, Es e Über-Ich no alemão. É verdade que “ego”, “id” e “superego” se tornaram bastante populares, mas se temos equivalentes em português, para que usar palavras em latim? Acho que o uso de um neologismo só se justificaria se não tivéssemos um bom equivalente como “impulso”. E se a ideia é traduzir Freud diretamente do alemão para o português, não vejo por que fazer paradas no lacanês, por exemplo.

NOVA EDIÇÃO DAS OBRAS DE FREUD

A Editora Companhia das Letras lançou os 3 primeiros volumes de um projeto tão desejado: ler Freud traduzido direto do alemão, a lingua de Freud. O inventor da psicanálise soube manejar a lingua alemã falada no mercado. O sucesso editorial do livro Psicopatologia da vida cotidiana, lançado no início do século XX, demonstra a belíssima capacidade retórica de Freud. As aulas que teve com Brentano na Universidade de Viena foram determinantes para a construção dee sua estilística na escrita de seua obra.

as informações do lançamento:

http://www.companhiadasletras.com.br/freud/

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Leia um trecho em pdf

As Obras completas serão reunidas em vinte volumes, sendo dezenove de textos e um de índices e bibliografia, e não incluem os textos de neurologia, ou seja, não psicanalíticos, anteriores à criação da psicanálise, que foram deixados de fora pelo próprio autor quando foi feita a primeira edição alemã completa de suas obras.
A edição alemã que serviu de base para esta foi Gesammelte Werke [Obras completas], publicada entre 1940 e 1952. Ainda que constituam a mais ampla reunião de textos do pai da psicanálise, os dezessete volumes da coleção foram sofrivelmente editados, talvez devido à penúria dos anos de guerra e de pós-guerra na Europa. Embora ordenados cronologicamente, não indicam sequer o ano da publicação de cada trabalho. O texto em si é geralmente confiável, mas sempre que possível foi cotejado com a Studienausgabe [Edição de estudos], publicada pela editora Fischer em 1969-75, da qual foi consultada uma edição revista, lançada posteriormente. Trata-se de onze volumes organizados por temas (como a primeira coleção de obras de Freud), que não incluem vários textos secundários ou de conteúdo repetido, mas incorporam, traduzidas para o alemão, as apresentações e notas que o inglês James Strachey redigiu para a Standard edition (Londres, Hogarth Press, 1955-66).
O objetivo destas Obras completas é oferecer os textos com o máximo de fidelidade ao original, sem interpretações ou interferências de comentaristas e teóricos posteriores da psicanálise, que podem ser encontradas na interminável bibliografia sobre o tema. O aparato editorial limita-se a notas do tradutor, que geralmente informam sobre os termos e as passagens de versão problemática, para que o leitor tenha uma ideia mais precisa de seu significado. Nessas notas são reproduzidos os equivalentes achados em algumas versões estrangeiras dos textos, em línguas aparentadas ao português e ao alemão.
O coordenador e tradutor Paulo César de Souza já é conhecido por suas traduções de obras de Friedrich Nietzsche e Bertolt Brecht, pelas quais recebeu duas vezes o prêmio Jabuti. Durante alguns anos foi colaborador do jornal Folha de S. Paulo. Seu primeiro artigo, publicado em 1985, intitulava-se "Nosso Freud" e já discutia a tradução de Freud. Sua primeira tradução de um texto de Freud, agora incluída nesta edição, foi publicada em 1989, no mesmo jornal. Essas e outras contribuições foram depois incorporadas aos volumes Sigmund Freud & o gabinete do dr. Lacan (Brasiliense, 1989) e Freud, Nietzsche e outros alemães (Imago, 1995).
É desnecessário fornecer dados biográficos de Sigmund Freud (1856-1939), já que eles podem ser encontrados em diversas fontes, entre elas páginas da internet, das quais se destaca uma do Youtube, que contém um depoimento gravado por ele próprio em inglês para a rádio BBC, em Londres, em dezembro de 1938, sintetizando a obra de sua vida. O link (um dos links) para esse depoimento de dois minutos é: . Para um estudo biográfico mais profundo, vale consultar Freud: uma vida para nosso tempo, do historiador Peter Gay.