Marcio Mariguela

Psicanálise & Filosofia

meio século

I

uma conta a mais na contagem do conto

de conta em conta, o tempo se conta na carne trêmula

numa contagem sem conto, o tempo desconta no espírito enrijecido

não mais que um conto para contar o desconto pelas sandices emudecidas

em que conta é posssivel contar o incontável?

se todas as contas ficam pelo meio, nos entremeios o conto se conta

II

as contas de um colar de pérolas determinam o valor em quantidade

as contas de uma guia de preto velho determinam o valor em qualidade

as cotas de uma empresa é quantidade

as cotas de ocio roubada do tempo veloz é qualidade

as contas para pagar é o preço de carne ofertado no mercado

as contas a receber é a esperança lançada no além tempo

Como pode um conto contar uma vida? Um conto de réis, Cem conto?

o valor é uma contagem: quanto vale uma vida? Escravo bom é escrevo vivo!

para quem se libertou, a contagem de seu valor é um ato de autonomia

a vida vale o tanto que se é capaz de fazer valer

III

valorar é uma ato supremo de liberdade. Cada coisa tem o valor que dou a ela!

escravidão é submeter-se ao valor das coisas pelo mercado.

um por de sol no outono vale mais do que o ouro

as lágrimas de plenitude vale mais do que um diamante

o vermelho rubro da flor vale mais que rubi

quem estabelece o valor? quem valora? Essa é a questão!

IV

o valor da existencia é a inscrição de uma diferença com a potencia de invenção

inventar o valor para contar o tempo que flui sem valor e direção

na contagem do tempo o valor da vida vai solidificando o passado

lugar por onde se passou vira chão para ir e vir sem melancolia

lembranças sorridentes de uma contagem sem fim

 

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Curso de Extensão em Psicanálise – Freud, leitor de Nietzsche III

Curso de Extensão em Psicanálise – Freud, leitor de Nietzsche (III)

Ministrado por: Marcio Mariguela, psicanalista e professor de filosofia na UNIMEP

Cronograma: 25/02; 24/03; 14/04; 26/05; 23/06

Horario: 9 as 12h – Vagas Limitadas: 20 – inscrições: mmariguela@gmail.com

Valor: R$ 200,00 – Certificado de Participação

Local: Clinica de Psicanálise de Piracicaba- -Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto

 

 Justificativa: A numeração designa série. Houve dois tempos em que demonstrei a leitura realizada por Freud da obra nietzchiana. No primeiro, centrei o conceito “super-homem” numa irônica citação de Freud à Nietzsche no capítulo X “A massa e a horda primeva” do livro Psicologia das Massas e Analise do Eu de 1921: “No princípio da história humana ele (o pai da horda) era o super-homem, que Nietzsche aguardava apenas no futuro”. Demonstrei que a referência aqui é o livro Assim Falou Zaratustra. No segundo tempo, investigamos a nota de rodapé no livro O Eu e o Isso de 1923, onde Freud alinhou o conceito “inconsciente” na 2ª tópica do aparelho psíquico, ao sentido que o mesmo conceito possui na obra de Nietzsche. Neste caso, definimos alguns aforismos de A Gaia Ciência para levantar hipóteses interpretativas da conjunção de sentido entre ambos.

Neste terceiro tempo, vamos investigar a inclusão de dois parágrafos na edição de 1919 da Interpretação dos Sonhos. Freud reeditou várias vezes sua obra fundadora da psicanálise e, em cada uma delas, acrescentou notas e parágrafos que permitem acompanhar a demarche de sua prática clínica e elaborações teóricas. Freud constatou que a terapia psicanalítica revelou “pela primeira vez que por trás dos sonhos se ocultavam um sentido e um valor psíquico”. Naquele tempo (1900) Freud disse que estava “inteiramente desprepado para descobrir que esse sentido era de caráter tão uniforme”. No item B “Regressão” do célebre capítulo VII “Psicologia dos processos oníricos”, encontra-se os elementos fundamentais para avaliar o “carater uniforme” do sentido do sonho. Se o aparelho psíquico funciona em três registros distintos (Isso, Eu e Supereu), toda percepção consciente esta determinada por traços minêmicos constituitivos na história do bicho falante em sua condição ontogenética e filogenética.

No final do item B (parágrafos de 1919), Freud afirmou que “o sonhar é, em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, moções pulsionais que a dominaram e dos modos de expressão de que ele dispunha nessa época. Por trás dessa infância do indivíduo (ontogênese) é-nos prometida uma imagem da infância filogenética”. Neste ponto, o nome de Nietzsche é invocado: “Podemos calcular quão apropriada é a asserção de Nietzsche de que, nos sonhos, ´acha-se em ação alguma primitiva relíquia da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta´; e podemos esperar que a análise dos sonhos nos conduza a um conhecimento da herança arcaíca do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato”. O aforismo 12 “Sonho e Cultura” do Humano, Demasiado Humano – citado entre aspas -demonstra que Freud leu esse livro de Nietzsche, publicado em 1878. Vamos reconstruir os argumentos de ítem B do capítulo VII tramando com os aforismos do  capítulo 1  “Das coisas primeiras e últimas” do livro de Nietzsche.

Bibliografia:

FREUD, Sigmund A Interpretação dos Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Volume V. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

NIETZSCHE, Friedrich Humano, Demasiado Humano. Tradução: Paulo César Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

ASSOUN, Paul-Laurent Freud & Nietzsche: semelhanças e dessemelhanças. São Paulo: Brasiliense, 1989.

MONZANI, Luiz Roberto Freud, o movimento de um pensamento. Capítulo 2 “A Máquina de Sonhar”. Campinas: Unicamp, 2ª edição, 1989

O retorno a Freud de Jacques Lacan: homenagem aos 110 anos de nascimento

Lacan com Freud

Na história da psicanálise e da cultura contemporânea, Jacques Lacan ocupa um lugar de rara singularidade. Formado em psiquiatria realizou sua residência médica na Delegacia de Polícia de Paris – para onde eram encaminhados os psicóticos que passavam ao ato de violências e crimes. Foi lá que encontrou Marguerite Anzieu. Transformada no caso Aimée, Lacan publicou sua tese em psiquiatria em 1932: Da Psicose Paranóica em suas Relações com a Personalidade (Editora Forense Universitária).  Com o propósito de render homenagem às comemorações dos 110 anos do nascimento de Lacan, relembro seu encontro com  Aimée, a sua amada.

A jovem mulher deixou sua cidade natal, onde era casada e tinha um filho pequeno, para seguir a carreira de escritora em Paris. Na pobre bagagem carregava dois romances escritos nos intervalos de suas atividades como atendente do serviço de correio. A desejosa escritora almejava o sucesso de público. De tanto prezar seus escritos, Marguerite foi procurar um editor que pudesse acolher seu desejo e tornar público assim suas histórias de amor.

Na penúria de sua vida, almejava o reconhecimento de seus talentos e atributos de escritora, mulher de letras. Nas diversas tentativas de se fazer publicável encontrou recusa e humilhação. Abatida em seu projeto apanhou uma faca de caça na pensão onde morava e foi para a porta dos fundos do teatro esperar a famosa atriz Huguette Duflos. Aproximou-se e perguntou se ela era mesmo Duflos. Após ouvir a confirmação, lançou-se sobre ela com a arma em punho e com o olhar injetado de ódio.

Do atentado, a vítima saiu com dois tendões da mão seccionados por tentar se defender. Dominada pelos presentes, Marguerite é conduzida à delegacia policial. Convocada a explicar seu ato, responde que há muitos anos Duflos estava fazendo escândalos contra ela e que pretendia roubar seu filho. Depois de dois meses na prisão foi transferida para a clínica do Hospital Sainte-Anne. O relatório de perícia médico-legal fez constar que a paciente sofria de delírio sistematizado de perseguição à base de interpretações com tendências megalomaníacas e substrato erotomaníaco.

Jacques Lacan ficou siderado e passou ocupar a função de analista para interpretar o drama delirante dessa mulher de letras. Antes de sua transferência para Paris, Aimée havia sido internada na casa de saúde Épinay-sur-Seine, em 1924, a pedido de seu marido René Anzieu, lá permanecendo por seis meses. Lacan citou o laudo de internação que descrevia o quadro sintomatológico: “Fundo de debilidade mental, idéias delirantes de perseguição e de ciúme, ilusões, interpretações, propósitos ambiciosos, alucinações mórbidas, exaltação, incoerência de quando em quando. Ela acreditava que zombavam dela, que era insultada, que lhe reprovavam a conduta: queria fugir para os Estados Unidos”.

A seguir, citou as palavras da própria paciente, extraídas do laudo. Dentre elas, destaco: “Antes de qualquer coisa que querem de mim? Que eu construa para vocês grandes frases, que eu me permita ler com vocês esse cântico: Ouçam do alto do céu, o grito da Pátria, católicos e franceses sempre”. Construtora de grandes frases, Aimée encenava em delírios o drama constitutivo de sua psicose paranóica.

O caso Aimée foi a porta para Jacques Lacan adentrar no território da psicanálise. O artigo “O Problema Econômico do Masoquismo”, publicado por Freud em 1923, serviu de instrumento para Lacan apreender a psicose paranóica de sua Aimeé. Entrando na psicanálise pela psicose, Lacan revolucionou a prática psiquiátrica e abriu a perspectiva de uma clínica da neurose que pudesse reinscrever a lâmina cortante da verdade freudiana: os sintomas de sofrimento psíquico são estruturas de linguagem. Os sintomas são um modo de o sujeito enunciar sua verdade. Os sintomas falam e é preciso ouvir a verdade do que dizem.

Dessa premissa fundamental, extraiu as conseqüências de uma ética da psicanálise que não cessa de interrogar a clínica do sofrimento psíquico. De igual modo, o retorno a Freud foi a estratégia de Lacan para realizar uma ruptura radical  com as práticas moralizantes que submeteram a formação do psicanalista a um conjunto de enunciados com propósitos adaptativos e normalizadores.

Elisabeth Roudinesco

Elisabeth Roudinesco, com sua propriedade arquivista, publicou Lacan, a despeito de tudo e de todos (Zahar, 2011) para fazer “um balanço, não apenas da herança desse mestre paradoxoal, mas também da maneira pela qual meu trabalho foi comentado dentro e fora da comunidade psicanalítica”. Seu trabalho no caso é a monumental História da Psicanálise na França (em dois volumes publicado pela Zahar na década de 1980) e a intrigante biografia Jacques Lacan, esboço de uma vida , história de um sistema de pensamento (Companhia das Letras).

Trinta anos depois da morte de Lacan, o ensaio de memória de Roudinesco cartografou os principais embates na história da psicanálise contemporanea para concluir: “Cumpre, nos dias de hoje, instaurar uma nova prática do tratamento, uma nova psicanálise, mais aberta e mais à escuta do mal-estar contemporâneo, da miséria, dos novos direitos das minorias e dos progressos da ciência. Retorno a Freud, sim, releitura infiel de Lacan, certamente, mas longe de qualquer ortodoxia ou qualquer nostalgia de um passado morto. Além disso, inspiremo-nos na pertinência da interpretação de Antígona, na qual Lacan fazia de uma reflexão sobre o genocídio a condição de um renascimento da psicanálise. O gesto permanece válido hoje: a psicanálise não saberia ser outra coisa senão uma investida da civilização contra a barbárie” (p.134).

publicado em 2007 na França
Nesta singela homenagem ao nascimento de Lacan, indico aos leitores do blog o livro Trabalhando com Lacan como o registro testemunhal daqueles que conviveram com Lacan em situações de análise intencional, da prática de supervisão e como participantes dos Seminários proferidos de 1953 a 1979. Organizado por dois respeitáveis seguidores do ensino de Lacan, o livro recolhe discursos que não cessam de interrogar o fundamento ético do princípio estabelecido por Lacan para a formação do psicanalista: “o analista só se autoriza por si mesmo”.
 
Como disse Safouan, “conhece-se o ‘medo’, para utilizar o termo de Niels Bohr, que suscitou no seio da comunidade psicanalítica esse aforismo de Lacan. Mas, em vez de nos deixarmos invadir pela angústia, melhor nela nos apoiarmos para fazer esta pergunta que ele nos deixou: como uma análise que se dirige não ao Eu enceguecido pel miragem de sua autonomia, mas ao lugar de onde o desejo, indestrutível, faz o Aqueronte se curvar, prepara (a análise) o terreno para essa autorização?”  (p.11).
 
na web:
 
documentário “Jacques Lacan: a psicanálise reinventada”, escrito por Elisabeth Roudinesco e dirigido por Elisabeth Kapnist ( dublado em espanhol, disponível em 7 partes no youtube)

 http://www.youtube.com/watch?v=SsML-riI84A&feature=BFa&list=PL1EA97EBD2E57B833&lf=results_video

Antonio Pacheco Ferraz: um piracicabano em Paris

CONVITE – CONVERSA DE BOTECO – 17/OUT/2011 – 20H – LAO BAR BISTRÔ – Rua do Vergueiro, 156 – Centro – Piracicaba

 

“Cheguei em Paris no ano em que Claude Monet morreu. Na época falavam de Picasso, Matisse, Renoir, Cezane. Eu não conhecia nenhum trabalho deles. Eu era um bisonho lá em Paris, um caipira de Piracicaba que estava com o pé numa civilização grande. Não sabia quem era Monet, Manet, Van Gogh.  Para mim o Alípio Dutra era um Deus. De modo que eu era muito bisonho, infantil mesmo. Eu tava sonhando, delirando com aquela cidade luz”.

 

 

auto retrato - pintado em Paris /1928

O SESI/Piracicaba, com apoio da Secretaria Municipal de Ação Cultural, convidou-me para expor um tema que pudesse relacionar arte e vida. De pronto pensei em resgatar a entrevista que realizei com o pintor Antonio Pacheco Ferraz em 1997, na época com 94 anos e pleno de histórias para contar. Durante uma tarde visitei o ateliê o mestre Pacheco e, com um certo tom psicanalítico, fui dando linha para ele narrar sua trajetória como pintor. Naquela ocasião o Brasil recebeu a visita das telas de Claude Monet, pertencente ao acervo do Museu Marmottan de Paris. A exposição das Ninféias de Monet atraiu uma multidão ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiroe ao Museu de Arte de São Paulo. 

procissão na Bretanha, 1976

Aproveitando o cenário, decidi convidar o Pacheco para uma exposição com o propósito de demonstrar sua matriz fundadora no impressionismo. Gentilmente aceitou o convite e, desse modo, tornei-me curador da mostra intitulada: “Antonio Pacheco Ferraz: um piracicabano na Bretanha”. Interessava-me as representações que fez da região norte da França: lugar considerado por ele o mais belo que já tinha visto. Revisitar aquela entrevista editada e publicada na Revista Impulso/UNIMEP nº 24 (http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/impulso24.pdf ) permite reinscrever a memória da viagem a Paris em 1926 – momento de efervecência cultural no mundo das artes parisiense com o lançamento do Primeiro Manifesto do Surrealismo.

Homem Nú - 1928 - Medalha de Bronze no Salão de Belas Artes de Paris

Ao chegar em Paris, a técnica impressionista era a estética hegemônica na Academia de Belas Artes onde Pacheco foi estudar pintura. O tempo da revolução das cores imputada pelos impressionistas na pintura moderna já havia se tornado padrão de formação para os jovens pintores. Uma nova rovolução estava  em curso: a aplicação da estética literária surrealista na produção pictórica. Dois espanhóis estavam detonando as regras de formação: Salvador Dalí e Pablo Picasso. Pacheco não ficou imune aos rumores da revolução surrealista. A tela “O sonho do pintor” de 1971 é uma obra testamento. Nela encontra-se um retrato histórico da síntese que ele realizou entre o impressionismo e o surrealismo. Pacheco banhou-se nestas duas nascentes e foi capaz de realizar uma síntese admirável.

 

o sonho do pintor (em vermelho, seu amigo português, Antonio Pelaio)

 “Esse quadro eu começei fazendo uma paisagem e depois transformei numa homenagem à Bretanha. Eu levei um ano para pintar. Nunca consegui expor. Tenho por ele o maior xodó. Varias vezes tentei tirá-lo daqui para expor mais tenho medo de que sofra alguma avaria. Esse quadro é a síntese da minha vida, é minha história”.

na WEB:

 

http://www.saopaulo.sp.gov.br/patrimonioartistico/sis/leartista.php?id=32

CONVITE – DIÁLOGO CINEMÁTICO

PROJETO PSICANÁLISE EM EXTENSÃO  – 15ª SESSÃO DO DIÁLOGO CINEMATICO

Filme: Querelle (Alemanha/França, 1982)

Diretor: Rainer Werner Fassbinder

29/outubro/2011 – 15h – entrada franca

Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba – SP

vagas limitadas – inscrição: mmariguela@gmail.com

Mediador:   Maurício José Pinto, graduação em História e  Filosofia pela Universidade Metodista de Piracicaba, membro participante dos grupos de leitura de Freud e Lacan em Piracicaba.

“Em minha opinião, ali não se trata de homicídio e homossexualidade, mas antes de alguém que tenta encontrar sua identidade com todos os meios disponíveis nesta sociedade. Este é propriamente o tema do romance Querelle – pelo menos em minha opinião. Para ser idêntico a si mesmo, Querelle tem que observar tudo o que faz a partir de dois ângulos. Do ângulo apontado pela sociedade como criminoso – portanto oriundo da baixeza – e que não o ajuda em nada, pois ele tem que mistificar a coisa por outro ângulo. Só assim Querelle consegue dar um passo adiante”.    Rainer Werner Fassbinder

Brad Davis deu vida ao Querelle de Genet

Voltar a Querelle através da obra literária de seu autor, Jean Genet, e através da interpretação em película realizada por R.W.Fassbinder pouco antes de morrer, é sempre um desafio: não é uma obra que agrada ao bom senso da moral. Querelle interroga a moral por vincular o ativo ao bem e o passivo ao mal. O bem e o mal são instituídos por Genet como juízo de quantidade. O forte é bom, o fraco é mau.  O forte é livre, o fraco é escravo.

 No ensaio de crítica da obra de Genet (originalmente como introdução às obras completas pela Editora Gallimard), Jean-Paul Sartre pretendeu desvendar o misterioso Genet. Se o destino é determinação externa, influência histórica objetiva ou cadeia causal, seu conceito rechaçaria, de forma lógica, a liberdade. Liberdade é possibilidade de escolha, possibilidade da qual, segundo Sartre, não se pode escapar. Nosso destino é a liberdade: “Somos condenados à liberdade”. Genet, por um ato de escolha, cria-se a si mesmo através de seus personagens: ladrão, adorador do Mal e, por fim, esteta e artista de sua própria experiência existencial.

Sua literatura é permanente celebração do amor homoerótico como estratégia para interrogar a relação entre forças. Querelle é composto por cáften, travestis, adolescentes angelicais, másculos marinheiros, soldados e assaltantes que têm em comum a predileção pelas práticas homoeróticas. Nesse mundo particular, as mulheres são coadjuvantes: senhoras de meia-idade, matronas cafetinas, se comprazem em realizar a fantasia edipiana acolhendo jovens amantes em seu leito. Há uma exceção: a mulher cantante (brilhantemente interpretada por Jeanne Moreau) entoando um lamento: “O homem mata o que ama”. Ela é o laço entre Querelle e seu irmão.

Jean Genet criou um mundo d´deles: “Entre eles, apenas para eles, estabelecia-se um universo (com suas leis e relações secretas, invisíveis) onde a idéia da mulher estava banida.” Trata-se, portanto, de criar a mulher no universo d´eles, definindo o papel passivo e feminino na relação homoerótica. Esse papel, Genet parece resguardar para si mesmo: ao lado dos másculos, violentos e não efeminados, tal como Querelle. Trapaceando com a sorte num lance de dados, Querelle afirma sua liberdade. As posições são definidas pela extensão quantitativa da força: os fracos e dos fortes. Os escravos e os livres.

na WEB:

– homenagem grega ao filme:

http://www.youtube.com/watch?v=rv6o7eRJpDk&feature=related

– um trecho do filme, dublado em itáliano:  

 http://www.youtube.com/watch?v=e_erNCBY55I

– Janne Moreau cantando com ensaio fotografico do filme:

http://www.youtube.com/watch?v=8gWqqF6j-WI&feature=results_video&playnext=1&list=PL658525E62A40AED4

Convite – Diálogo Cinemático – 14ª Sessão

PROJETO PSICANÁLISE EM EXTENSÃO

 14ª SESSÃO DO “DIÁLOGO CINEMÁTICO”

Filme:“Os Homens que não amavam as mulheres”  (Män Som Hatar Kvinnor) – Suécia/Alemanha/Dinamarca – 2009

Direção: Niels Arden Oplev

Mediação: Daniela Q. Pacheco – jornalista e psicanalista,  participante da Escola de Psicanálise de Campinas

17/Setembro/ 2011 – 15h – Entrada Franca – Vagas Limitadas

Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba-SP

Inscrições: mmariguela@gmail.com

 

Sinópse:

 “Os Homens que não amavam as mulheres” é a primeira parte da trilogia Millenium dirigida pelo dinamarquês Niels Arden Oplev. Adaptado do best-seller do escritor sueco Stieg Larsson, esse suspense possui uma carga dramática calculada com reviravoltas instigantes.

No entanto, o melhor é sua heroína Lisbeth Salander, uma hacker tatuada e coberta de piercings que, dados os seus conhecimentos em informática, poderia ter feito um download do próprio longa antes mesmo que esse chegasse aos cinemas. Com passado nebuloso, explicado mais ou menos em flashbacks, Lisbeth trabalha como freelance numa empresa de investigação. Quando questionada sobre seu trabalho, responde: ‘tiro cópias e faço café’. A mais pura verdade, embora não faça somente isso. 

A principio contratada para investigar a vida do jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist), editor de uma revista econômica que acaba se ser processado por calúnia, Lisbeth se une a ele depois que este é contratado por um milionário, Henrik Vanger (Sven-Bertil Taube) para investigar o desaparecimento de sua sobrinha, suspeita de ter sido assassinada há 40 anos. Como o corpo nunca foi encontrado o patriarca suspeita dos membros da própria família, que além de gananciosos por dinheiro e poder, possuem um passado nazista. 

Muito bem adaptado para o cinema, o filme não deixa para traz as questões centrais que o autor quis abordar no livro: desigualdade de gênero, racismo e nazismo. O autor, Stieg Larson (1954-2004) foi fundador e editor-chefe da revista sueca Expo, que tem por objetivo denunciar grupos neofascistas e racistas nos países nórdicos (Suécia, Finlândia, Dinamarca, Islândia e Noruega). Especialista na atuação das organizações de extrema direita, Larson é coautor de Extremhögern, livro no qual põe o assunto em evidência. Morreu vítima de um ataque cardíaco, pouco depois de ter entregado os originais dos romances que compõem a trilogia Millenium e assinar um contrato para transformar o primeiro livro em filme. (fonte: Alysson Oliveira, do Cineweb)

Ao trazer para uma cena “familiar” e atual a questão da segregação e da violência, que pode chegar ao assassinato, o autor dos livros, bem como o diretor do filme, propõem a questão de como a sociedade tem, por que não dizer, historicamente, lidado com a presença do estrangeiro (do Outro) como vizinho, e mais, como aquele que não pode ser semelhante, pois goza sozinho (que ousadia!), de uma outra maneira, e além, muito além do inteligível, impedindo cada cidadão do abrigo, da seguridade das fronteiras nacionais ou históricas.

Por outro lado, é possível observar como são também “violentas” as saídas encontradas pelos personagens oprimidos, particularmente por Lisbeth. Fugindo por completo do estereótipo de heroína de contos de fada, ela marca seu corpo, incendeia duplamente e rouba seu opressor, apropriando-se e gozando do que subtraiu. Não há nenhum ideal de justiça.  Mas então, que outra potencialidade ética – não furtar-se ao gozo – há nesse ódio e o que mais ele pode ocasionar?

na WEB:

http://www.youtube.com/watch?v=767LFKCkBhY&feature=results_video&playnext=1&list=PLBCBF9328646C7C4C

http://cinema.uol.com.br/ultnot/reuters/2010/05/13/estreia-os-homens-que-nao-amavam-as-mulheres-e-instigante.jhtm

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,os-homens-que-nao-amavam-as-mulheres-e-instigante,551373,0.htm

Convite – 13ª Sessão do Diálogo Cinemático

Projeto Psicanálise em Extensão CONVIDA para a 13ª Sessão do Diálogo Cinemático

 Filme: Total Eclipse (Eclipse de uma Paixão)

 Direção: Agnieszka Holland (Inglaterra, 1995)

Elenco: Leonardo DiCaprio, David Thewlis, Romaine Bohringer, James Thieree, Emmanuelle Oppo.

 20 / Agosto / 20011 – sábado – 15h

Local: Rua Prudente de Moraes, 1314 – Bairro Alto – Piracicaba/SP – Entrada Franca – Inscrições: mmariguela@gmail.com

Mediador: Márcio Mariguela, psicanalista e professor de Filosofia na Unimep

“Sobre uma estátua de Ganimedes” – (Paul Verlaine)

 Mas como? Nesta estação d´aguas, / Descanso, paz, tranquilidade, / Quem vejo, de frente e de costas? / Meu amiguinho Ganimedes!

Ah, fica conosco, menino, /Sacode um pouco nosso tédio / Com aquele jeitinho bom. / Então não és nosso irmãozinho?

 “Sangre Ruim” – (Arthur Rimbaud)

O tédio não é mais meu amor. O furor, a devassidão, a loucura, dos quais conheço todos os impulsos e calamidade – todo o meu fardo foi arriado. Apreciemos sem vertigem a extensão de minha inocência.  (…) Não sou prisioneiro de minha razão. Disse: Deus. Quero a liberdade na salvação: como obtê-la? Os gostos frívolos deixaram-me. Não tenho mais necessidade de abnegação ou do amor divino. Não lamento o século dos corações sensíveis. Cada um tem sua razão, desprezo e caridade: guardo meu lugar no alto desta angélica escala de bom senso.

 Verlaine e Rimbaud com absinto

Sinopse:

Em 1871, Paul Verlaine recebeu uma carta de Arthur Rimbaud, jovem camponês admirador do poeta. No envelope continha alguns poemas. Respondeu imediatamente:  “Vinde a mim, alma cara”; anexando à carta um bilhete de trem. Rimbaud chegou a Paris para o encontro com as anotações  daquela que seria sua obra prima: Uma Temporada no Inferno.

Verlaine morava com a família Mauté, pais de sua jovem esposa grávida. A presença desconcertante de Rimbaud na casa desiquilibra a frágil relação conjugal e por extensão, o protótipo de uma família burguesa na qual Verlaine foi se abrigar. Desse encontro eclipsado nascerá um poeta no crepúsculo de outro.

A vida do consagrado Verlaine é revirada pelo avesso. Vascilante, se deixa levar pela luminosidade do sol (representada de forma surpreendente por Leonardo de Caprio) e pelo torturante sentimento de culpa. Depois desse encontro, a poesia de Verlaine se transfigurou. A coletânea reunida em Femmes e Hommes, escritos em 1890, demonstra os efeitos, em ato, da potência de Eros, o Deus do enlaçamento.

 Ver: 

http://www.youtube.com/watch?v=_WF6nMTVfbY 

http://www.youtube.com/watch?v=0IaIK9jR9M4

Ler: 

RIMBAUD, A. Uma Temporada no Inferno & Iluminações. Tradução: Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Barléu Edições, 2004.

VERLAINE, P. Poemas Eróticos – Para ser Caluniado. Apresentação, seleção e tradução: Heloisa Jahn. São Paulo: Brasiliense, 1985.