Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

Arquivo para Viagens

IGREJAS DE PARIS – Basílica de Saint Denis

As dezenas de igrejas espalhadas pela cidade de Paris demonstram a história da monarquia católica. Como um dos reinos cristão mais importante da Europa, Paris concentra verdadeiros tesouros arquitetônicos desde o gótico medievo, passando pelo renascentismo e barroco clássico até o romantismo do 2º império. Visitar as igrejas é adentrar num território em que o sagrado é o fundamento da política. A história de Paris pode ser narrada por suas igrejas que abrigam sepulturas de reis, rainhas, príncipes e princesas. Abrigam também os restos mortais de escritores, pensadores, artistas que muito colaboraram para ornamentar o ambiente devocional.

Basílica de Saint Denis

O estilo gótico lançou seus marcos fundadores no período medieval e sob a espada de Clóvis derrotou os romanos no final do século V,  instaurando o cristianismo como religião oficial do reino franco. Nas cercanias de um cemitério galo-romano ao norte de Paris foi edificado a primeira igreja sobre o túmulo de St. Denis, o primeiro bispo dos franceses, decapitado pelos romanos no ano 250. A tradição atribui a Santa Genoveva a construção do primeiro santuário em torno de 450.

exemplar gótico de grande esplendor

A atual Basílica de Saint Denis foi edificada a partir deste santuário que rapidamente tornou-se um centro de peregrinação. Ao seu redor foi edificado um monastério beneditino e desde o século VII passou por varias transformações com o impulso inicial do rei Dagoberto que tornou-se o benfeitor e elegeu St. Denis como patrono e protetor dos monarcas. A história da Basílica se funde com a historia da monarquia cristã, abrigando túmulos de praticamente todos os regentes até Luis XVI e Maria Antonieta.

interior da Basílica com rosácea ao fundo

Sob a regência do abade Suger (1122-1151), conselheiro real, a Basílica adquiriu novas técnicas arquitetônicas, rosáceas e abóboda sobre cruzeiro de ogivas. Um esplendor de luz inundou o espaço que consagrou reis e rainhas. Ao mesmo tempo, neste espetáculo luminoso, os restos mortais da monarquia descansam em paz. A abside do abade Suger foi projetada para ostentar as relíquias dos mártires. A ausência de muro concreto entre as capelas centrais e a abside (capela em formato semicircular atras do altar-mor ou nave central) criam um muro de luz contínuo. Dos vitrais do abside somente cinco foram poupados da destruição pelos revolucionários franceses do final do século XVIII. Nesta capela luminosa estão as efígies da monarquia merovíngia – o rei Clóvis e seus filhos  são a gênese do cristianismo na França.

abside do abade Suger

A Basílica abriga atualmente mais de 70 efígies e túmulos, sendo considerada  uma coleção única na Europa. No passeio pela Basílica podemos apreciar os avatares da arte funerária, das efígies do século XII esculpidas  com os  olhos abertos; também  as grandes composições do Renascimento que associavam a morte à esperança da ressurreição. Foi exatamente neste significante que a sensação do expectador repousou: pareceu-me que toda aquela monarquia ali sepultada sob o manto infinito da luz, estão a espera da ressurreição.

túmulo de Henrique II e Catarina de Médicis

Dentre os monumentos funerários, destaque para o túmulo do rei Dagobert I, grande representante da dinastia Merovíngia; e para o templo funerário de Henrique II e Catarina de Médici, representantes da dinastia dos Valois. O tumulo do rei foi edificado em meados do século XIII a pedido dos monges beneditinos que o consideravam seu fundador. Esta situada no lugar onde o soberano foi inumado em 639. Seu corpo foi esculpido com a cabeça virada à direita, como se estivesse a olhar eternamente para as relíquias de St. Denis. As esculturas que adornam o túmulo, ilustram a lenda do eremita João que sonhou com a alma de Dagobert sendo arrancada dos demônios, graças a intervenção dos santos Denis, Maurice e Martin.

símbolo da realeza sepulta

O túmulo templo de Henrique II surgiu da vontade expressa de Catarina de Medici para a memória de seu esposo e em honra os Valois. Foi desenhado por Primticio e esculpido por Germain Pilon entre 1560-1573,  utilizando uma combinação equilibrada entre o mármore e o bronze, este monumento é um exemplar da presença da arte italiana em solo francês. Os anjos, representantes de cada uma das virtudes, adornam este mausoléu de mármores multicoloridos que se intensificam com a luz da rosácea lateral do transepto norte.

rosácea central

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ÓCIO EM PARIS

O cultivo do ócio é um exercicio de liberdade. Viver no ócio não quer dizer ficar sem fazer nada. Praticar o ócio é fazer nada útil, que tem utilidade visando um fim determinado. O ócio requer uma suspensão temporária das atividades laborais rotineiras: 2ª, 3ª, 4ª…. Quando se esta no ócio, o tempo flui sem a marcação cronológica. É acordar e se perguntar: O que vou fazer hoje? Nada de útil.

“Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda  fins, propósitos e intenções. A beleza das ruínas? O não servirem mais para nada. A doçura do passado? o recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente, e ele nem o é, nem pode ser – o absurdo, meu amor, o absurdo”. (Bernardo Soares,  “O livro do desassossego”)

Torre Eiffel

Fazer turismo é praticar o ócio. Para tanto, não pode ser um pacote coordenado por um agente de viagem. O viajante deve ser autônomo o bastante para tomar as decisões de onde e como ir de um lugar ao outro. O que vai visitar, o que deseja conhecer empiricamente e o que minimamente já sabe através de leituras e pesquisa na internet. Ajuda muito se o ócio é praticado num local já conhecido. As coordenadas geográficas básicas são importantes para não ter o tempo subtraído do cultivo do ócio. Saber o que evitar e algumas noções sobre a logística dos meios de transporte são ferramentas fundamentais para mover-se num flanar sem direção.

Sena visto da Rue du Théâtre

No Houaiss Eletrônico, o vocábulo ócio é designado semanticamente como cessação do trabalho; folga, repouso, quietação, vagar. É também um espaço de tempo em que se descansa, falta de ocupação. Por derivação, sentido figurado, ócio é trabalho leve e agradável. Nesta trama de significação, vagar é o sentido apropriado para designar uma viagem a Paris. Vagar, vagabundear, flanar, perambular. Andar ao leu com uma  certa curiosidade infantil de tudo tocar, sentir, cheirar. Deixar os olhos serem conduzidos e condutores. Cultivar o ócio em Paris é deixar-se seduzir pelas encruzilhadas de suas ruas, pela  história destas cercanias em torno de um caudaloso e belo rio.

Pont Neuf com a île de la Cité ao fundo

Paris é para ser degustada passo-a-passo. Uma Igreja aqui, um museu ou palácio ali, um jardim e praça acolá. Entre um e outro, comer croissant, baguete e tomar agua perrier. Entrar em Paris é atravessar o portão e adentrar num espaço onde a história da cultura ocidental se inscreve em cada pedaço que a visão consegue capturar. Desde o século III a.C, a tribo celta dos parísios fixaram residencia na île de la cité que emergiu triunfante nas águas do Sena.

Opera Garnier

salão de estar do palácio da música – obra prima do 2º Império

Conquistada pelos romanos que ali fundaram a Lutécia: sede do império ao norte da Europa. O mito cristão fundador é personificado por São Denis, o primeiro bispo de Paris,  cultuado como protetor dos monarcas. No século III foi decapitado pelos romanos e, mesmo assim, carregou sua cabeça por 10 km: de Montmartre até o portão da cidade, hoje conhecida como Porta de São Denis. Há também a proteção feminina: Santa Genoveva salvou Paris de Átila, o Huno em 451.

portão do castelo de Versailles

Clóvis, rei dos francos, fez de Paris a capital de seu reino em 508. Em todo período medieval, os francos asseguram as construções de monastérios e um reino cristão foi sedimentando a cultura monárquica que fundou sua descendência em Luis IX no século XIII até a decapitação de Luis XVI no final do século XVIII pelos Revolucionários Republicanos.

Conciergerie na île de la Cité

Em 1868, Paul Lafargue casou-se com Laura, a filha caçula de Karl Marx. Nascido em Cuba, Paul era filho de um francês e de uma judia. Enviado a Paris para estudar medicina, tornou-se um apaixonado militante socialista. Na época, os trabalhadores nas oficinas parisienses trabalhavam em média 13 horas por dia, e o pior, ainda estavam convencidos de que o trabalho em si mesmo era uma atividade dignificante para si e benéfica para o progresso social. Com a latinidade nas veias, Paul confrontou o sogro de forma viceral ao publicar em Paris o ensaio O Direito a Preguiça, em 1880.

entrada do palácio de Versailles

Lafargue  levantou seu brado contra a visão hegemônica da santificação do trabalho, promovida por escritores de direita e de esquerda, por economistas liberais e socialistas tapados. Para ele, o trabalho dignifica o humano no limite imposto pelo ócio e o lazer. Quando não há mais condições de praticar o ócio e dedicar-se ao lazer, o trabalho tornou-se um valor em si e ao mesmo tempo, ferramenta para o trabalhador ser reconhecido como consumidor. Trabalhar para consumir é uma atividade alienada pois o trabalho visa um fim: obter bens, mercadorias marcadas por signos de status e poder.

pedinte nas proximidades da Galeria Lafayette,
o templo do consumo

O panfleto revolucionário de Laforgue foi redigido num tempo em que a burguesia industrial levava a exploração do trabalhador ao máximo na construção do modelo capitalista. O sucesso deste texto em Paris é inflamante na medida em que interrogou o contexto histórico no período do 2º Império, governado por Napoleão III. Fundamentalmente é essa Paris de Laforgue que os turistas mais veem.

Avenida Champs Élysées

As transformações no espaço publico para acolher efetivamente os ideais da burguesia dominante é a Paris do primeiro plano de percepção estética. Escavando os substratos dos planos subjacentes, o visitante pode vestir a fantasia de um arqueólogo e descobrir os feitos do 1º Império de Napoleão Bonaparte, os vestígios da monarquia cristã devota de São Denis, Santa Genoveva e São Luis, o rei que se tornou santo.

Pessoa no Google

quarto de Pessoa no campo de ourique em Lisboa

13 é um número milagroso para a cultura portuguesa. Em 13 de maio na Cova da Iria, as crianças pastoras viram e ouviram a imagem da Virgem de Fátima invocando a reza do rosário para nos proteger do comunismo ateu e materialista. No 13 de junho o padroeiro Santo Antonio é invocado para o feliz encontro, o casamento. Como numa reedição de Eros, o monge franciscano recebe preces e louvores.

Fernando António Nogueira Pessoa, nascido em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos em 13 de Junho de 1888. O mais expressivo nome da literatura portuguesa (ao lado de Camões), Fernando Pessoa inventou-se muitos para conter uma escrita fluída que cartografou a lingua materna numa miríade de possibilidades poéticas. O Ser e o Sentir enovelaram-se para sempre de modo oblíquo.  A extensão do bau de escrivinhador lisboeta pode ser medida pela homenagem prestada pelo Google no dia de hoje, em que se rememora sseu 123º aniversário:

http://www.google.com.br/#q=Fernando+Pessoa&ct=fernandopessoa11-hp&oi=ddle&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=1e33de1689560958&biw=1123&bih=468 

casa onde Fernando Pessoa passou seus últimos anos

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=2233

 

Inaugurada em Novembro de 1993, a Casa Fernando Pessoa foi concebida pela Câmara Municipal de Lisboa como um centro cultural destinado a homenagear Fernando Pessoa e a sua memória na cidade onde viveu e no bairro onde passou os seus últimos quinze anos de vida, Campo de Ourique.

Jardim Zoológico de Lisboa

vista aérea do teleférico
 Ao redor deste lago, com organização impecável, situa-se o Jardim Zoológico de Lisboa (Portugal) com uma das melhores coleções de animais de todo o mundo, reunindo nos seus 120 anos de existência, mais de 2000 animais de 360 espécies diferentes, divididos da seguinte forma: 114 Mamíferos;  157 Aves;  56  Répteis; 5 Anfíbios e Artrópodes. Nesta diversidade estonteante de formas e cores, o passeio deve começar pelo suave deslize dos carrinhos teleféricos sobre as copas de centenárias árvores. O expectador terá uma visão do conjunto do Jardim e poderá escolher seu caminhar voyerístico pelas formas mais primitivas de vida animal.

o Jardim com aeronave TAP

Ao contrário das focas, os leões-marinhos têm orelhas e deslocam-se com facilidade em terra, erguendo o corpo e impulsionando-o para a frente com o auxílio das barbatanas anteriores. São animais sociáveis e gregários. Esta espécie é a mais frequentemente encontrada em parques zoológicos, pois é normalmente mais dócil. Vocaliza mais frequentemente que as outras espécies de leões-marinhos.
Programa-se para não perder o show que acorre em duas sessões, uma de manhã outra a tarde. Se desejar um beijo desse bigodudo cheirando a sardinha, sente nas primeiras fileiras. Ele atravessa a platéia distribuindo seu charme e carinho. 
a saudação
O elefante-africano-de-savana é o maior animal terrestre. Incluindo tromba, mede cerca de 6 a 7,5 metros de comprimento  e pode atingir os 7500 kg. As grandes orelhas ajudam abanar para facilitar o arrefecimento corporal. O nariz forma a tromba, muito enrugada, que apresenta dois apêndices digitiformes na extremidade, usada para cheirar, manusear objectos, recolher alimentos e água e ainda para defesa, ataque ou demonstrações de afecto. As presas são os dentes incisivos superiores e crescem durante toda a vida. São usadas para combater, para escavar raízes e para arrancar a casca das árvores. 
São animais gregários, apresentando ligações muito fortes entre si e um comportamento cooperativo. O grupo é conduzido pela fêmea mais velha, a matriarca, que detém os conhecimentos sociais do grupo e das características do meio. Esta tem uma influência decisiva sobre o comportamento dos restantes elementos do grupo. Os machos vivem sozinhos ou em pequenos grupos temporários.

o maior mamífero terrestre

 
 Na categoria altura, a girafa é imbatível, podendo atingir  até 5,5 metros. Nas horas de maior calor preferem ruminar à sombra. Conseguem permanecer longos períodos sem beber,  e quando o fazem ficam extremamente vulneráveis aos ataques dos predadores. Formam pequenos grupos constituídos por um macho e respectivas fêmeas e jovens machos solteiros. Estes grupos podem reunir-se em grupos maiores e não são estáveis a longo prazo, pois há frequentes entradas e saídas de indivíduos. São animais pacíficos e não territoriais, mas existe uma hierarquia no interior dos grupos, que é mantida através de comportamentos intimidatórios.
Giraffa camelopardalis angolensis
O mais novo habitante do Zoo lisboeta é o filhote do Lémore nascido em maio, a primavera das espécies. Na escala evolutiva, os Lémores pertencem à ordem dos primatas. Sua condição de parente distante dos humanos é um atrativo espetacular para observar o tempo que dedicam ào cultivo da beleza de sua pelagem. São gregários e brincalhão. Impossível não lembrar do filme Madagascar: Eu me remexo muito…

o filhote do Lémure-de-cauda-anelada

 Finalizando este ensaio fotográfico, o colorido escandaloso do flamingo rubro, habitante nas ilhas das Caraíbas e nas ilhas Galápagos, nas margens de lagoas salinas, de rios e de estuários.  A plumagem tem tonalidade predominantemente carmim, com as rémiges pretas. O bico curva para baixo e é carmim, excepto na extremidade, que tem cor negra. O pescoço é muito longo e tem cor carmim, tal como as patas. A coloração carmim deve-se aos pigmentos presentes nos crustáceos e microalgas de que se alimentam.

o sono do flamingo

No site oficial, há uma série de informações sobre as espécies animais que estão representadas no Jardim Zoológico, o seu nome científico, a que ordem e classe pertencem, de onde são originários, quais os seus comportamentos e alimentação e o seu estatuto de acordo com o IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
http://www.zoo.pt/main.aspx
 
 

Passeio pela Península Ibérica VI

8ª Estação: MADRID – ESPANHA

A viagem de trem de Granada a Madrid foi longa e cansativa [infelizmente não há linha para trem de alta velocidade]. Chegamos ao Hotel Ganivet [recomendável] com chuva. Decididos subir a ladeira da Puerta de Toledo até a Plaza Mayor para almoçar no Restaurante Botin: o mais antigo restaurante do mundo (segundo a indicação do “Guinness Book”) está localizado na Calle de Cuchilleros e foi edificado em 1725 sobre uma antiga pousada construída em 1590: era abrigo dos comerciantes frequentadores da Plaza Mayor. O forno, sólido e decorado com notáveis azulejos, é o instrumento fundamental para servirem os clássicos assados da cozinha “castellana”.

forno do Botin

O mais tradicional [a estrela da casa!] é o “Cochinillo Asado”: um leitão cheirando leite materno, assado com lenha de carvalho produtor de bolotas que são o alimento preferido de seus pais. O resultado: clamor aos céus pelo leitãozinho ter tão pouca carne. Ao sabor, geneticamente transmitida pelos pais, acrescente o fogo da lenha do carvalho e poderá imaginar porque o “cochinillo” é tão saboroso. O couro pururuca derrete na boca! Nutridos pelo “cochinillo”, e com sombrinhas “ching-ling”, seguimos o passeio pela Plaza Mayor com suas lojinhas de suvenir e arredores. A chuva e o frio de um anoitecer às 16h impediram maiores aventuras.

interior do Mercado San Miguel

Nossa passagem por Madrid estava direcionada ao Museu Nacional del Prado e ao Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia. O primeiro por sua relevância histórica como acervo de pinturas e esculturas representativas da Idade Moderna. O Reina Sofia por ser abrigo da história da arte moderna no século XX, levada pela inflexão intencional de testar os limites da modernidade na própria definição conceitual. Restringidos pelo propósito e o tempo disponível, a cidade de Madrid limitou-se ao espaço entre os dois Museus e um passeio na praça em que se situam o conjunto de lojas da rede El Corte Inglês.

una calle de Madrid

 O Museu do Prado é para a cultura do sul da Europa, o que o Museu do Louvre é para o norte. Grande parte da coleção de ambos está relacionada às obras de arte que os monarcas adquiriram, por encomenda no comércio de telas e esculturas, e por abrigar, na função de mecenas, pintores retratistas das famílias monárquicas. O patrimônio artístico que o Museu do Prado abriga surgiu de coleções reais desde o século XVI e, com a dedicação de Carlos V [o mesmo que construiu o palácio em Alhambra], o acervo ganhou clássicos do Renascimento (Fra Angélico, Botticelli, Mantegna, Rafael), em especial, os artífices da Escola Veneziana: Tintoretto, Veronese e Bassano.  

O edifício foi projetado como Gabinete de Ciências Naturais em 1875 por ordem de Carlos III. Seu neto, Fernando VII, impulsionado por sua esposa, a Rainha Maria Isabel de Braganza, decidiu abrigar no edifício o “Real Museo de Pinturas y Esculturas”. Em 1819, o Real Museu abriu suas portas ao público e passou a se chamar: Museo Nacional del Prado.

homenagem ao célebre pintor espanhol na entrada do Museu do Prado

 

 Os clássicos pintores espanhóis estão representados com excelência na sólida formação renascentista e nos desdobramentos no século XVIII com o romantismo idílico e trágico. El Grego, Murillo, Velásquez e Goya, dentre outros, representam o “Século de Ouro” na arte pictórica Ibérica. A coleção percorre a produção artística italiana, alemã, britânica, flamenga e francesa. Lembrando o diálogo entre Jacques Lacan e Michel Foucault a propósito da tela “Las Meninas” de Velázquez [é a tela mais procurada pelos turistas, assim como a “Monalisa” no Louvre] fiquei contemplando o espelho onde o semblante do rei e da rainha está refletido.

 

peça publicitária do El Corte Ingles no aeroporto de Madrid

las meninas, hoje

Marcado, desde Granada, pelo efeito inquietante da imagem da “Virgem de la leche”, meu olhar estava dirigido em conhecer as diferentes representações deste tema mariano na Contra-Reforma e no Barroco Espanhol. Um feliz encontro com telas e esboços de Miguel Alonso Cano coroa minha busca.

Filho de carpinteiro escultor de retábulo, residente em Granada, Alonso Cano adquiriu seu aprendizado na oficina do pai. Em 1614, foi para Sevilha para ser admitido como aprendiz de Francisco Pacheco, um mestre renascentista no sul. Em seguida, Alonso iniciou sólida e duradoura amizade com Diego Velásquez. Versado na carpintaria escultural aprendida com o pai, Alonso foi contratado para construir retábulos nas Igrejas de Sevilha. Embora fosse mais conhecido como escultor, em 1630 presidiu o Sindicato dos Pintores – revelando o respeito e reconhecimento de seus pares. Em 1638, convidado para a corte em Madrid, recebeu encomenda da Comissão Real: retratar 16 reis medievais da Espanha. O conjunto de telas serviria como ornamento do Palácio Alcazar. Somente duas sobreviveram ao incêndio de 1734 e pertencem ao acervo do Prado.

acervo digital do Museu do Prado

Un Rey de Espanhã (1640) - Alonso Cano

As composições dramáticas de temas sagrados e profanos fizeram de Alonso Cano um mestre na pintura arquitetônica. Depois de estadia em Valência, onde foi torturado e acusado de assassinato de sua segunda esposa, retornou a Madrid; desde então, suas telas adquiriram a singularidade de seu estilo. Os trabalhos deste período final, como as duas versões do Cristo morto apoiado por um anjo, possuem densidade em volume e luminosidade. São de uma dignidade trágica desconcertante na perfeição anatômica e na expressividade afetiva.

acervo digital do Museu do Prado

Cristo muerto sostenido por un ángel

 Após um período em sua terra natal, retornou a Madrid em 1657 e compõe “San Bernardo y la Virgen”: magnífica representação iconográfica da “Virgen de la leche” diante de seu maior admirador: São Bernardo de Claraval, o poeta da Virgem Maria. Bernardo nasceu em 1091 num castelo da Borgonha na França. Filho de nobres, ao nascer, sua mãe teve um sonho que foi interpretado pelo monge freqüentador do castelo: “o menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus e curará as chagas de muitas almas”. Investido de sentido e piedosa libido maternal, o jovem Bernardo era admirado pelos mestres até sofrer um revés traumático: a morte da adorada mãe. Afogado na angústia e desespero refugiou-se nos prazeres mundanos e glórias terrenas, dedicando-se à carreira militar.

acervo digital do Museu do Prado

San Bernardo y la Virgen

O sentimento de culpa retornava lhe indicando o caminho da vida monástica. Ingressou na ordem cisterciense e logo depois decidiu fundar seu próprio mosteiro – levando consigo doze colegas monges. Assumiu para si a missão de proclamar a virgindade de Maria como ato de glorificação ao poder de Deus. Tornou-se assim um arauto, a tal ponto popular que o poeta Dante Alighieri encerrou sua obra prima, “A Divina Comédia”, narrando o encontro com São Bernardo e, pela boca do piedoso Santo, proclamou os louvores à Virgem Mãe: “No Céu, és a meridiana luz da caridade; na Terra, a fonte viva da esperança para a frágil humanidade! Senhora, és tão grande, tão poderosa, que pedir graças ao Céu, sem teu auxílio, é o mesmo que desejar voar sem dispor de asas! Tua benignidade não socorre unicamente a quem ora, pedindo; mas antes, vez sem conta, antecipa o pedido e a prece” (tradução de Hernâni Donato, Editora Cultrix)

A cena da vida de São Bernardo, retratada por Alonso, demonstra que o pintor espanhol conhecia a obra de Dante e realizou a síntese de um tema tão caro ao século XVII. O tratamento pictórico resgata as técnicas da pintura renascentista compondo um triangulo entre a imagem da Virgem no retábulo, a simetria do piedoso Santo e a presença testemunhal do monge que assiste o jorro de leite do seio da Virgem Maria atravessar o triângulo até boca de São Bernardo. O que aparece em primeiro plano é o leite!

patio do Museu Reina Sofia

Após imersão na arte clássica do acervo do Prado, visitamos o Museu Reina Sofia. O estado de desconstrução foi fatal! Tendo como referência os movimentos de vanguarda artística no período do pós Primeira Guerra Mundial, o acervo do Reina Sofia apresenta o Surrealismo e o Cubismo como expressão pictórica de dois gênios espanhóis: Salvador Dali e Pablo Picasso. Embora com poucos exemplares de ambos, a exposição dos trabalhos desses espanhóis está relacionada ao contexto histórico e artístico em que estavam inseridos. O painel “Guernica” de Picasso e “O grande Masturbador” de Dali são célebres representantes da contribuição que trouxeram para a arte contemporânea. Interrogando o estatuto da obra de arte e do museu como instituição, o Reina Sofia é um espaço privilegiado para conhecer o avatar da arte pictórica no século XX.

Uma cena marcante:  vinte crianças do ensino fundamental sentados diante da tela “O grande masturbador” observando atentamente as explicações estéticas proferidas por uma simpática professora de arte.  Após a exposição, os garotos levantavam a mão e faziam pergunta. Como um voyeur, olhava para a tela e para o rosto daquelas crianças.

le grand masturbateur (1929) - Salvador Dali

Indicações na web:

http://www.museoreinasofia.es/index.html

http://www.museodelprado.es/ 

http://www.googleartproject.com/  [a ferramenta do google permite um surpreendente passeio virtual]

http://www.youtube.com/watch?v=P8PU3jqRMHQ [reportagem do Jornal da Globo sobre o Museu do Prado]



 

 

Passeio pela Península Ibérica V

7ª Estação: GRANADA – ESPANHA

Partimos de Sevilha pela bela Estação Santa Justa, conduzidos por um agradável taxista espanhol [coisa rara!] que dizia de seu desejo: conhecer o Brasil de verdade e “não aqueles pacotes de Resort que as agencias daqui oferecem”.  O veloz, moderno e bem confortável, trem foi cortando o sul da Espanha em meio a plantações disciplinadas de oliveiras. Num percurso de 3 horas até Granada, a verde oliva predominava em relevos totalmente cultiváveis. Ainda era possível ver os últimos momentos da colheita: os azeites da Andaluzia são muito apreciados.

caquis nos jardins de Alhambra

 Chegamos a Granada no meio do feriado “de los reyes” com um único propósito: visitar o Palácio Alhambra e a Catedral com seu entorno que eram moradias e comércio árabe. Nesta cidade pode-se ter a exata proporção da presença da realeza. La Alhambra: um palácio mágico, sublime e encantador. Por razões de preservação do patrimônio, há limite de vagas para a visitação. Compre seu bilhete com antecedência (http://alhambra-patronato.es), assegurando assim sua viagem pelo túnel do tempo preservado na inscrição de letras árabes.

arabescos no Alhambra

No século VIII o Mar Mediterrâneo estava sob controle dos árabes muçulmanos. Dominando todo o norte da África, atravessaram o estreito de Gibraltar e conquistaram os principais rios no sul da Europa. Em 1238, Muhammad I. Al-Ahmar, fundador da dinastia Nazari, instalou sua corte na “Colina de la Sabika”, iniciando a edificação dos palácios que compõem  La Alhambra: O Palacio del Mexuar, o Palacio de Comares e o Palacio de los Leones. Os sucessores da dinastia Nazari reinaram até 02 de janeiro de 1492: o dia da rendição. “Los Reyes Católicos”, Isabel I de Castilha e Fernando II de Aragón assumiram o poder, impondo a unificação da Espanha. Allambra tornou-se sede do poder aristocrático cristão. Os árabes foram mortos, expulsos ou subjugados pela conversão ao cristianismo. A Andaluzia tornou-se as terras dos reis católicos. Versículos o Alcorão Sagrado, poemas e preceitos ficaram inscritos no estuque, eternizando a rica presença dos árabes na constituição histórica da cultura Européia que colonizou as Américas.

luminosa harmonia

Transformada em Casa Real e sede da Capitania Geral do Reino de Granada, La Alhambra passou por reformas e ampliação. Capturados pela beleza harmônica entre os arabescos em estuque e os azulejos, os Reis Católicos souberam preservar a riqueza deste patrimônio árabe. Conta-se, por exemplo, que foi na Sala de los Reyes que ocorreu a rendição e que, neste mesmo lugar, Cristovão Colombo recebeu a ordem real para embarcar para a América. As paredes do Alhambra são testemunhas de verdadeiros acontecimentos.

interior do Palacio Carlos V

Em 1526, Carlos V visitou Alhambra depois de casar-se com Isabel de Portugal. Lá decidiu construir um palácio e, deste lugar, comandou toda região andaluza. O Palácio Carlos V é um exemplo singular do Renascimento Espanhol. Atualmente, o palácio abriga o Museu de Belas Artes com um acervo significativo desde o século XV ao XVIII.  No salão de exposições temporárias,  pudemos apreciar as telas de Henri Matisse após sua primeira visita ao Alhambra em 1910.

patio de arrayanes - Alhambra

A Alhambra visitada por Matisse estava se organizando para ser um pólo de atração turística. Em 1870, La Alhambra foi declarada Monumento Nacional e, em 1984, La Alhambra y El Generalife foi considerada como Patrimônio Mundial pelo Comitê de Patrimônio Mundial da UNESCO. O grande trabalho de restauração ocorreu entre 1923-1936, coordenado pelo arquiteto Leopoldo Torres Balbás. A Alhambra de Matisse estava povoada pela leitura de “Contos de Alhambra”, escritos por Washington Irving – americano que se hospedou no Palácio  em 1829 e lá encontrou inspiração para seus contos.

cartaz da exposição

Nas telas, Bodegón Sevilla I e Bodegón Sevilha II, expostas pela primeira vez, Matisse expressou o feliz encontro com Alhambra. O catálogo da exposição considerou este encontro decisivo para uma nova perspectiva que o pintor adotou em suas telas: apreciar a realidade exclusivamente no visual. Para Matisse, a cor e a forma são recursos que convocam a uma nova realidade artística mais decorativa e autônoma, cuja razão de ser não é o modelo de representação tradicional, mas sim tudo que o possa incluir, tal como um tapete oriental. De Granada o pintor partiu para o Marrocos e ficou encantando com as odaliscas: fez várias interpretações pictóricas com este tema, tendo como elemento decorativo, as parades de Alhambra.

Alcazaba

Alcazaba é a fortificação militar de Alhambra e, portanto, o primeiro a ser construída. A Torre da Vela, a Praça das Armas e a Torre das Homenagens demonstram a forma triangular da edificação árabe. Generalife, na parte mais alta da colina, foi projetado para o rei se retirar do palácio e não ser importunado. Vários jardins e um pequeno palácio com um “Mirador Romántico”: de onde se tem a mais bela vista de toda a cidade. Lugar onde o rei contemplava suas terras e súditos. Lugar do ócio e aventuras românticas.

nave central da Catedral de Granada

O início da construção, em 1523, da Catedral de Granada marca a extensão da Capela Real, edificada entre 1506-1521. A Capela abriga o cenotáfio dos Reis Católicos Fernando de Aragão e Isabel de Costela, responsáveis pela unificação dos povos da Espanha sob monarquia única, enlaçando a Espanha com Portugal, Inglaterra e Áustria, no enlace matrimonial de seu filho e suas filhas. A Rainha Isabel era devota fervorosa e promoveu uma ampla reforma na Igreja Espanhola impulsionando o processo de catequização dos povos ameríndicos das colônias conquistadas.

acervo do Museu do Prado

la virgem y las ánimas del purgatório (1517) - Pedro Machuca

Admiradora da arte pictórica flamenga, D. Isabel colecionou um tesouro artístico ímpar dos séculos XIV e XV exposto na sacristia da Capela Real. A coroa da Rainha e a Espada do Rei fazem parte do conjunto de peças de ourivesaria que compõem o acervo. Uma tela despertou em mim certo estranhamento: a Virgem Maria está amamentando o menino Jesus com o seio desnudo; o garoto interrompe o deleite, vira em torção e fixa o expectador com um olhar intrigado. Este, por sua vez, não sabe se olha o belo peito da mãe ou para o rosto inquiridor do filho que foi interrompido em seu ato. Só depois, no Museu do Prado, fiquei sabendo da devoção dos espanhóis a “Virgem de la leche”. Tema pictórico predominante no período da Contra Reforma, a imagem de Maria amamentando seu Filho tornou-se ícone simbólico do vínculo da maternagem e desse modo, o imaginário familiar cristão foi sedimentando a cultura espanhola. No Museu de Arte de São Paulo, temos uma versão do tema na tela “A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração” de Giampietrino, filho da Lombardia no início do século XVI.  

"A Virgem amamentando o menino e São João Batista Menino em Adoração"

Indicações de vídeos:

1) visadas de Alhambra com perspectiva nos elementos árabes da arquitetura e decoração [atente para as letras árabes inscritas nas paredes e no belíssimo solo musical]:

 http://www.youtube.com/watch?v=zxMi5gh7wrc&feature=related

2) passeio pela Catedral de Granada com canto gregoriano ao fundo:

 http://www.youtube.com/watch?v=6G51nH49dUs&feature=related

PASSEIO PELA PENÍNSULA IBÉRICA IV

6ª Estação: SEVILHA – ESPANHA

Meu imaginário de Sevilha estava inundado de uma expectativa desejante. Cenário de referências estéticas determinantes, Sevilha é um porto no rio Gualdaquivir irradiando cultura por toda a península andaluza. Escolhemos um palacete restaurado como hospedaria, localizado ao lado da Catedral. Partimos do aeroporto de Lisboa e atravessamos o sul da Espanha pelas nuvens até escala de duas horas no aeroporto de Barcelona: deslumbrante! De lá, um teco-teco da Spanair nos levou a Sevilha. Mesmo lesados pelo taxista conseguimos chegar ao Hotel Petit Palace Marques de Santa Ana [recomendávell]. Impressionados pelo labiríntico das ruas, conseguimos estabelecer algumas coordenadas geográficas.

detalhe do palácio na Praça da Espanha

 Pela manhã, um passeio de coche para conhecer os principais pontos de visitação permitiu estabelecer escolhas [uma infecção de garganta limitou; um feriado inesperado, limitou mais ainda]. Sevilha estava fervilhando. As praças, as ruas sinuosas, as casas de tapas… todos os espaços estavam tomados por uma multidão de todas as idades. Nunca vi tamanha concentração de carrinhos de bebês por metro quadro. Famílias inteiras vagueavam pelos espaços, dia e noite, sem parar. Só então viemos a descobrir: estávamos numa grande festa familiar, “A Cabalgata de los Reyes Magos”. No dia 05 de Janeiro às 13h a cidade fechou suas portas para assistir a Cabalgata de Reyes Del Ateneo.

carro alegórico na Cavalgada dos Reis

O cortejo partiu da Universidad de Sevilha, situada no prédio da antiga Fabrica Real de Tabaco [cenário legendário da ópera Carmem, de Bizet]. Percorreu várias regiões históricas, atravessando a Puente de Isabel II, seguindo para Triana [localizada na outra margem do rio Galdaquivir]. Retornando pela Puente de los Remedios até finalizar na Universidade. É um grande espetáculo tradicional de união familiar: crianças enfeitadas sobre carros alegóricos atiram caramelos e guloseimas sobre o publico assistente. Bandas musicais [estilo fanfarra], formadas por escolares, animavam as caravanas que antecipavam a passagem do trono de Melchior, Baltazar e Gaspar – os Reis Magos seguidores da estrela brilhante.

fim do desfile - tapete de caramelos pisoteados

Um tapete de caramelos, pisoteados por cavaleiros e carros alegóricos fica como rastro e resto desta festa infantil. Crianças com sacolas repletas de doces que deverão ir para o lixo no dia seguinte. Aos o desfile, os núcleos familiares retornam aos seus lares para trocar presentes e saborear a “torta de los reyes”: vendida aos milhares em toda casa de doces. A epifania, festejada no suposto dia em que os Reis Magos encontraram com o menino Jesus, é um aspecto interessante para marcar a presença determinante da cultura árabe na Andaluzia. Os beduínos que desfilavam no cortejo faziam parte do esquadrão de proteção a cada um dos Reis. Seus trajes e a cor da pele demonstravam suas origens:  magos do oriente.  São eles que trouxeram os presentes para do Deus menino: incenso, ouro e mirra. Presentes que os espanhóis receberam, atualmente, naquela manhã de inverno, com manchete no maior matutino do País: “Os Reis Magos são chineses: a China anunciou que vai comprar parte da dívida interna”.  Um bom presente no momento de crise econômica!

Gualdaquivir, visto da Torre do Ouro

06 de Janeiro é feriado religioso: no dia dos Reis Magos também se comemora Nuestra Señora de los Reyes, patrona de Sevilha e da Arquidiocese. Em meio a isso tudo, conseguimos visitar apenas a Catedral, com sua magnífica torre La Giralda; a Plaza de Toros de La Real Maestranza; a Torre del Oro [que abriga o Museu Naval] e, a exuberante Plaza de España. Sevilha é um espetáculo, uma cidade monumental: seu patrimônio histórico sobreviveu icólume as guerras mundiais. Sua história remete aos Imperadores Trajano e Adriano em seus propósitos expansionistas. A cidade murada seguia o padrão das construções romanas: ruas com casas chamadas “domus”, residências de uma família. Com o controle das navegações pelo mediterrâneo, os impérios árabes-muculmanos foram se estabelecendo na Península Ibérica. Córdoba e Sevilha foram grandes centros de irradiação da cultura e comércio árabe. Artigos de luxo (tapetes, veludos, sedas, porcelanas, moveis, jóias, perfumes , etc) transportados em embarcações e caravanas partiam de Sevilha para abastecer o norte da Europa.

O rio Guadalquivir sempre foi o verdadeiro motor de Sevilha. O primitivo rio Tartessos, que os romanos chamaram Betis e os árabes wadi al-kabir (“rio grande”), de onde procede seu nome actual, nasce a 1600 metros de altura, na Serra de Cazorla, na província de Jaén, e percorre 590 km de terras andaluzas até chegar à costa atlântica. Este rio acolhe ao único porto fluvial de Espanha, situado a 80 quilómetros do Atlântico e muito próximo do Mediterrâneo, abrangendo uma superfície de três milhões de metros quadrados

Torre del Oro

A Torre del Ouro, construída no século XIII como abrigo militar de defesa é um marco para interpretar a história desta cidade medieval, edificada nas margens do  Gualdaquivir. Numa conferência em 1970, na Universidade de Keio (Japão), Michel Foucault citou o trabalho do historiador Pierre Chaunu, “Séville et Atlantique”, compêndio em 12 volumes publicados no final de 1950, para destacar a importância dos arquivos do Porto de Sevilha. Assumindo a perspectiva de uma “história serial”, Foucault afirmou: “A história não é, portanto, uma duração; é uma multiplicidade de tempos que se emaranham e se envolvem uns nos outros. É preciso, portanto, substituir a velha noção de tempo pela noção de duração múltipla (…) É preciso multiplicar os tipos de acontecimentos como se multiplica os tipos de duração. Eis a mutação que está em vias de produzir atualmente nas disciplinas da história” (in: “Retornar à História” – Coleção Ditos e Escritos II – Forense Universitária, 2000). A Torre pode considerada um exemplo disso que Foucault chamou de “duração múltipla”. Do árabe “Bury al Dahab” (Torre Dourada) em referência a sua parte superior revestida de azulejos dourados que refletiam o Sol e, desse modo, poderia ser vislumbrada a quilômetros de distância. Também designa o ouro das Américas que eram descarregado aqui.

La Giralda

La Giralda, erigida como minarete para a mesquita muçulmana, foi construída entre 1184 a 1198 por Ahmed Ben Baso [autor de outros minaretes idênticos construídos no norte da África]. O corpo da torre é de ladrilho e, desde 93 metros de altura, pode-se apreciar uma vista panorâmica de Servilha, subindo 35 rampas [não há escadaria] que foram construídas para que o almuédano, encarregado de convocar os fiéis para a oração, pudesse subir a cavalo.  Em 1558, com Sevilha dominada pelos reis católicos e com o enriquecimento impulsionado pelo ouro das Américas, as autoridades eclesiásticas decidiram edificar um novo arremate para que La Giralda simbolizasse o poder cristão. Substituiram as esferas de bronze por um novo campanário coroado por uma estátua de bronze em forma de cata-vento [“giraldilho”, de onde provém o nome da torre].

Pátio das Laranjas - Catedral de Sevilha

Nas capelas laterais encontram-se um dos maiores tesouros artísticos. Oitenta vidraças flamencas do século XVI ornamentam em reflexos multicores os objetos de decoração de cada capela. A Capela Real é dedicada em louvor e veneração a Nuestra Señora de los Reys. A Catedral abriga o mausoléu [construído em 1890] com partes do corpo de Cristovão Colombo que foi transladado de Cuba. Quatro heraldos, representando os reinos de Castilla, Léon, Aragón y Navarra, carregam nos ombros o esquife do grande herói espanhol, o descobridor da América. Há várias reproduções pictóricas de duas belas jovens virgens que foram martirizadas no século III pelo prefeito romano de Sevilha por terem se recusado a participar das celebrações à deusa Vênus. As jovens irmãs, Justa e Rufina, foram santificadas e veneradas como padroeiras da cidade. Nas telas são sempre representadas juntas com traços de rara beleza. Santa Justa e Santa Rufina são aclamadas patronas dos ceramistas e sempre estão com peças de barro produzidas por seu pai e que elas vendiam nas feiras.

Sta Justa e Sta Rufina (1666) - óleo sobre tela de Bartolomé Murilo

esquife de Cristovão Colombo na Catedral

A Plaza de Toros de La Real Maestranza é o cenário recorrente no imaginário sobre Sevilha. Os torneios ocorrem no início do verão e continuam com a tradição – apesar dos politicamente corretos da atualidade. A arena com arcos abriga até 14 mil espectadores iniciou sua construção em 1761. Antes do século XIX, não havia a figura do toureiro, o matador. Aos poucos o cavaleiro dispensou seu instrumento e resolveu enfrentar o touro com seu balé de sedução. Os ornamentos na vestimenta, a capa e espada servirão ao matador para exercitar sua arte: a touromaquia. Enquanto ouvia as explicações da simpática guia de visitação, lembrava das cenas da ópera Carmem, a cigana sedutora. De igual modo, a cena do livro A História do Olho, de Georges Bataille, ressurgiu com intensidade diante da arena: “Granero distinguia-se de outros matadores pelo fato de não ter, de forma alguma, a aparência de um carniceiro, mas antes a de um príncipe encantado, muito viril, perfeitamente esbelto (…) A capa de um vermelho vivo, a espada brilhando ao sol, diante do touro agonizante cujo pêlo continua fumegando, deixando escorrer sangue e suor, completam a metaformose e realçam o aspecto fascinante do jogo.” (Cosac & Naify, 2003).

vista aérea da Plaza de Toros

fragmento da arena de toros