Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para Viagens

IGREJAS DE PARIS – Basílica de Saint Denis

As dezenas de igrejas espalhadas pela cidade de Paris demonstram a história da monarquia católica. Como um dos reinos cristão mais importante da Europa, Paris concentra verdadeiros tesouros arquitetônicos desde o gótico medievo, passando pelo renascentismo e barroco clássico até o romantismo do 2º império. Visitar as igrejas é adentrar num território em que o sagrado é o fundamento da política. A história de Paris pode ser narrada por suas igrejas que abrigam sepulturas de reis, rainhas, príncipes e princesas. Abrigam também os restos mortais de escritores, pensadores, artistas que muito colaboraram para ornamentar o ambiente devocional.

Basílica de Saint Denis

O estilo gótico lançou seus marcos fundadores no período medieval e sob a espada de Clóvis derrotou os romanos no final do século V,  instaurando o cristianismo como religião oficial do reino franco. Nas cercanias de um cemitério galo-romano ao norte de Paris foi edificado a primeira igreja sobre o túmulo de St. Denis, o primeiro bispo dos franceses, decapitado pelos romanos no ano 250. A tradição atribui a Santa Genoveva a construção do primeiro santuário em torno de 450.

exemplar gótico de grande esplendor

A atual Basílica de Saint Denis foi edificada a partir deste santuário que rapidamente tornou-se um centro de peregrinação. Ao seu redor foi edificado um monastério beneditino e desde o século VII passou por varias transformações com o impulso inicial do rei Dagoberto que tornou-se o benfeitor e elegeu St. Denis como patrono e protetor dos monarcas. A história da Basílica se funde com a historia da monarquia cristã, abrigando túmulos de praticamente todos os regentes até Luis XVI e Maria Antonieta.

interior da Basílica com rosácea ao fundo

Sob a regência do abade Suger (1122-1151), conselheiro real, a Basílica adquiriu novas técnicas arquitetônicas, rosáceas e abóboda sobre cruzeiro de ogivas. Um esplendor de luz inundou o espaço que consagrou reis e rainhas. Ao mesmo tempo, neste espetáculo luminoso, os restos mortais da monarquia descansam em paz. A abside do abade Suger foi projetada para ostentar as relíquias dos mártires. A ausência de muro concreto entre as capelas centrais e a abside (capela em formato semicircular atras do altar-mor ou nave central) criam um muro de luz contínuo. Dos vitrais do abside somente cinco foram poupados da destruição pelos revolucionários franceses do final do século XVIII. Nesta capela luminosa estão as efígies da monarquia merovíngia – o rei Clóvis e seus filhos  são a gênese do cristianismo na França.

abside do abade Suger

A Basílica abriga atualmente mais de 70 efígies e túmulos, sendo considerada  uma coleção única na Europa. No passeio pela Basílica podemos apreciar os avatares da arte funerária, das efígies do século XII esculpidas  com os  olhos abertos; também  as grandes composições do Renascimento que associavam a morte à esperança da ressurreição. Foi exatamente neste significante que a sensação do expectador repousou: pareceu-me que toda aquela monarquia ali sepultada sob o manto infinito da luz, estão a espera da ressurreição.

túmulo de Henrique II e Catarina de Médicis

Dentre os monumentos funerários, destaque para o túmulo do rei Dagobert I, grande representante da dinastia Merovíngia; e para o templo funerário de Henrique II e Catarina de Médici, representantes da dinastia dos Valois. O tumulo do rei foi edificado em meados do século XIII a pedido dos monges beneditinos que o consideravam seu fundador. Esta situada no lugar onde o soberano foi inumado em 639. Seu corpo foi esculpido com a cabeça virada à direita, como se estivesse a olhar eternamente para as relíquias de St. Denis. As esculturas que adornam o túmulo, ilustram a lenda do eremita João que sonhou com a alma de Dagobert sendo arrancada dos demônios, graças a intervenção dos santos Denis, Maurice e Martin.

símbolo da realeza sepulta

O túmulo templo de Henrique II surgiu da vontade expressa de Catarina de Medici para a memória de seu esposo e em honra os Valois. Foi desenhado por Primticio e esculpido por Germain Pilon entre 1560-1573,  utilizando uma combinação equilibrada entre o mármore e o bronze, este monumento é um exemplar da presença da arte italiana em solo francês. Os anjos, representantes de cada uma das virtudes, adornam este mausoléu de mármores multicoloridos que se intensificam com a luz da rosácea lateral do transepto norte.

rosácea central

ÓCIO EM PARIS

O cultivo do ócio é um exercicio de liberdade. Viver no ócio não quer dizer ficar sem fazer nada. Praticar o ócio é fazer nada útil, que tem utilidade visando um fim determinado. O ócio requer uma suspensão temporária das atividades laborais rotineiras: 2ª, 3ª, 4ª…. Quando se esta no ócio, o tempo flui sem a marcação cronológica. É acordar e se perguntar: O que vou fazer hoje? Nada de útil.

“Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda  fins, propósitos e intenções. A beleza das ruínas? O não servirem mais para nada. A doçura do passado? o recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem pode ser – o absurdo, meu amor, o absurdo”. (Bernardo Soares,  “O livro do desassossego”)

Torre Eiffel

Fazer turismo é praticar o ócio. Para tanto, não pode ser um pacote coordenado por um agente de viagem. O viajante deve ser autônomo o bastante para tomar as decisões de onde e como ir de um lugar ao outro. O que vai visitar, o que deseja conhecer empiricamente e o que minimamente já sabe através de leituras e pesquisa na internet. Ajuda muito se o ócio é praticado num local já conhecido. As coordenadas geográficas básicas são importantes para não ter o tempo subtraído do cultivo do ócio. Saber o que evitar e algumas noções sobre a logística dos meios de transporte são ferramentas fundamentais para mover-se num flanar sem direção.

Sena visto da Rue du Théâtre

No Houaiss Eletrônico, o vocábulo ócio é designado semanticamente como cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar. É também um espaço de tempo em que se descansa, falta de ocupação. Por derivação, sentido figurado, ócio é trabalho leve e agradável. Nesta trama de significação, vagar é o sentido apropriado para designar uma viagem a Paris. Vagar, vagabundear, flanar, perambular. Andar ao leu com uma  certa curiosidade infantil de tudo tocar, sentir, cheirar. Deixar os olhos serem conduzidos e condutores. Cultivar o ócio em Paris é deixar-se seduzir pelas encruzilhadas de suas ruas, pela  história destas cercanias em torno de um caudaloso e belo rio.

Pont Neuf com a île de la Cité ao fundo

Paris é para ser degustada passo-a-passo. Uma Igreja aqui, um museu ou palácio ali, um jardim e praça acolá. Entre um e outro, comer croissant, baguete e tomar agua perrier. Entrar em Paris é atravessar o portão e adentrar num espaço onde a história da cultura ocidental se inscreve em cada pedaço que a visão consegue capturar. Desde o século III a.C, a tribo celta dos parísios fixaram residencia na île de la cité que emergiu triunfante nas águas do Sena.

Opera Garnier

salão de estar do palácio da música – obra prima do 2º Império

Conquistada pelos romanos que ali fundaram a Lutécia: sede do império ao norte da Europa. O mito cristão fundador é personificado por São Denis, o primeiro bispo de Paris,  cultuado como protetor dos monarcas. No século III foi decapitado pelos romanos e, mesmo assim, carregou sua cabeça por 10 km: de Montmartre até o portão da cidade, hoje conhecida como Porta de São Denis. Há também a proteção feminina: Santa Genoveva salvou Paris de Átila, o Huno em 451.

portão do castelo de Versailles

Clóvis, rei dos francos, fez de Paris a capital de seu reino em 508. Em todo período medieval, os francos asseguram as construções de monastérios e um reino cristão foi sedimentando a cultura monárquica que fundou sua descendência em Luis IX no século XIII até a decapitação de Luis XVI no final do século XVIII pelos Revolucionários Republicanos.

Conciergerie na île de la Cité

Em 1868, Paul Lafargue casou-se com Laura, a filha caçula de Karl Marx. Nascido em Cuba, Paul era filho de um francês e de uma judia. Enviado a Paris para estudar medicina, tornou-se um apaixonado militante socialista. Na época, os trabalhadores nas oficinas parisienses trabalhavam em média 13 horas por dia, e o pior, ainda estavam convencidos de que o trabalho em si mesmo era uma atividade dignificante para si e benéfica para o progresso social. Com a latinidade nas veias, Paul confrontou o sogro de forma viceral ao publicar em Paris o ensaio O Direito a Preguiça, em 1880.

entrada do palácio de Versailles

Lafargue  levantou seu brado contra a visão hegemônica da santificação do trabalho, promovida por escritores de direita e de esquerda, por economistas liberais e socialistas tapados. Para ele, o trabalho dignifica o humano no limite imposto pelo ócio e o lazer. Quando não há mais condições de praticar o ócio e dedicar-se ao lazer, o trabalho tornou-se um valor em si e ao mesmo tempo, ferramenta para o trabalhador ser reconhecido como consumidor. Trabalhar para consumir é uma atividade alienada pois o trabalho visa um fim: obter bens, mercadorias marcadas por signos de status e poder.

pedinte nas proximidades da Galeria Lafayette,
o templo do consumo

O panfleto revolucionário de Laforgue foi redigido num tempo em que a burguesia industrial levava a exploração do trabalhador ao máximo na construção do modelo capitalista. O sucesso deste texto em Paris é inflamante na medida em que interrogou o contexto histórico no período do 2º Império, governado por Napoleão III. Fundamentalmente é essa Paris de Laforgue que os turistas mais veem.

Avenida Champs Élysées

As transformações no espaço publico para acolher efetivamente os ideais da burguesia dominante é a Paris do primeiro plano de percepção estética. Escavando os substratos dos planos subjacentes, o visitante pode vestir a fantasia de um arqueólogo e descobrir os feitos do 1º Império de Napoleão Bonaparte, os vestígios da monarquia cristã devota de São Denis, Santa Genoveva e São Luis, o rei que se tornou santo.

Pessoa no Google

quarto de Pessoa no campo de ourique em Lisboa

13 é um número milagroso para a cultura portuguesa. Em 13 de maio na Cova da Iria, as crianças pastoras viram e ouviram a imagem da Virgem de Fátima invocando a reza do rosário para nos proteger do comunismo ateu e materialista. No 13 de junho o padroeiro Santo Antonio é invocado para o feliz encontro, o casamento. Como numa reedição de Eros, o monge franciscano recebe preces e louvores.

Fernando António Nogueira Pessoa, nascido em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos em 13 de Junho de 1888. O mais expressivo nome da literatura portuguesa (ao lado de Camões), Fernando Pessoa inventou-se muitos para conter uma escrita fluída que cartografou a lingua materna numa miríade de possibilidades poéticas. O Ser e o Sentir enovelaram-se para sempre de modo oblíquo.  A extensão do bau de escrivinhador lisboeta pode ser medida pela homenagem prestada pelo Google no dia de hoje, em que se rememora sseu 123º aniversário:

http://www.google.com.br/#q=Fernando+Pessoa&ct=fernandopessoa11-hp&oi=ddle&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=1e33de1689560958&biw=1123&bih=468 

casa onde Fernando Pessoa passou seus últimos anos

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233

 

Inaugurada em Novembro de 1993, a Casa Fernando Pessoa foi concebida pela Câmara Municipal de Lisboa como um centro cultural destinado a homenagear Fernando Pessoa e a sua memória na cidade onde viveu e no bairro onde passou os seus últimos quinze anos de vida, Campo de Ourique.

Jardim Zoológico de Lisboa

vista aérea do teleférico
 Ao redor deste lago, com organização impecável, situa-se o Jardim Zoológico de Lisboa (Portugal) com uma das melhores coleções de animais de todo o mundo, reunindo nos seus 120 anos de existência, mais de 2000 animais de 360 espécies diferentes, divididos da seguinte forma: 114 Mamíferos;  157 Aves;  56  Répteis; 5 Anfíbios e Artrópodes. Nesta diversidade estonteante de formas e cores, o passeio deve começar pelo suave deslize dos carrinhos teleféricos sobre as copas de centenárias árvores. O expectador terá uma visão do conjunto do Jardim e poderá escolher seu caminhar voyerístico pelas formas mais primitivas de vida animal.

o Jardim com aeronave TAP

Ao contrário das focas, os leões-marinhos têm orelhas e deslocam-se com facilidade em terra, erguendo o corpo e impulsionando-o para a frente com o auxílio das barbatanas anteriores. São animais sociáveis e gregários. Esta espécie é a mais frequentemente encontrada em parques zoológicos, pois é normalmente mais dócil. Vocaliza mais frequentemente que as outras espécies de leões-marinhos.
Programa-se para não perder o show que acorre em duas sessões, uma de manhã outra a tarde. Se desejar um beijo desse bigodudo cheirando a sardinha, sente nas primeiras fileiras. Ele atravessa a platéia distribuindo seu charme e carinho. 
a saudação
O elefante-africano-de-savana é o maior animal terrestre. Incluindo tromba, mede cerca de 6 a 7,5 metros de comprimento  e pode atingir os 7500 kg. As grandes orelhas ajudam abanar para facilitar o arrefecimento corporal. O nariz forma a tromba, muito enrugada, que apresenta dois apêndices digitiformes na extremidade, usada para cheirar, manusear objectos, recolher alimentos e água e ainda para defesa, ataque ou demonstrações de afecto. As presas são os dentes incisivos superiores e crescem durante toda a vida. São usadas para combater, para escavar raízes e para arrancar a casca das árvores. 
São animais gregários, apresentando ligações muito fortes entre si e um comportamento cooperativo. O grupo é conduzido pela fêmea mais velha, a matriarca, que detém os conhecimentos sociais do grupo e das características do meio. Esta tem uma influência decisiva sobre o comportamento dos restantes elementos do grupo. Os machos vivem sozinhos ou em pequenos grupos temporários.

o maior mamífero terrestre

 
 Na categoria altura, a girafa é imbatível, podendo atingir  até 5,5 metros. Nas horas de maior calor preferem ruminar à sombra. Conseguem permanecer longos períodos sem beber,  e quando o fazem ficam extremamente vulneráveis aos ataques dos predadores. Formam pequenos grupos constituídos por um macho e respectivas fêmeas e jovens machos solteiros. Estes grupos podem reunir-se em grupos maiores e não são estáveis a longo prazo, pois há frequentes entradas e saídas de indivíduos. São animais pacíficos e não territoriais, mas existe uma hierarquia no interior dos grupos, que é mantida através de comportamentos intimidatórios.
Giraffa camelopardalis angolensis
O mais novo habitante do Zoo lisboeta é o filhote do Lémore nascido em maio, a primavera das espécies. Na escala evolutiva, os Lémores pertencem à ordem dos primatas. Sua condição de parente distante dos humanos é um atrativo espetacular para observar o tempo que dedicam ào cultivo da beleza de sua pelagem. São gregários e brincalhão. Impossível não lembrar do filme Madagascar: Eu me remexo muito…

o filhote do Lémure-de-cauda-anelada

 Finalizando este ensaio fotográfico, o colorido escandaloso do flamingo rubro, habitante nas ilhas das Caraíbas e nas ilhas Galápagos, nas margens de lagoas salinas, de rios e de estuários.  A plumagem tem tonalidade predominantemente carmim, com as rémiges pretas. O bico curva para baixo e é carmim, excepto na extremidade, que tem cor negra. O pescoço é muito longo e tem cor carmim, tal como as patas. A coloração carmim deve-se aos pigmentos presentes nos crustáceos e microalgas de que se alimentam.

o sono do flamingo

No site oficial, há uma série de informações sobre as espécies animais que estão representadas no Jardim Zoológico, o seu nome científico, a que ordem e classe pertencem, de onde são originários, quais os seus comportamentos e alimentação e o seu estatuto de acordo com o IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
http://www.zoo.pt/main.aspx
 
 

Passeio pela Península Ibérica VI

8ª Estação: MADRID – ESPANHA

A viagem de trem de Granada a Madrid foi longa e cansativa [infelizmente não há linha para trem de alta velocidade]. Chegamos ao Hotel Ganivet [recomendável] com chuva. Decididos subir a ladeira da Puerta de Toledo até a Plaza Mayor para almoçar no Restaurante Botin: o mais antigo restaurante do mundo (segundo a indicação do “Guinness Book”) está localizado na Calle de Cuchilleros e foi edificado em 1725 sobre uma antiga pousada construída em 1590: era abrigo dos comerciantes frequentadores da Plaza Mayor. O forno, sólido e decorado com notáveis azulejos, é o instrumento fundamental para servirem os clássicos assados da cozinha “castellana”.

forno do Botin

O mais tradicional [a estrela da casa!] é o “Cochinillo Asado”: um leitão cheirando leite materno, assado com lenha de carvalho produtor de bolotas que são o alimento preferido de seus pais. O resultado: clamor aos céus pelo leitãozinho ter tão pouca carne. Ao sabor, geneticamente transmitida pelos pais, acrescente o fogo da lenha do carvalho e poderá imaginar porque o “cochinillo” é tão saboroso. O couro pururuca derrete na boca! Nutridos pelo “cochinillo”, e com sombrinhas “ching-ling”, seguimos o passeio pela Plaza Mayor com suas lojinhas de suvenir e arredores. A chuva e o frio de um anoitecer às 16h impediram maiores aventuras.

interior do Mercado San Miguel

Nossa passagem por Madrid estava direcionada ao Museu Nacional del Prado e ao Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia. O primeiro por sua relevância histórica como acervo de pinturas e esculturas representativas da Idade Moderna. O Reina Sofia por ser abrigo da história da arte moderna no século XX, levada pela inflexão intencional de testar os limites da modernidade na própria definição conceitual. Restringidos pelo propósito e o tempo disponível, a cidade de Madrid limitou-se ao espaço entre os dois Museus e um passeio na praça em que se situam o conjunto de lojas da rede El Corte Inglês.

una calle de Madrid

 O Museu do Prado é para a cultura do sul da Europa, o que o Museu do Louvre é para o norte. Grande parte da coleção de ambos está relacionada às obras de arte que os monarcas adquiriram, por encomenda no comércio de telas e esculturas, e por abrigar, na função de mecenas, pintores retratistas das famílias monárquicas. O patrimônio artístico que o Museu do Prado abriga surgiu de coleções reais desde o século XVI e, com a dedicação de Carlos V [o mesmo que construiu o palácio em Alhambra], o acervo ganhou clássicos do Renascimento (Fra Angélico, Botticelli, Mantegna, Rafael), em especial, os artífices da Escola Veneziana: Tintoretto, Veronese e Bassano.  

O edifício foi projetado como Gabinete de Ciências Naturais em 1875 por ordem de Carlos III. Seu neto, Fernando VII, impulsionado por sua esposa, a Rainha Maria Isabel de Braganza, decidiu abrigar no edifício o “Real Museo de Pinturas y Esculturas”. Em 1819, o Real Museu abriu suas portas ao público e passou a se chamar: Museo Nacional del Prado.

homenagem ao célebre pintor espanhol na entrada do Museu do Prado

 

 Os clássicos pintores espanhóis estão representados com excelência na sólida formação renascentista e nos desdobramentos no século XVIII com o romantismo idílico e trágico. El Grego, Murillo, Velásquez e Goya, dentre outros, representam o “Século de Ouro” na arte pictórica Ibérica. A coleção percorre a produção artística italiana, alemã, britânica, flamenga e francesa. Lembrando o diálogo entre Jacques Lacan e Michel Foucault a propósito da tela “Las Meninas” de Velázquez [é a tela mais procurada pelos turistas, assim como a “Monalisa” no Louvre] fiquei contemplando o espelho onde o semblante do rei e da rainha está refletido.

 

peça publicitária do El Corte Ingles no aeroporto de Madrid

las meninas, hoje

Marcado, desde Granada, pelo efeito inquietante da imagem da “Virgem de la leche”, meu olhar estava dirigido em conhecer as diferentes representações deste tema mariano na Contra-Reforma e no Barroco Espanhol. Um feliz encontro com telas e esboços de Miguel Alonso Cano coroa minha busca.

Filho de carpinteiro escultor de retábulo, residente em Granada, Alonso Cano adquiriu seu aprendizado na oficina do pai. Em 1614, foi para Sevilha para ser admitido como aprendiz de Francisco Pacheco, um mestre renascentista no sul. Em seguida, Alonso iniciou sólida e duradoura amizade com Diego Velásquez. Versado na carpintaria escultural aprendida com o pai, Alonso foi contratado para construir retábulos nas Igrejas de Sevilha. Embora fosse mais conhecido como escultor, em 1630 presidiu o Sindicato dos Pintores – revelando o respeito e reconhecimento de seus pares. Em 1638, convidado para a corte em Madrid, recebeu encomenda da Comissão Real: retratar 16 reis medievais da Espanha. O conjunto de telas serviria como ornamento do Palácio Alcazar. Somente duas sobreviveram ao incêndio de 1734 e pertencem ao acervo do Prado.

acervo digital do Museu do Prado

Un Rey de Espanhã (1640) - Alonso Cano

As composições dramáticas de temas sagrados e profanos fizeram de Alonso Cano um mestre na pintura arquitetônica. Depois de estadia em Valência, onde foi torturado e acusado de assassinato de sua segunda esposa, retornou a Madrid; desde então, suas telas adquiriram a singularidade de seu estilo. Os trabalhos deste período final, como as duas versões do Cristo morto apoiado por um anjo, possuem densidade em volume e luminosidade. São de uma dignidade trágica desconcertante na perfeição anatômica e na expressividade afetiva.

acervo digital do Museu do Prado

Cristo muerto sostenido por un ángel

 Após um período em sua terra natal, retornou a Madrid em 1657 e compõe “San Bernardo y la Virgen”: magnífica representação iconográfica da “Virgen de la leche” diante de seu maior admirador: São Bernardo de Claraval, o poeta da Virgem Maria. Bernardo nasceu em 1091 num castelo da Borgonha na França. Filho de nobres, ao nascer, sua mãe teve um sonho que foi interpretado pelo monge freqüentador do castelo: “o menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus e curará as chagas de muitas almas”. Investido de sentido e piedosa libido maternal, o jovem Bernardo era admirado pelos mestres até sofrer um revés traumático: a morte da adorada mãe. Afogado na angústia e desespero refugiou-se nos prazeres mundanos e glórias terrenas, dedicando-se à carreira militar.

acervo digital do Museu do Prado

San Bernardo y la Virgen

O sentimento de culpa retornava lhe indicando o caminho da vida monástica. Ingressou na ordem cisterciense e logo depois decidiu fundar seu próprio mosteiro – levando consigo doze colegas monges. Assumiu para si a missão de proclamar a virgindade de Maria como ato de glorificação ao poder de Deus. Tornou-se assim um arauto, a tal ponto popular que o poeta Dante Alighieri encerrou sua obra prima, “A Divina Comédia”, narrando o encontro com São Bernardo e, pela boca do piedoso Santo, proclamou os louvores à Virgem Mãe: “No Céu, és a meridiana luz da caridade; na Terra, a fonte viva da esperança para a frágil humanidade! Senhora, és tão grande, tão poderosa, que pedir graças ao Céu, sem teu auxílio, é o mesmo que desejar voar sem dispor de asas! Tua benignidade não socorre unicamente a quem ora, pedindo; mas antes, vez sem conta, antecipa o pedido e a prece” (tradução de Hernâni Donato, Editora Cultrix)

A cena da vida de São Bernardo, retratada por Alonso, demonstra que o pintor espanhol conhecia a obra de Dante e realizou a síntese de um tema tão caro ao século XVII. O tratamento pictórico resgata as técnicas da pintura renascentista compondo um triangulo entre a imagem da Virgem no retábulo, a simetria do piedoso Santo e a presença testemunhal do monge que assiste o jorro de leite do seio da Virgem Maria atravessar o triângulo até boca de São Bernardo. O que aparece em primeiro plano é o leite!

patio do Museu Reina Sofia

Após imersão na arte clássica do acervo do Prado, visitamos o Museu Reina Sofia. O estado de desconstrução foi fatal! Tendo como referência os movimentos de vanguarda artística no período do pós Primeira Guerra Mundial, o acervo do Reina Sofia apresenta o Surrealismo e o Cubismo como expressão pictórica de dois gênios espanhóis: Salvador Dali e Pablo Picasso. Embora com poucos exemplares de ambos, a exposição dos trabalhos desses espanhóis está relacionada ao contexto histórico e artístico em que estavam inseridos. O painel “Guernica” de Picasso e “O grande Masturbador” de Dali são célebres representantes da contribuição que trouxeram para a arte contemporânea. Interrogando o estatuto da obra de arte e do museu como instituição, o Reina Sofia é um espaço privilegiado para conhecer o avatar da arte pictórica no século XX.

Uma cena marcante:  vinte crianças do ensino fundamental sentados diante da tela “O grande masturbador” observando atentamente as explicações estéticas proferidas por uma simpática professora de arte.  Após a exposição, os garotos levantavam a mão e faziam pergunta. Como um voyeur, olhava para a tela e para o rosto daquelas crianças.

le grand masturbateur (1929) - Salvador Dali

Indicações na web:

http://www.museoreinasofia.es/index.html

http://www.museodelprado.es/ 

http://www.googleartproject.com/  [a ferramenta do google permite um surpreendente passeio virtual]

http://www.youtube.com/watch?v=P8PU3jqRMHQ [reportagem do Jornal da Globo sobre o Museu do Prado]



 

 

Passeio pela Península Ibérica V

7ª Estação: GRANADA – ESPANHA

Partimos de Sevilha pela bela Estação Santa Justa, conduzidos por um agradável taxista espanhol [coisa rara!] que dizia de seu desejo: conhecer o Brasil de verdade e “não aqueles pacotes de Resort que as agencias daqui oferecem”.  O veloz, moderno e bem confortável, trem foi cortando o sul da Espanha em meio a plantações disciplinadas de oliveiras. Num percurso de 3 horas até Granada, a verde oliva predominava em relevos totalmente cultiváveis. Ainda era possível ver os últimos momentos da colheita: os azeites da Andaluzia são muito apreciados.

caquis nos jardins de Alhambra

 Chegamos a Granada no meio do feriado “de los reyes” com um único propósito: visitar o Palácio Alhambra e a Catedral com seu entorno que eram moradias e comércio árabe. Nesta cidade pode-se ter a exata proporção da presença da realeza. La Alhambra: um palácio mágico, sublime e encantador. Por razões de preservação do patrimônio, há limite de vagas para a visitação. Compre seu bilhete com antecedência (http://alhambra-patronato.es), assegurando assim sua viagem pelo túnel do tempo preservado na inscrição de letras árabes.

arabescos no Alhambra

No século VIII o Mar Mediterrâneo estava sob controle dos árabes muçulmanos. Dominando todo o norte da África, atravessaram o estreito de Gibraltar e conquistaram os principais rios no sul da Europa. Em 1238, Muhammad I. Al-Ahmar, fundador da dinastia Nazari, instalou sua corte na “Colina de la Sabika”, iniciando a edificação dos palácios que compõem  La Alhambra: O Palacio del Mexuar, o Palacio de Comares e o Palacio de los Leones. Os sucessores da dinastia Nazari reinaram até 02 de janeiro de 1492: o dia da rendição. “Los Reyes Católicos”, Isabel I de Castilha e Fernando II de Aragón assumiram o poder, impondo a unificação da Espanha. Allambra tornou-se sede do poder aristocrático cristão. Os árabes foram mortos, expulsos ou subjugados pela conversão ao cristianismo. A Andaluzia tornou-se as terras dos reis católicos. Versículos o Alcorão Sagrado, poemas e preceitos ficaram inscritos no estuque, eternizando a rica presença dos árabes na constituição histórica da cultura Européia que colonizou as Américas.

luminosa harmonia

Transformada em Casa Real e sede da Capitania Geral do Reino de Granada, La Alhambra passou por reformas e ampliação. Capturados pela beleza harmônica entre os arabescos em estuque e os azulejos, os Reis Católicos souberam preservar a riqueza deste patrimônio árabe. Conta-se, por exemplo, que foi na Sala de los Reyes que ocorreu a rendição e que, neste mesmo lugar, Cristovão Colombo recebeu a ordem real para embarcar para a América. As paredes do Alhambra são testemunhas de verdadeiros acontecimentos.

interior do Palacio Carlos V

Em 1526, Carlos V visitou Alhambra depois de casar-se com Isabel de Portugal. Lá decidiu construir um palácio e, deste lugar, comandou toda região andaluza. O Palácio Carlos V é um exemplo singular do Renascimento Espanhol. Atualmente, o palácio abriga o Museu de Belas Artes com um acervo significativo desde o século XV ao XVIII.  No salão de exposições temporárias,  pudemos apreciar as telas de Henri Matisse após sua primeira visita ao Alhambra em 1910.

patio de arrayanes - Alhambra

A Alhambra visitada por Matisse estava se organizando para ser um pólo de atração turística. Em 1870, La Alhambra foi declarada Monumento Nacional e, em 1984, La Alhambra y El Generalife foi considerada como Patrimônio Mundial pelo Comitê de Patrimônio Mundial da UNESCO. O grande trabalho de restauração ocorreu entre 1923-1936, coordenado pelo arquiteto Leopoldo Torres Balbás. A Alhambra de Matisse estava povoada pela leitura de “Contos de Alhambra”, escritos por Washington Irving – americano que se hospedou no Palácio  em 1829 e lá encontrou inspiração para seus contos.

cartaz da exposição

Nas telas, Bodegón Sevilla I e Bodegón Sevilha II, expostas pela primeira vez, Matisse expressou o feliz encontro com Alhambra. O catálogo da exposição considerou este encontro decisivo para uma nova perspectiva que o pintor adotou em suas telas: apreciar a realidade exclusivamente no visual. Para Matisse, a cor e a forma são recursos que convocam a uma nova realidade artística mais decorativa e autônoma, cuja razão de ser não é o modelo de representação tradicional, mas sim tudo que o possa incluir, tal como um tapete oriental. De Granada o pintor partiu para o Marrocos e ficou encantando com as odaliscas: fez várias interpretações pictóricas com este tema, tendo como elemento decorativo, as parades de Alhambra.

Alcazaba

Alcazaba é a fortificação militar de Alhambra e, portanto, o primeiro a ser construída. A Torre da Vela, a Praça das Armas e a Torre das Homenagens demonstram a forma triangular da edificação árabe. Generalife, na parte mais alta da colina, foi projetado para o rei se retirar do palácio e não ser importunado. Vários jardins e um pequeno palácio com um “Mirador Romántico”: de onde se tem a mais bela vista de toda a cidade. Lugar onde o rei contemplava suas terras e súditos. Lugar do ócio e aventuras românticas.

nave central da Catedral de Granada

O início da construção, em 1523, da Catedral de Granada marca a extensão da Capela Real, edificada entre 1506-1521. A Capela abriga o cenotáfio dos Reis Católicos Fernando de Aragão e Isabel de Costela, responsáveis pela unificação dos povos da Espanha sob monarquia única, enlaçando a Espanha com Portugal, Inglaterra e Áustria, no enlace matrimonial de seu filho e suas filhas. A Rainha Isabel era devota fervorosa e promoveu uma ampla reforma na Igreja Espanhola impulsionando o processo de catequização dos povos ameríndicos das colônias conquistadas.

acervo do Museu do Prado

la virgem y las ánimas del purgatório (1517) - Pedro Machuca

Admiradora da arte pictórica flamenga, D. Isabel colecionou um tesouro artístico ímpar dos séculos XIV e XV exposto na sacristia da Capela Real. A coroa da Rainha e a Espada do Rei fazem parte do conjunto de peças de ourivesaria que compõem o acervo. Uma tela despertou em mim certo estranhamento: a Virgem Maria está amamentando o menino Jesus com o seio desnudo; o garoto interrompe o deleite, vira em torção e fixa o expectador com um olhar intrigado. Este, por sua vez, não sabe se olha o belo peito da mãe ou para o rosto inquiridor do filho que foi interrompido em seu ato. Só depois, no Museu do Prado, fiquei sabendo da devoção dos espanhóis a “Virgem de la leche”. Tema pictórico predominante no período da Contra Reforma, a imagem de Maria amamentando seu Filho tornou-se ícone simbólico do vínculo da maternagem e desse modo, o imaginário familiar cristão foi sedimentando a cultura espanhola. No Museu de Arte de São Paulo, temos uma versão do tema na tela “A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração” de Giampietrino, filho da Lombardia no início do século XVI.  

"A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração"

Indicações de vídeos:

1) visadas de Alhambra com perspectiva nos elementos árabes da arquitetura e decoração [atente para as letras árabes inscritas nas paredes e no belíssimo solo musical]:

 http://www.youtube.com/watch?v=zxMi5gh7wrc&feature=related

2) passeio pela Catedral de Granada com canto gregoriano ao fundo:

 http://www.youtube.com/watch?v=6G51nH49dUs&feature=related

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA IV

6ª Estação: SEVILHA – ESPANHA

Meu imaginário de Sevilha estava inundado de uma expectativa desejante. Cenário de referências estéticas determinantes, Sevilha é um porto no rio Gualdaquivir irradiando cultura por toda a península andaluza. Escolhemos um palacete restaurado como hospedaria, localizado ao lado da Catedral. Partimos do aeroporto de Lisboa e atravessamos o sul da Espanha pelas nuvens até escala de duas horas no aeroporto de Barcelona: deslumbrante! De lá, um teco-teco da Spanair nos levou a Sevilha. Mesmo lesados pelo taxista conseguimos chegar ao Hotel Petit Palace Marques de Santa Ana [recomendávell]. Impressionados pelo labiríntico das ruas, conseguimos estabelecer algumas coordenadas geográficas.

detalhe do palácio na Praça da Espanha

 Pela manhã, um passeio de coche para conhecer os principais pontos de visitação permitiu estabelecer escolhas [uma infecção de garganta limitou; um feriado inesperado, limitou mais ainda]. Sevilha estava fervilhando. As praças, as ruas sinuosas, as casas de tapas… todos os espaços estavam tomados por uma multidão de todas as idades. Nunca vi tamanha concentração de carrinhos de bebês por metro quadro. Famílias inteiras vagueavam pelos espaços, dia e noite, sem parar. Só então viemos a descobrir: estávamos numa grande festa familiar, “A Cabalgata de los Reyes Magos”. No dia 05 de Janeiro às 13h a cidade fechou suas portas para assistir a Cabalgata de Reyes Del Ateneo.

carro alegórico na Cavalgada dos Reis

O cortejo partiu da Universidad de Sevilha, situada no prédio da antiga Fabrica Real de Tabaco [cenário legendário da ópera Carmem, de Bizet]. Percorreu várias regiões históricas, atravessando a Puente de Isabel II, seguindo para Triana [localizada na outra margem do rio Galdaquivir]. Retornando pela Puente de los Remedios até finalizar na Universidade. É um grande espetáculo tradicional de união familiar: crianças enfeitadas sobre carros alegóricos atiram caramelos e guloseimas sobre o publico assistente. Bandas musicais [estilo fanfarra], formadas por escolares, animavam as caravanas que antecipavam a passagem do trono de Melchior, Baltazar e Gaspar – os Reis Magos seguidores da estrela brilhante.

fim do desfile - tapete de caramelos pisoteados

Um tapete de caramelos, pisoteados por cavaleiros e carros alegóricos fica como rastro e resto desta festa infantil. Crianças com sacolas repletas de doces que deverão ir para o lixo no dia seguinte. Aos o desfile, os núcleos familiares retornam aos seus lares para trocar presentes e saborear a “torta de los reyes”: vendida aos milhares em toda casa de doces. A epifania, festejada no suposto dia em que os Reis Magos encontraram com o menino Jesus, é um aspecto interessante para marcar a presença determinante da cultura árabe na Andaluzia. Os beduínos que desfilavam no cortejo faziam parte do esquadrão de proteção a cada um dos Reis. Seus trajes e a cor da pele demonstravam suas origens:  magos do oriente.  São eles que trouxeram os presentes para do Deus menino: incenso, ouro e mirra. Presentes que os espanhóis receberam, atualmente, naquela manhã de inverno, com manchete no maior matutino do País: “Os Reis Magos são chineses: a China anunciou que vai comprar parte da dívida interna”.  Um bom presente no momento de crise econômica!

Gualdaquivir, visto da Torre do Ouro

06 de Janeiro é feriado religioso: no dia dos Reis Magos também se comemora Nuestra Señora de los Reyes, patrona de Sevilha e da Arquidiocese. Em meio a isso tudo, conseguimos visitar apenas a Catedral, com sua magnífica torre La Giralda; a Plaza de Toros de La Real Maestranza; a Torre del Oro [que abriga o Museu Naval] e, a exuberante Plaza de España. Sevilha é um espetáculo, uma cidade monumental: seu patrimônio histórico sobreviveu icólume as guerras mundiais. Sua história remete aos Imperadores Trajano e Adriano em seus propósitos expansionistas. A cidade murada seguia o padrão das construções romanas: ruas com casas chamadas “domus”, residências de uma família. Com o controle das navegações pelo mediterrâneo, os impérios árabes-muculmanos foram se estabelecendo na Península Ibérica. Córdoba e Sevilha foram grandes centros de irradiação da cultura e comércio árabe. Artigos de luxo (tapetes, veludos, sedas, porcelanas, moveis, jóias, perfumes , etc) transportados em embarcações e caravanas partiam de Sevilha para abastecer o norte da Europa.

O rio Guadalquivir sempre foi o verdadeiro motor de Sevilha. O primitivo rio Tartessos, que os romanos chamaram Betis e os árabes wadi al-kabir (“rio grande”), de onde procede seu nome actual, nasce a 1600 metros de altura, na Serra de Cazorla, na província de Jaén, e percorre 590 km de terras andaluzas até chegar à costa atlântica. Este rio acolhe ao único porto fluvial de Espanha, situado a 80 quilómetros do Atlântico e muito próximo do Mediterrâneo, abrangendo uma superfície de três milhões de metros quadrados

Torre del Oro

A Torre del Ouro, construída no século XIII como abrigo militar de defesa é um marco para interpretar a história desta cidade medieval, edificada nas margens do  Gualdaquivir. Numa conferência em 1970, na Universidade de Keio (Japão), Michel Foucault citou o trabalho do historiador Pierre Chaunu, “Séville et Atlantique”, compêndio em 12 volumes publicados no final de 1950, para destacar a importância dos arquivos do Porto de Sevilha. Assumindo a perspectiva de uma “história serial”, Foucault afirmou: “A história não é, portanto, uma duração; é uma multiplicidade de tempos que se emaranham e se envolvem uns nos outros. É preciso, portanto, substituir a velha noção de tempo pela noção de duração múltipla (…) É preciso multiplicar os tipos de acontecimentos como se multiplica os tipos de duração. Eis a mutação que está em vias de produzir atualmente nas disciplinas da história” (in: “Retornar à História” – Coleção Ditos e Escritos II – Forense Universitária, 2000). A Torre pode considerada um exemplo disso que Foucault chamou de “duração múltipla”. Do árabe “Bury al Dahab” (Torre Dourada) em referência a sua parte superior revestida de azulejos dourados que refletiam o Sol e, desse modo, poderia ser vislumbrada a quilômetros de distância. Também designa o ouro das Américas que eram descarregado aqui.

La Giralda

La Giralda, erigida como minarete para a mesquita muçulmana, foi construída entre 1184 a 1198 por Ahmed Ben Baso [autor de outros minaretes idênticos construídos no norte da África]. O corpo da torre é de ladrilho e, desde 93 metros de altura, pode-se apreciar uma vista panorâmica de Servilha, subindo 35 rampas [não há escadaria] que foram construídas para que o almuédano, encarregado de convocar os fiéis para a oração, pudesse subir a cavalo.  Em 1558, com Sevilha dominada pelos reis católicos e com o enriquecimento impulsionado pelo ouro das Américas, as autoridades eclesiásticas decidiram edificar um novo arremate para que La Giralda simbolizasse o poder cristão. Substituiram as esferas de bronze por um novo campanário coroado por uma estátua de bronze em forma de cata-vento [“giraldilho”, de onde provém o nome da torre].

Pátio das Laranjas - Catedral de Sevilha

Nas capelas laterais encontram-se um dos maiores tesouros artísticos. Oitenta vidraças flamencas do século XVI ornamentam em reflexos multicores os objetos de decoração de cada capela. A Capela Real é dedicada em louvor e veneração a Nuestra Señora de los Reys. A Catedral abriga o mausoléu [construído em 1890] com partes do corpo de Cristovão Colombo que foi transladado de Cuba. Quatro heraldos, representando os reinos de Castilla, Léon, Aragón y Navarra, carregam nos ombros o esquife do grande herói espanhol, o descobridor da América. Há várias reproduções pictóricas de duas belas jovens virgens que foram martirizadas no século III pelo prefeito romano de Sevilha por terem se recusado a participar das celebrações à deusa Vênus. As jovens irmãs, Justa e Rufina, foram santificadas e veneradas como padroeiras da cidade. Nas telas são sempre representadas juntas com traços de rara beleza. Santa Justa e Santa Rufina são aclamadas patronas dos ceramistas e sempre estão com peças de barro produzidas por seu pai e que elas vendiam nas feiras.

Sta Justa e Sta Rufina (1666) - óleo sobre tela de Bartolomé Murilo

esquife de Cristovão Colombo na Catedral

A Plaza de Toros de La Real Maestranza é o cenário recorrente no imaginário sobre Sevilha. Os torneios ocorrem no início do verão e continuam com a tradição – apesar dos politicamente corretos da atualidade. A arena com arcos abriga até 14 mil espectadores iniciou sua construção em 1761. Antes do século XIX, não havia a figura do toureiro, o matador. Aos poucos o cavaleiro dispensou seu instrumento e resolveu enfrentar o touro com seu balé de sedução. Os ornamentos na vestimenta, a capa e espada servirão ao matador para exercitar sua arte: a touromaquia. Enquanto ouvia as explicações da simpática guia de visitação, lembrava das cenas da ópera Carmem, a cigana sedutora. De igual modo, a cena do livro A História do Olho, de Georges Bataille, ressurgiu com intensidade diante da arena: “Granero distinguia-se de outros matadores pelo fato de não ter, de forma alguma, a aparência de um carniceiro, mas antes a de um príncipe encantado, muito viril, perfeitamente esbelto (…) A capa de um vermelho vivo, a espada brilhando ao sol, diante do touro agonizante cujo pêlo continua fumegando, deixando escorrer sangue e suor, completam a metaformose e realçam o aspecto fascinante do jogo.” (Cosac & Naify, 2003).

vista aérea da Plaza de Toros

fragmento da arena de toros

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA III

Ainda em Lisboa… dois passeios

1º) Religioso: visitar a Basílica de Nossa Senhora de Fátima. Na estação de autocarro (ônibus) do metro Jardim Zoológico seguir para o município de Fátima. A rodovia moderna vai margeando uma encosta pedregosa com pinheiros e castanheiros resistentes. O vilarejo – hoje cidade – se criou no entorno da Capelinha das Aparições. Na Cova da Iria, na região de Ourém, nos dias 13 dos meses de maio, junho, julho, setembro e outubro de 1917, três crianças, pastores de ovelhas, viram e ouviram a mãe de Jesus. Dois anos depois faleceu uma delas: Francisco Marto. No mesmo ano, iniciam a construção da Capelinha. Na ano seguinte, faleceu a segunda criança: Jacinta Marto, num Hospital de Lisboa [o corpo dos irmãos Marto estão sepultados na Basílica].

Em 1930 através da Carta Pastoral “A Divina Providência”, o Bispo de Leiria declara “dignas de crédito as visões das crianças na Cova da Iria” e permite oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima. Em 1942, o Papa Pio XII, falando em português pela rádio, consagra o Mundo ao Imaculado Coração de Maria, com menção velada a Rússia, segundo o pedido de Nossa Senhora: rezar o terço para nos proteger do comunismo, representado como ateímo materialista. No mesmo ano, o movimento feminino portugues ofereceu à imagem de N. Sra. de Fátima, uma coroa de ouro e pedras preciosas, confeccionada com jóias arrecadadas  numa campanha nacional em ação de graças por Portugal não ter entrado na 2ª Guerra Mundial. Atualmente, a coroa tem incrustada a bala que atingiu o Papa João Paulo II. O Pontífice ofereceu a bala que lhe trespassou o corpo no atentado de que foi vítima em Roma, a 13 de Maio de 1981, em sinal de agradecimento à Virgem, por lhe ter salvo a vida (in: http://www.santuario-fatima.pt/portal/). Sr. Norberto, garçon no Hotel Príncipe [onde ficamos hospedados] quando soube de nosso passeio por Fátima, contou-me – com um tom de raíva – o fato de sua sogra, camponesa portuguesa, ter doado todas as joias de herança familiar na campanha para ourivesaria da clássica coroa da santa.

O Santuário de Fátima é um centro de peregrinação composto pela Capelinha das Aparições, local onde as crianças disseram que viram, e ouviram, a imagem e a mensagem de Maria, a mãe do filho de Deus;  a Basílica,  construída no período de extensão devocional; e um novo templo, a Igreja da Santíssima Trindade, com arquitetura moderna, de grande proporções, para abrigar os fiéis em períodos de festas religiosas. Um comércio local, bem organizado, oferece pratos da cozinha típica e objetos ligados ao culto e devoção.

Uma curiosidade: no Alcorão Sagrado, a palavra Al Fátiha significa “A Abertura”. É a primeira palavra a anunciar a 1ª Surata, revelada em Makka, composta de 7 versículos que sintetizam os seguidores de Allah, o Clemente, o Misericordioso (vide a tradução do Alcorão publicada na Coleção Folha – Livros que mudaram o mundo, volume 19, 2010). Outra interpretação posssível: Al Fátiha designa também A Mulher, aquela que contém uma abertura por onde a vida renasce. Também abertura é a Cova da Iria, lugar onde as crianças pastores viram e ouviram a Virgem de Nazaré.

por do sol no pátio da Basílica

Reproduzo nota de atualidade:  (in: http://www.cm-leiria.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=27511)

“A Câmara Municipal de Leiria associa-se ao “Dia de Luto Municipal”, através do hastear da bandeira municipal a meia adriça, pela catástrofe que fustigou o Brasil, na sequência de uma proposta da Associação Nacional dos Municípios Portugueses – ANMP. Este acto simbólico constitui a manifestação do poder local português, em respeito e solidariedade pela tragédia que se abateu sobre o povo e as instituições brasileiras, sobretudo a todos os que mais afectados foram, na região serrana do Rio de Janeiro. De acordo com a circular da ANMP, “apesar de fisicamente distantes, confirmamos, assim, uma presença solidária, activa, representada no luto municipal que iremos respeitar no Portugal inteiro.  Leiria, 21 de Janeiro de 2011”

2º) Profano:  ouvir fado numa taberna no bairro Alfama. Locallizado no cais do Tejo, Alfama é uma das marcas mais significativas da presença dos árabes em solo português. O seu nome deriva do árabe “al-hamma” que significa banhos ou fontes. Lugar de refúgio dos marginalia e marinheiros, o bairro mais antigo de Lisboa passou por um processo de resgate e hoje é um dos lugares mais animados das noites lisboetas. Há dois passeios: o diurno e o noturno. O diurno permite perder-se nas ruas estreitas a formar um labirinto multicolorido em fachadas de azulejos a subir nas encostas do morro. Vasos floridos e roupas estendidas nas janelas anunciam as vidas que habitam este cenário onírico. O passeio noturno deve restringir-se à área onde se localizam as tabernas com shows de fado. Como os espaços são muito pequenos é preciso reservar lugar. Cuide-se para não cair nas ciladas a capturar euros de turistas desavisados: prometem um show e querem vender um jantar caro e com a rapidez de um rodízio.

O fado é a alma portuguesa: melancólico até a medula! Ao mesmo tempo, sutil em sua alegria descuidada. A guitarra portuguesa dialoga [ia dizer acasala] com a voz feminina. Ouvimos uma exuberante negra das colônias portuguesa na África cantando clássicos do fado. Sua voz, harmonicamente sintonizada com as guitarras, levou-me a pensar no caráter intraduzível da palavra saudade. O fado é o canto da saudade: o amor que fica.

fado na Taberna del Rey - Alfama

Assistam o belo vídeo no link abaixo com voz da imortal Amália Rodrigues cantando “Lisboa Antiga”: 

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA II

2ª Estação: COVILHÃ

Na estação de comboios Santa Apolônia, no bairro de Alfama em Lisboa, seguir os trilhos que conduzem à Serra da Estrela. Margeando o Tejo, o comboio vai cortando plantações displicentes de oliva. A oliveira e a videira são simbólos determinantes na cultura portuguesa e espanhola. Antes da chegada do  inverno as olivas devem ser colhidas e seus galhos maiores devem ser podados. No inverno sul, o único verde predominante são os novos galhos das oliveiras. Alguns pinheiros e castanheiras resistentes colorem também o azul cinzendo dos dias chuvosos.

Estação Sta Apolônia

Covilhã foi escolhida para um Natal com neve. Fundada no século XII, a cidade vertente a 800 metros de altitude no sudoeste da Serra da Estrela foi capital do Reino de Portugal. D.João I conferiu o título de Senhor da Covilhã ao princípe herdeiro, o Infante D.Henrique. Atualmente há mais de 6 mil estudantes na  Universidade da Beira Interior que a cidade abriga. A vida estudantil dá vivacidade a esta cidade em declive. No período do Natal, com o recesso escolar, a cidade parece um fantasma numa encosta da serra. Esperamos a chuva de neve na praça central: não foi desta vez! Para brincar na neve é preciso subir de taxi até o cimo da Serra com 1993 metros de altitude. Lá no alto, D.João IV mandou construir em 1817, uma Torre com 7 metros para alcançar os 2 mil e ser, assim, o ponto mais alto de Portugal. Percorrermos 20 km de encostas e, aos poucos, o branco da neve vai cobrindo a paisagem até dominá-la totalmente – formando um monte de gelo com temperaturas de -10º. Criar um boneco de neve é o primeiro ato para o batismo no branco indecifrável. Uma hora de brincadeiras e o incômodo do frio começa a expulsar em busca de ambiente quente com vinho e chocolate. As vinículas da Serra da Estrela são excelentes. O queijo de ovelha, o presunto serrano e as saborosas azeitonas in natura são aperitivos inesquecíveis.

N.Sra.das Neves, esculpida no caminho da Torre

Com a cidade fechada no Natal e sem ter o que fazer, decidimos visitar duas vilas próximas: Sortelha e Belmonte. Guiados pelo patrício Antonio, um simpático e falante taxista portugues, passeamos pelas ruelas Sortelha: uma aldeia medieval toda cercada por alta muralha de pedras. O castelo Fortaleza tem o formato de um anel, donde derivada do latim sortilha. Nas casas de pedras construídas em declive encontrei uma senhora de 86 anos toda vestida de preto – em estado de luto permanente. Nascida nesta vila de pedra, Dª Filomena lá espera a morte chegar. Resignada a viver no casebre na crosta da muralha, ela tece fios de capim formando cestinhas que são oferecidas aos turistas. Reza seu rosário de lamentações e súplicas à Virgem das Neves: um dos múltiplos nomes de Maria, a mãe de Jesus. A pequena capela dedicada à Virgem das Neves é o único trajeto dessa portuguesa resistente.

Torre do Castelo Sortilha

 Belmonte foi a segunda paragem do passeio: uma aldeia medieval berço de Pedro Álvarez de Cabral. Na casa em que  nosso descobridor nasceu, há uma escultura e museu para rememorar os filhos de Belmonte que foram recrutados pelo Infante D.Henrique para trabalharem na Escola de Sagres e iniciarem o período das grandes navegações. Foram os filhos de Belmonte que realizaram a passagem do Cabo Bojador, em 1434, marcando o início do reconhecimento da costa ocidental da África.

estátuta de Cabral em Belmonte

3ª Estação: PORTO

Desde a estação de autocarro de Covilhã seguimos pela rodovia que contorna a Serra da Estrela em direção ao Porto.  Associado ao típico vinho produzido nas margens do rio Douro, Porto é uma cidade perdida num tempo pretérito. A parte antiga da cidade demonstra sua importância histórica na consolidação da monarquia portuguesa. Com edifícios de estilos diferenciados, a cidade resplandece no românico da Catedral da Sé, no gótico da Igreja de São Francisco, no renascentismo da Igreja da Misericórdia e no neoclássico do Palácio da Bolsa. As casas sobrados, coladas uma nas outras, decoradas com fachadas de azulejo, portam as marcas de um tempo longínquo. O estado de abandono dos imóveis centrais transparece na quatidade de placas anunciando a venda ou locação. Perguntei ao taxista [em geral gentil e gostam de conversar com brasileiros] sobre o estado de abandono da cidade. Ele foi básico, como bom portugues: “nos últimos anos a população foi reduzida em 50%”. Isso era visível!

centro do Porto

Ir ao Porto é atrevessar a pé a ponte Luis I, projetada pela equipe de Gustav  Eiffel no século XIX, para um passeio pela orla D’ouro em Vila Nova de Gaia. Do outro lado do rio, visitar uma das casas produtoras do vinho do porto e conhecer o processo de produção e comercialização do símbolo máximo da cidade: o vinho. Toneis de carvalho françês abrigam o sumo das uvas produzidas no Vale do Douro. Um tipo espécifico de solo é a situação ideal para criar videiras produtoras do néctar de Dionísio. Após o saber, o sabor: provar os diferentes tipos de vinho do porto. O sol vai deitando-se sobre as águas do caudaloso rio e, num passe de mágica, as casas do cais do Porto vão refltindo nas águas diferentes tonalidades. Parecia um quadro impressionista na fugacidade da luz.

Douro visto da Torre dos Clérigos

4ª Estação: COIMBRA

Da bela estação de comboios de São Bento [decorada com 20 mil azulejos formando painéis figurativos que narram a consolidação da monarquia portuguesa pela submissão dos Mouros] partimos para o acadêmico ambiente de Coimbra. A cidade e o turismo órbitam a Universidade. No século XVI, D.João III decidiu transferir a sede da Universidade de Lisboa para Coimbra. Banhada pelo Rio Mondego, o burgo que se construiu ao redor do castelo é um cenário encantador: um labirinto gostoso para andar sem rumo e nem direção. Parar numa lojinha aqui, numa florista alí, acolá uma quitanda. Na hora da fome, um saboroso “bacalhau lagareiro” acompanhado por uma jarra de vinho da casa. Bem alimentado, subir as encostas do morro que levam ao campus da Universidade.

por do sol na Sé Velha

Atravessando o Arco de Almedina chega-se à Sé Velha, um templo construido entre 1162 e 1184, marca do estilo românico. Pelo caminho encontrará a escultura da Triana, a musa inspiradora dos poetas e músicos. Aos  pés da Triana, os estudantes depositam suas esperanças de uma carreira promissora. Uma das experiências estéticas mais marcante foi a visita à luxuriosa Biblioteca Joanina. Revestida de ouro, suas paredes abrigam mais de 200 mil exemplares de livros, em sua maioria em primeira edição. A arca do tesouro está guardada na Biblioteca Joanina.

Conhecida como Casa da Livraria, recebeu os primeiros exemplares em 1750. A construção do edifício no início do século XVIII foi projetada para ser a casa de livros. As paredes possuem 2 metros e 11 centímetros de espessura. A porta deste cofre é feita em madeira de teca, o que permite uma temperatura constante de 18º a 20º C. As estantes são feitas de madeira de carvalho dificultando a penetração de cupins e traças. Além disso tudo, os livros contam com a proteção de um esquadrão de morceguinhos que devoram todo e qualquer tipo de inseto, realizando assim um controle biológico a proteger os preciosos exemplares da coleção que data dos séculos XVI a XVIII – representando assim a história do livro na Europa. Um exemplar exposto é o original estatuto da Universidade de Coimbra, redigido pelo Marquês de Pombal. Para brindar, um trio de jovens alunos do curso de música, apresentavam sonatas e canções no coração da Biblioteca. Sentei-me ao chão, sonhando com a possiblidade de manusear as raridades que aquele brilhante teto abriga.

anoitecer no Largo da Portagem - Coimbra

5ª Estação: LISBOA

Retorno a Lisboa com o trêm de alta velocidade. Com tempo maior  para passeios, defimos prioridades. O que visitar e quando? Começamos pelos mais tradicionais: Mosteiro dos Jerônimos, o jardim em frente com o magnífico momumento Padrão do Descobrimento, inaugurado em 1960 para as celebrações do 5º centenário de morte do Infante D. Henrique, o grande idealizador das navegações portuguesas. Na proa de uma grande caravela, a estátua do Infante é ladeada por figuras da familia real, freis dominicano e franciscano, escritores e navegadores responsáveis pela cronologia dos descobrimentos portugueses, desde 1427 a 1525. Mais adiante, a Torre de Belém, a ultima visão que os navegadores tinham de Portugal quando partiam pelo Atlântico. Na Torre há uma capela onde os desbravadores do além mar buscavam a proteção de N.Sra. da Boa Viagem. Para terminar o passeio por essas bandas, um café com pastel de Belém na fabrica onde é produzido esta iguaria luzitana. Peça logo uns 3 para sentir essa delícia dos céus.

mosteiro visto do padrão dos descobrimentos

A Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional ficam no campus da Cidade Universitária  e são atrações para os que gostam de livros. Exposições temporárias e temáticas são um atrativo interessante para conhecer a cultura portuguesa. Encontramos uma que rememora o centenário da fundação da República em Portugal. Com o título “Res/publica: cidadania e representação política em Portugal”, a Bilioteca Nacional mostrou exemplares da Constituição Politica e a reprodução deste período na imprensa. Fotos, noticias de jornais e charges bem humorada contavam a histótia do processo de escolha do governo pelo processo eleitoral.

O tema da exposição era um bom exemplo para ler a situação política portuguesa na atualidade. Vivendo uma crise econômica, os lisboetas criticam a adesão de Portugal à Comunidade Européia. No processo de escolha presidencial neste janeiro de 2011, os portugueses estavam espantados com o nível da campanha presidencial. O debate girava em torno do pedido de socorro ao FMI para ajudar a equilibrar as contas públicas. A dívida interna chegou em níveis de falência do Estado. O noticiário dizia que Portugal era a bola da vez na crise que esta a consumir a economia do Euro.

Torre de Belém numa tarde chuvosa

O Museu Nacional dos Azulejos é parada obrigatória para um turista. Criado em 1980 no Convento da Madre de Deus – fundado em 1509 pela rainha D. Leonor como abrigo para as discípulas de Santa Clara. As monjas clarissas viviam num claustro maneirista do século XVI com uma imponente capela que sintetiza em sua decoração, o azulejo até o meio das paredes e a parte superior com representações pictóricas esplendorosas. A capela de Santo Antonio, com rica decoração barroca setecentista é uma alucinação visual. Nas paredes um emaranhado formando relicários com pedaços de ossos e outros objetos pessoais.

 A coleção abarca a produção azulejar desde a 2ª metade do século XV até a contemporaneidade. Marca indeléval da presença dos mouros na Península Ibérica, os azulejos chegaram a Portugal no século XV proveninetes de Sevilha e Valência. O azulejo com a esfera amilar, emblema de D.Manuel I, foi um marco da importância dos azulejos na decoração dos palácios dos reis e fachadas urbanas. O painel “Nossa Senhora da Vida ” de 1580 demonstra a policromia que o azulejo permite. No século XVIII , por influencia holandesa, o azul predomina nas representaçõs iconográficas da vida dos nobres em caçadas, danças, vasos de flores. Também encontra-se cenas de batalhas marítimas e campestres realizadas no reinado de D.João V. No restaurante do museu foram reaplicados azulejos de uma cozinha do século XIX para demonstrar a função do azulejo como valorização dos espaços cotidianos.

Atena azulejada

Outro passeio encantador parte do Terreiro do Paço, lugar onde o comércio marítimo portugues acontecia. As caravelas aportavam no Terreiro com as mercadorias oriundas do Brasil, das colônias na Africa e dos mercadores na Índia. Passando o Portal, seguir pela Rua Augusta em direção ao Chiado. No caminho, numa marisqueira disponível, apreciar o sabor da Sapateira – uma espécie de caranguejo gigante. Da Baixa, subir pelo elevador até o Chiado e de lá contemplar a cidade baixa com sua história em cada fachada. O bairro Chiado é um centro de atração social frequentado por artistas e escritores.  O bairro leva o nome de um poeta português do século XVI. No largo encontra-se o café “A Braileira” frequentado pelo poeta Fernando Pessoa. Dizem que foi nas mesas deste café que o poeta escreveu grande parte de sua obra. Ao lado se encontra a Basílica dos Mártires, edificada em 1147 logo após D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, ter conquistado Lisboa  expulsando os mouros. O templo foi dedicado a N.Sra dos Mártires em memória dos soldados que morreram em combate. Com o terremoto de 1755, o templo foi totalmente destruido. Reerguida em 1784, a obra atual contou com o trabalhos de artífices e pintores escolhidos diretamente pelo Marquês de Pombal, utilizando os melhores materiais disponíveis na época: pedra, mármores, madeiras e ferragens.

uma rua no Chiado

A modernidade urbanística de Lisboa pode ser vista no bairro Oriente. O Parque das Nações reurbanizou a margem do Tejo para a Expo 98 com construções planejadas contando com um conjunto de edificios de arquitetura arrojada, um Ocenário de grandes proporções [com mais de 15 mil espécies dos cinco oceanos e o maior da Europa] e um shopping center abarrotado, o Centro Comercial Vasco da Gama. No shopping pode-se saborear um delicioso “Bacalhau ao Murro” no Restaurante Portugália com  bonita vista do parque. Em contraste, um passeio no Castelo São Jorge para ver as ruínas da presença dos mouros em solo português.

Castelo São Jorge

cores do inverno no Parque das Nações

Passeio pela Península Ibérica

“Eis aqui, quase cume da cabeça / De Europa toda, o Reino Lusitano, /Onde a terra se acaba e o mar começa, /E onde Febo repousa no Oceano” 

(Luis de Camões – Lusíadas – canto III)

 A península ibérica é nossa Europa. Fomos colonizados pelo reino de Portugal e da Espanha.  A América do Sul Latina e Latrina foi dominada, explorada, massacrada, espancada pelos europeus cristãos do sul da Europa. Enquanto os povos do norte alçavam rumo ao processo de industrialização do processo de produção burguês, os povos do sul viviam uma monarquia expansionista na conquista de terras do além mar. Como bravos navegantes de naus angustiantes, portugueses e espanhóis alçavam âncora no processo de mercantilização de riquezas naturais das terras americanas do centro-sul.

O mapa abaixo cartografa visualmente a extensão de terras do sul da Europa divididas entre o reino de Portugal, reino de Castile, o reino de Navarra (ao norte),  o reino de Granada (ao sul) e a leste ,o reino de Aragon.  O arquipélogo pertencia ao reino de Majorca. Este conjunto de terras européias divididas em reinos de 1270 a 1492 será reordenado em duas monarquias: Portugal e Espanha.  

peninsula ibérica 1492

Primeira Estação: Lisboa – sob os pés a terra de matriz colonizadora e forjadora de identidade lingüística. Almoço nas margens do Tejo com a melancolia estética de um recomeçar: lançando nas lançadeiras da alegria inesperada de um dito espirituoso.

Começo mítico – estrutura de verdade  / Origem mística – devoto da esperança / Início mitigo – cambaleante no vinho

Meio sísifico – feliz na decida /Meio prometéico – com o fígado regenerado

Fim edípico – em Colono errante /Fim antígono – entre duas mortes a fazer herói