Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

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DESATIVADO

O BLOG ESTA DESATIVADO COMO INSTRUMENTO DE PUBLICAÇÃO

fica como registro dos posts realizados e como marca de exercícios de utilização desta ferramenta para escrever e publicar

continuo escrevendo e publicando semanalmente a coluna “Livros e Lugares” no Jornal de Piracicaba aos domingos

também sou colonista da Revista ARRASO, publicação temática mensal vinculada ao Jornal de Piracicaba

http://revistaarraso.com.br/category/colunistas/marcio-mariguela/

quem desejar acompanhar meu trabalho como escritor é só acessar o meu site pois lá são reproduzidos os artigos (ilustrado pelo cartunista Erasmo Spadotto) impressos no jornal e na revista

Janeiro / 2014

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CONVITE – Diálogo Público: psicanálise, psiquiatria e o DSM-5

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No próximo 25 de Maio, sábado, em Piracicaba-SP, vamos conversar sobre o lançamento mundial da nova edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), produzido pela American Psychiatric Association (http://www.dsm5.org)

Informações e inscrições pelo site:

PROGRAMA DO ENCONTRO:

  •  Política, Mídia e o DSM-5

Apresentação: Ricardo Pacheco e Paula Benetton de Souza Cecchi

Mediação: Luiz Américo Valadão Queiróz

  •  Elisão do sujeito no DSM-5

 Apresentação: Marcio Mariguela e Marta Togni Ferreira 

Mediação: Vitor Meira Monteiro

O evento conta com o Apoio:

  • Escola de Psicanálise de Campinas
  •  http://www.escolapsicanalisecampinas.com.br
  • Residência Médica de Psiquiatria do Serviço de Saúde Dr. Candido Ferreira
  •  http://www.candido.org.br
  •  Opportunità! | marketing interativo
  •  http://www.agenciaopportunita.com.br

RSI

o Imaginário é o que resta do Simbólico

o Simbólico é o que resta do Real

o Real, bem…, deste, não  resta NadaImagem

FAISÃO ARISTOCRATA

tela do período de Luis XIV, acervo do Museu do Louvre

François Desportes Champigneulles
“Autoportrait en chasseur” – 1699

“Durante o dia inteiro, nesses passeios, eu pudera pensar no prazer que teria se fosse amigo da duquesa de Guermantes, de pescar trutas, [caçar faisão], passear de barco no Vivonne e, ávido de felicidade, não pedir à vida, nesses momentos, senão que ela se compusesse de uma série de tardes felizes (…) Oh, que belos faisões na janela da cozinha, nem é preciso indagar de onde vêm, com certeza o duque andou caçando”

(Marcel Proust – Em Busca do Tempo Perdido)

Apaixonados por culinária como obra de arte, resolvemos preparar e saborear na ceia natalina uma ave que ainda não conhecíamos pelo paladar. De pronto, a escolha foi o faisão. Ícone da aristocracia e dignamente representado nas pinturas do século XVII e XVIII. O retrato acima é um dos marcos genealógicos da presença do faisão na iconografia pictórica ocidental. Do norte ao sul da Europa, o faisão esteve presente na história da arte: em telas, azulejos e tapeçarias. Na literatura, sua presença é de igual modo marcante. Há descrições de tal beleza poética capaz de atiçar as papilas degustativas.

na mitologica figura da caçadora Diana, Boucher inclui uma rama de faisões - Coleção do Louvre

François Boucher
“Diane sortant du bain” – 1742

Como ave de caça, os nobres faziam campeonato para ver quem conseguia abater o maior número de faisão. Como não somos habilidosos com armas de caça e menos ainda temos um Bois de Boulogne disponível, apelamos ao Santo Google para descobrir onde é comercializado aves de caça. O mais próximo era o açougue Porco Feliz no Mercado Municipal de São Paulo (http://www.porcofeliz.com.br/). Com a generosidade de um amigo, os faisões chegaram até nós.

Como preparar? Há receitas disponíveis na internet e livros de culinária especializados. Nossa referência foi  À mesa com Proust (Editora Salamandra, 1991). Decidimos criar a nossa própria com os devidos acompanhamentos. Optamos por assá-los para garantir o sabor próprio da carne.

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FAISÃO ARISTOCRATA

1º passo:

três (3)  faisões lavados com água e vinagre; imerso por 10 horas num vinha-d’alho com temperos diversos, 2 colheres (sobremesa rasa) de sal, 1 garrafa de bom espumante. De tempo em tempo vá virando os faisões no molho.

flambando

flambando

2º passo:

 retire os faisões, um a um e seque com papel toalha. Flambe os faisões com conhaque. Acomode o vinha-d’alho numa panela e deixe ferver até apurar. Passe por uma peneira e reserve para posteriormente regar os faisões.

3º passo:

acomode os faisões numa assadeira, regue com o molho, cubra com papel alumínio e leve ao forno quente por 1 hora; retire o papel para dourar, enquanto isso, vá regando com o molho.

Colelão do Louvre

Jean-Baptiste Oudry
“Nature morte au faisan” – 1753

Acompanhamentos:

1-) Molho de uvas

Adicione um (1 ) litro de água quente numa panela. Acomode dois (2 ) cachos de uva itália e um (1) cacho  de uva rubi previamente lavadas e deixe por 1 minuto (isso facilita retirar a pele das uvas). Extraia as sementes.

Numa frigideira, derreta 100 gramas de manteiga e acolha as uvas mexendo levemente até dourar. Passe numa peneira para escoar a sobra da manteiga e reserve as uvas douradas. Na mesma frigideira, coloque 200 ml de mel e 200 ml de vinagre balsámico – deixe ferver até ganhar espessura. Acrescente 50 gramas de manteiga e por fim as uvas.

2-) Purê de ervilhas frescas

Cozinhe 500 gramas de ervilhas frescas por 5 minutos. Leve ao liquidificador até formar uma pasta. Em uma panela, derreta 50 gramas de manteiga, acrescente as ervilhas trituradas e vá mexendo lentamente, incluindo 50 ml de creme de leite fresco e 1 colheres (chá) de sal.

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3-) Maçã Verde Caramelizadas

Descaroçar as maçãs e cortar em meia lua em 8 partes e reserve. Numa frigideira, adicione 2 colheres (sopa) de azeite e 2  colheres (sopa) de manteiga. Inclua as maçãs e deixe fritar até amorenar. Adicione 50 gramas de açúcar mascavo e deixe fervilhar até caramelizar.

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4-) Cebolas Caramelizadas

Descascar 20 cebolas pequenas e fure o centro de cada uma com um palito de churrasco. Cozinhe em vapor por 20 a 30 minutos. Enxugue em papel toalha. Derreta 2 colheres (sopa) de manteiga, junte 1/2 colher (chá) de sal e 2 colheres (sopa) de açúcar mascavo. Misture e cozinhe por 2 minutos. Acrescente as cebolas, mexendo lentamente em fogo baixo por 10 minutos.

Acabamento – estética visual

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Numa louça apropriada, acomode os faisões com as maçãs e cebolas.

O molho de uvas pode ir em outro recipiente para regar  ao gosto.

um cássico representante da iconografia famenga. Coleção do Louvre

Jan Fyt
“Gibier et attirail de chasse découverts par un chat” – 1640

Sobremesa: 

PAVÊ DE DAMASCO COM CHOCOLATE 

Numa panela acomode 2 xícaras (chá) de damasco com 250 ml de água e deixe ferver por 15 minutos. Deposite o damasco hidratado num liquidificador e triture rapidamente. Acrescente 1 lata de creme de leite (sem soro) e 1 envelope de gelatina sem sabor devidamente preparada. Liquidifique por 3 minutos.

Numa travessa adicione 1 pacote de biscoito champagne: faça camadas e entre elas o mousse de damasco. Espere esfriar e deposite na geladeira.

Derreta 200 gramas de chocolate meio amargo com uma lata de creme de leite (sem soro), vá mexendo lentamente com o fogo apagado. Cubra com esse creme a torta pavê e leve novamente a geladeira até o momento de servir.

Bom apetite, em festa!

 

Curso de Extensão em Psicanálise – Freud, leitor de Nietzsche III

Curso de Extensão em Psicanálise – Freud, leitor de Nietzsche (III)

Ministrado por: Marcio Mariguela, psicanalista e professor de filosofia na UNIMEP

Cronograma: 25/02; 24/03; 14/04; 26/05; 23/06

Horario: 9 as 12h – Vagas Limitadas: 20 – inscrições: mmariguela@gmail.com

Valor: R$ 200,00 – Certificado de Participação

Local: Clinica de Psicanálise de Piracicaba- -Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto

 

 Justificativa: A numeração designa série. Houve dois tempos em que demonstrei a leitura realizada por Freud da obra nietzchiana. No primeiro, centrei o conceito “super-homem” numa irônica citação de Freud à Nietzsche no capítulo X “A massa e a horda primeva” do livro Psicologia das Massas e Analise do Eu de 1921: “No princípio da história humana ele (o pai da horda) era o super-homem, que Nietzsche aguardava apenas no futuro”. Demonstrei que a referência aqui é o livro Assim Falou Zaratustra. No segundo tempo, investigamos a nota de rodapé no livro O Eu e o Isso de 1923, onde Freud alinhou o conceito “inconsciente” na 2ª tópica do aparelho psíquico, ao sentido que o mesmo conceito possui na obra de Nietzsche. Neste caso, definimos alguns aforismos de A Gaia Ciência para levantar hipóteses interpretativas da conjunção de sentido entre ambos.

Neste terceiro tempo, vamos investigar a inclusão de dois parágrafos na edição de 1919 da Interpretação dos Sonhos. Freud reeditou várias vezes sua obra fundadora da psicanálise e, em cada uma delas, acrescentou notas e parágrafos que permitem acompanhar a demarche de sua prática clínica e elaborações teóricas. Freud constatou que a terapia psicanalítica revelou “pela primeira vez que por trás dos sonhos se ocultavam um sentido e um valor psíquico”. Naquele tempo (1900) Freud disse que estava “inteiramente desprepado para descobrir que esse sentido era de caráter tão uniforme”. No item B “Regressão” do célebre capítulo VII “Psicologia dos processos oníricos”, encontra-se os elementos fundamentais para avaliar o “carater uniforme” do sentido do sonho. Se o aparelho psíquico funciona em três registros distintos (Isso, Eu e Supereu), toda percepção consciente esta determinada por traços minêmicos constituitivos na história do bicho falante em sua condição ontogenética e filogenética.

No final do item B (parágrafos de 1919), Freud afirmou que “o sonhar é, em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, moções pulsionais que a dominaram e dos modos de expressão de que ele dispunha nessa época. Por trás dessa infância do indivíduo (ontogênese) é-nos prometida uma imagem da infância filogenética”. Neste ponto, o nome de Nietzsche é invocado: “Podemos calcular quão apropriada é a asserção de Nietzsche de que, nos sonhos, ´acha-se em ação alguma primitiva relíquia da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta´; e podemos esperar que a análise dos sonhos nos conduza a um conhecimento da herança arcaíca do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato”. O aforismo 12 “Sonho e Cultura” do Humano, Demasiado Humano – citado entre aspas -demonstra que Freud leu esse livro de Nietzsche, publicado em 1878. Vamos reconstruir os argumentos de ítem B do capítulo VII tramando com os aforismos do  capítulo 1  “Das coisas primeiras e últimas” do livro de Nietzsche.

Bibliografia:

FREUD, Sigmund A Interpretação dos Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Volume V. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich Humano, Demasiado Humano. Tradução: Paulo César Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

ASSOUN, Paul-Laurent Freud & Nietzsche: semelhanças e dessemelhanças. São Paulo: Brasiliense, 1989.

MONZANI, Luiz Roberto Freud, o movimento de um pensamento. Capítulo 2 “A Máquina de Sonhar”. Campinas: Unicamp, 2ª edição, 1989

Antonio Pacheco Ferraz: um piracicabano em Paris

CONVITE – CONVERSA DE BOTECO – 17/OUT/2011 – 20H – LAO BAR BISTRÔ – Rua do Vergueiro, 156 – Centro – Piracicaba

 

“Cheguei em Paris no ano em que Claude Monet morreu. Na época falavam de Picasso, Matisse, Renoir, Cezane. Eu não conhecia nenhum trabalho deles. Eu era um bisonho lá em Paris, um caipira de Piracicaba que estava com o pé numa civilização grande. Não sabia quem era Monet, Manet, Van Gogh.  Para mim o Alípio Dutra era um Deus. De modo que eu era muito bisonho, infantil mesmo. Eu tava sonhando, delirando com aquela cidade luz”.

 

 

auto retrato - pintado em Paris /1928

O SESI/Piracicaba, com apoio da Secretaria Municipal de Ação Cultural, convidou-me para expor um tema que pudesse relacionar arte e vida. De pronto pensei em resgatar a entrevista que realizei com o pintor Antonio Pacheco Ferraz em 1997, na época com 94 anos e pleno de histórias para contar. Durante uma tarde visitei o ateliê o mestre Pacheco e, com um certo tom psicanalítico, fui dando linha para ele narrar sua trajetória como pintor. Naquela ocasião o Brasil recebeu a visita das telas de Claude Monet, pertencente ao acervo do Museu Marmottan de Paris. A exposição das Ninféias de Monet atraiu uma multidão ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiroe ao Museu de Arte de São Paulo. 

procissão na Bretanha, 1976

Aproveitando o cenário, decidi convidar o Pacheco para uma exposição com o propósito de demonstrar sua matriz fundadora no impressionismo. Gentilmente aceitou o convite e, desse modo, tornei-me curador da mostra intitulada: “Antonio Pacheco Ferraz: um piracicabano na Bretanha”. Interessava-me as representações que fez da região norte da França: lugar considerado por ele o mais belo que já tinha visto. Revisitar aquela entrevista editada e publicada na Revista Impulso/UNIMEP nº 24 (http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/impulso24.pdf ) permite reinscrever a memória da viagem a Paris em 1926 – momento de efervecência cultural no mundo das artes parisiense com o lançamento do Primeiro Manifesto do Surrealismo.

Homem Nú - 1928 - Medalha de Bronze no Salão de Belas Artes de Paris

Ao chegar em Paris, a técnica impressionista era a estética hegemônica na Academia de Belas Artes onde Pacheco foi estudar pintura. O tempo da revolução das cores imputada pelos impressionistas na pintura moderna já havia se tornado padrão de formação para os jovens pintores. Uma nova rovolução estava  em curso: a aplicação da estética literária surrealista na produção pictórica. Dois espanhóis estavam detonando as regras de formação: Salvador Dalí e Pablo Picasso. Pacheco não ficou imune aos rumores da revolução surrealista. A tela “O sonho do pintor” de 1971 é uma obra testamento. Nela encontra-se um retrato histórico da síntese que ele realizou entre o impressionismo e o surrealismo. Pacheco banhou-se nestas duas nascentes e foi capaz de realizar uma síntese admirável.

 

o sonho do pintor (em vermelho, seu amigo português, Antonio Pelaio)

 “Esse quadro eu começei fazendo uma paisagem e depois transformei numa homenagem à Bretanha. Eu levei um ano para pintar. Nunca consegui expor. Tenho por ele o maior xodó. Varias vezes tentei tirá-lo daqui para expor mais tenho medo de que sofra alguma avaria. Esse quadro é a síntese da minha vida, é minha história”.

na WEB:

 

http://www.saopaulo.sp.gov.br/patrimonioartistico/sis/leartista.php?id=32

Um mimo de natal

Todo ato de presentear é uma forma de inscrição simbólica do sujeito que presenteia. Em várias situações convencionalmente instituídas, segundo o cálculo do mercado, somos convocados a presentear. Nestes tempos de expansão econômica, o número de presentes de Natal será um recorde histórico. O comércio varejista já apostou num crescimento de 20%. Com ascensão da chamada classe C, a troca de presentes natalinos será motivo de festa entre os brasileiros. O que escolher para presentear? Se a compra for aleatória, não tem graça. O encanto é comprar algo que possa dizer ao outro o que ele representa, o que você quer dizer ao presenteá-lo. Os objetos carregam um ato simbólico que quer dizer outra coisa. Símbolo é a presença de uma ausência. O objeto não tem valor em si: o valor está determinado por aquilo que ele representa na relação entre eu e o outro. É importante não se deixar capturar pelo valor que o objeto possui na lógica do mercado. Nós, bichos falantes, somos os únicos seres capaz de atribuir valor, de valorar. Que tal exercitar essa bela capacidade de instituir valor e escolher presentes que possam ser o símbolo de amor, de agradecimento, de generosidade, de gratidão – em suma, de desejo?

Se é para participar de fato do ritual natalino, que cada um possa inventar um modo de celebrar o nascimento do Deus menino. Celebrar o mistério da manjedoura: Deus que se faz carne para nos ensinar a prática do amor, da solidariedade, da partilha, da inclusão. “O verbo se fez carne” nos ensinou o discípulo amado. O Natal é um acontecimento na história da civilização cristã. Num dia determinado, a cristandade é chamada a celebrar o nascimento de Deus. Ritualizar esse ato inaugural, independente de ser cristão ou não, é um modo de cada um celebrar o verbo amar: isso é divino!

Bem antes de saber o que é o Natal, a palavra natal estava associada ao nome do senhor que vendia vísceras bovinas e suínas no bairro da minha infância. Seu Natal tinha uma carroça de metal e comprava vísceras no matadouro municipal para vender na periferia da cidade. As vísceras chegavam pela manhã com o cheiro da morte. As mulheres sabiam identificar a qualidade e o frescor, e trocavam receitas de bife de fígado acebolado; rins cozidos no molho de tomate; coração ensopado; dobradinha com linguiça. Seu Natal era um velhinho simpático como meu avô paterno, que também era charreteiro. Aos cinco anos, eu assumia as rédeas da charrete do seu Natal e passeava pelo bairro vendendo vísceras.

Tempos depois, Natal passou a significar confraternização na indústria de produtos alimentícios onde meu pai trabalhava. No final do ano, a diretoria promovia um churrasco entre os funcionários e seus familiares. A festa ocorria entre grandes máquinas, esteiras e caldeiras, responsáveis pela produção de extrato de tomate e goiabada. Meu pai explicava didaticamente como era o processo de produção. Adorávamos brincar de pega no meio daquela maquinaria toda. Os presentes distribuídos pela empresa me são até hoje inesquecíveis. Esperava com ansiedade desejante o grande dia de festa na fábrica para ganhar o presente de Natal.

Neste mesmo tempo, Natal era o dia de montar a árvore. Uma deliciosa cerimônia que começava num domingo de sol, quando saíamos pela mata para escolher o mais bonito galho de jabuticabeira. Pintávamos de prata o galho cuidadosamente desfolhado e o revestíamos de algodão. Fixado numa lata, a árvore-galho via-se adornada de um jogo de lâmpadas multicoloridas. As bolas de vidro fino como papel eram amarradas com destreza no manuseio. Como ápice dessa cerimônia, a colocação do pendão: um ponteiro de vidro esculpido. O da minha infância tinha uma manjedoura com a sagrada família. Toda casa possuía sua árvore-galho e, nas visitas natalinas com a reza do terço, as mulheres comentavam sobre o pendão/ponteiro. Cada um tinha sua própria história familiar: uma espécie de símbolo passado de mãe para filha. Um acidente incidente marcou-se em mim de forma traumática: decidi, contra a determinação de meus pais, ligar na rede elétrica as luzes da árvore de Natal. Adorava contemplar o reflexo das luzes nas bolas de vidro. Tomei um belo de um choque e cai ao chão arrastando comigo nossa árvore-galho toda enfeitada: poucas bolas sobraram intactas, e o pior: o pendão/ponteiro virou caco. Chorei copiosamente a culpa por aquele acidente.

Neste Natal, ao trocar de presentes, convide seus familiares e amigos queridos para celebrar o nascimento da vida contando/narrando uma lembrança natalina. A comemoração e rememoração natalina é um mimo que cada um pode dar a si mesmo, inventando e criando laços de convivência para além das determinações do consumo. Escolha o presente que possa significar sua presença na vida daquele que vai presentear. Que seu presente seja sua presença!